Foto: Kate Farina

Foto: Kate Farina

Às 2h 55min do dia sete de abril de 2014, exatamente seis anos após escutar o coração de sua primeira filha, ainda na barriga, bater pela última vez, a designer Pamela Wagnitz entrava no Hospital Carmela Dutra, em Florianópolis, para dar à luz. Depois de perder as duas primeiras gestações, ler e pesquisar sobre maternidade, ela estava decidida: dessa vez, teria um parto natural humanizado. 

Após algumas tentativas frustradas de contratar uma equipe para ter seu filho em casa, Pamela não se deu por vencida e procurou por um hospital. Já em trabalho de parto, ela acabou tendo de ser transferida para um hospital que não era o de sua escolha. “Naquele momento eu sabia que tinha perdido meu parto, sabia da luta que seria lá no [Hospital] Carmela Dutra e o quão difícil seria vencer” – lembra.

Foi a partir deste momento que, apesar do desejo de ter um parto natural, a designer passou a fazer parte das mais de 50% de mulheres submetidas à cirurgia cesariana no país – mais do que o triplo do número recomendado pela Organização Mundial da Saúde, que sugere que o índice não ultrapasse 15%.

Como se não bastasse, neste dia Pamela também entrou para a triste estatística que indica que uma em cada quatro brasileiras sofre violência obstétrica durante o parto.

Humilhação, silenciamento e mutilaçã0

Invisível e pouco debatida inclusive entre mulheres, a “patologização do parto” (ou seja, a ideia de que dar à luz é coisa de hospital) prolifera nos hospitais e maternidades de todo o país, reforçando a crença popular de que o parto é (e deve continuar sendo), por natureza, um momento de dor e sofrimento.

Blindados pelo escudo do status e pela posição de suposta superioridade em termos de conhecimento em relação à gestante, muitos profissionais da saúde colocam em xeque o protagonismo da parturiente (afinal, quem “faz o parto” é o médico), programam cesáreas a seu bel prazer (conforme for mais conveniente para suas agendas); interferem no processo natural de dilatação (por meio da aplicação de ocitocina sintética) e de rompimento da bolsa; impedem a presença do acompanhante; privam a gestante de alimento e água durante o trabalho de parto; forçam posições e exames desconfortáveis; mutilam (corte do períneo que pretende aumentar o canal vaginal); humilham.

Foi exatamente isso que aconteceu com Pamela.

Quando chegou ao Carmela, a designer já estava com 6 centímetros de dilatação. “Fui deixada lá por mais de uma hora, o que fez com que os batimentos cardíacos do bebê diminuíssem. Não me deixavam beber ou comer nada. Após quase 10 horas, a médica sentou na minha frente e falou: ‘você já perdeu duas [bebês], né?’ eu acenei que sim com a cabeça e ela continuou ‘se você não for pra cesárea agora esse aí também vai morrer, mas a decisão é sua. Só decide rápido, porque não temos muito tempo’”.

Após passar pela cirurgia, Pamela foi impedida de pegar o bebê no colo. “Tive que brigar pelo meu filho enquanto era costurada e a médica me chamava de ignorante”, lembra a designer. “Ainda tive que ouvi-la falar para o anestesista que meu útero não estava contraindo e que, se ele não desse um jeito, ela ‘tiraria tudo’”.

A cesárea por medo

Atualmente, o Brasil é o país que mais realiza cesárias no mundo. Em 2011, data do último levantamento de dados a esse respeito disponível no site do SUS, o número total de cesarianas equivalia a 53,88% dos partos realizados no país. Os motivos alegados para a prática são diversos. Dentre os mais comuns, cordão umbilical enrolado no pescoço do bebê, pouca dilatação da mãe e realização de cesárea anterior.

Em um questionário elaborado para a realização desta reportagem, 150 mulheres foram perguntadas sobre os motivos que consideravam indicadores da necessidade de realização de cesárea. A maioria das repostas (73,2%) apontou para “cordão umbilical enrolado no pescoço do bebê”, seguido de “falta de dilatação da mãe” e “desproporção céfalo-pélvica”.

Para a doula Laura Muller Sagrilo, que acompanhou o parto de Pamela, todos eles são mitos utilizados para induzir cesarianas desnecessárias. “Pouca dilatação não existe. Existe não esperar a mulher dilatar. Estipulam um tempo pra dilatação acontecer e não respeitam a fisiologia do parto”, explica. Sobre o cordão umbilical, Laura afirma que dentro dele há uma substância gelatinosa que garante a passagem sanguínea e “O bebê pode se enrolar à vontade e sem danos.”

Em junho, o Conselho Federal de Medicina (CFM) modificou as regras para a realização eletiva da cirurgia cesariana no Brasil. Se antes as brasileiras podiam optar pelo procedimento já a partir da 37ª semana de gestação, agora a decisão só pode ser tomada após a 39ª semana. A resolução, que visa garantir a segurança das mães e dos bebês, parece surgir como um pontinho de esperança em meio à epidemia de cesáreas que toma conta do país, mas deixa uma dúvida: será que as gestantes recebem mesmo as informações necessárias para fazer essa escolha? Nosso questionário parece mostrar que não.

Nele, 88,2% das mulheres disse acreditar que o parto normal é o mais seguro tanto para a mãe quanto para o bebê, apesar de 71,4% delas ter afirmado que tiveram parto cesariano, sendo que em 61,5% dos casos o procedimento foi uma sugestão médica e não uma escolha da mulher. O questionário revela, ainda, que em 28,6 % dos casos o médico não conversou com a gestante a respeito dos riscos e vantagens de cada tipo de parto durante o pré-natal.

“A cesariana eletiva aumenta em 120 vezes o risco de o bebê ter problemas respiratórios ao nascer e em três vezes o risco de óbito materno. São dados que médicos não passam para gestantes no pré-natal, quando tentam induzir a cesariana sem necessidade.” – enfatiza Laura.

Em abril do ano passado a OMS lançou uma declaração sobre as taxas de cesáreas e estabeleceu que elas “são efetivas em salvar vidas maternas e infantis, porém somente quando realizadas por indicações clínico-obstétricas”. Laura, que também é educadora perinatal, explica que algumas das razões para se realizar a cirurgia são frequentemente diagnosticadas precoce e erroneamente, como sofrimento fetal agudo, desproporção céfalo-pélvica e parada de progressão.

Confira a lista com os casos em que a operação é, de fato, necessária: 

  • Prolapso de cordão com dilatação não completa
  • Descolamento prematuro de placenta com feto vivo fora do período expulsivo do parto
  • Placenta prévia ou centro-parcial
  • Bebê em apresentação transversa durante o parto ( ela explica que, nesse caso, também “é possível tentar a versão cefálica externa, uma manobra para  posicionar o bebê dentro do útero”)
  • Ruptura de vasa prévia
  • Herpes genital com lesões ativas no momento do trabalho de parto

Indústria da cesárea

Das mulheres entrevistadas para a realização desta reportagem, 45,5% declarou ter recebido ocitocina sintética na veia sem consentimento, 20% foram imobilizadas ou obrigadas a permanecer em posição ginecológica desconfortável durante o trabalho de parto e 27,5% foram impedidas de entrar em contato com o bebê logo após o nascimento. Os outros 7% das respostas ficou dividido entre humilhações verbais, sucessivos exames de toque e negligência no atendimento.

Laura, que também é coordenadora do Grupo Gestar, representante da ONG Artemis em Minas Gerais e criadora do Projeto Fênix para vítimas de violência obstétrica, decidiu tornar-se doula após passar, ela mesma, por uma experiência violenta durante o parto do seu primeiro filho.

Ela conta que, assim como a própria gestação, ter um parto normal era algo que ela já havia planejado. “Achei que querer era suficiente, que eu seria respeitada e que jamais iriam fazer algo que eu não precisasse, afinal estudaram anos pra isso. Acabei em uma cesariana sem necessidade alguma”.

Aqui vale lembrar que essa indústria que surgiu entorno da cesárea, cujo produto é o corpo feminino, é muito lucrativa em termos de dinheiro e econômica em termos de tempo, para os médicos que, ao realizar a cirurgia, não precisam cancelar toda sua agenda de consultas para dedicar horas e horas a um trabalho de parto para o qual ganharão menos.

“Fui chamada de gorda, estudantes entravam e saiam da sala, apesar de não terem me perguntaram se eu os queria lá, não pude tocar meu filho e nem mesmo usar meus óculos para conseguir vê-lo de longe. Essa experiência fez com que eu tivesse o desejo de fazer algo pra mudar isso, para ajudar outras mulheres.”, lembra.

Como alternativa a tudo isso, a doula ressalta a importância do parto humanizado e enfatiza que, apesar de todos os tipos de parto oferecerem riscos. “Um parto onde a gestante tem maior liberdade de locomoção, pode se alimentar e ingerir líquidos, receber apoio contínuo, ter sua intimidade e autonomia respeitadas e recursos de alivio da dor à disposição, tem maior sucesso no desfecho.”

Parece óbvio, mas essa ainda é uma realidade a ser alcançada.