O mercado tradicional, com raras exceções, não consegue readaptar devidamente uma mulher após a licença maternidade. Noites mal dormidas, cansaço, preocupação fazem com que algumas mulheres não tenham estrutura emocional pra retomar a antiga rotina de trabalho – e, às vezes, seu coração não aguenta deixar o pequeno sob responsabilidade de outra pessoa.

O pai? A empresa libera cinco (cinco!) dias de licença paternidade para que ele veja seu filho nascer e passe seus primeiros dias juntos. Na semana seguinte, a mesma rotina de sempre, como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, a mulher, passando por diversas transformações físicas, emocionais e hormonais, tem de cuidar do bebê muitas vezes sozinha. Terminada a licença maternidade, chega a bendita hora de optar ou não por deixá-lo em uma creche, com apenas 6 ou 4 meses de vida (dependendo da licença oferecida pela empresa).

Como resultado, em vários casos, a mãe pede demissão ou a própria empresa a manda embora, e, a partir da necessidade, diversas mulheres decidem abrir um negócio. Uma renda extra, que não exija tantas burocracias e deslocamento, mas que a traga prazer e flexibilidade com horários.

Foto: Laís Gouvêa (Tanto Mar Fotografia)

Observando e vivenciando essa situação, a pedagoga Ana Laura Castro e a administradora Camila Conti criaram a rede Maternativa com o intuito de gerar consciência sobre o que é empreender e qual o papel das mães nesse campo tão “arenoso”.

“O empreendedorismo materno é um recorte do empreendedorismo feminino. Ele surge não como uma diminuição da produtividade, mas como uma reorganização do trabalho para os horários que a criança demanda”, afirma Camila.

A principal atividade da Maternativa são os encontros apelidados de “cafeínas”, nos quais ocorrem debates de cocriação, troca de experiências, ideias, networking, questões de gestão. Juntas, elas sentem as transformações umas das outras e se conectam, compartilham vivências, angústias, alegrias, e negócios. Além disso, elas produzem conteúdo e divulgam trabalhos de outras mulheres em suas redes sociais.

Foto: Mayara Neves

“As empresas devem ser mais abertas ao diálogo, ouvir os pesquisadores no assunto e os seus próprios funcionários. A maternidade é uma transformação física muito produtiva, mas o mercado prefere deixar as mulheres nessa posição de incapacidade”, argumenta Camila.

Segundo as fundadoras do projeto, hoje em dia, as relações familiares são pautadas pelo trabalho, e isso não é saudável. Os pais passam cada vez menos tempo com seus filhos. É perfeitamente possível que as empresas adaptem o trabalho de suas funcionárias mães para serem feitos de casa, ou a flexibilizem os horários para seus funcionários que são pais. Porém, as empresas são normalmente dominadas por homens que, por mais que sejam pais, não têm a menor sensibilidade para as mudanças de vida da família com a chegada de um filho.

“Além do tempo das licenças serem biologicamente equivocados, não se olha para a infância”, atesta Ana Laura.

Cafeína. Foto: Mayara Neves

*Foto de destaque: Juliana Matos