Com Helena Bertho
Ilustração Marcella Tamayo

E, um dia, ela entrou em colapso. As diárias de 12 horas na empresa pesaram sobre sua alegria até massacrá-la. As tarefas domésticas e o cuidado com a filha aceleraram a respiração e deixaram o coração pesado e a sobrecarga se transformou em um medo de tudo e de nada. Era pânico. Aos 40 anos, a carioca Christiana Drummont se sentia derrotada pela vida e pela depressão. Culpava-se por não ter estudado o bastante, por não ter se preparado para a pressão e as exigências do mercado de trabalho. Culpava-se por não dedicar mais tempo para a filha, que demandava atenção nos estudos. Culpava-se por não exercitar-se e por não estar sempre cheia de desejos sexuais. O ex-marido assistia ela sucumbir sentado na plateia, acreditando que aquele era um espetáculo do qual ele não fazia parte.

“Com essa corrida pela independência da mulher, acabamos trabalhando como eles, mas ganhando menos. As tarefas de casa continuam sendo nossas. A educação do filho é obrigação nossa. A gente que larga trabalho pra ir à reunião da escola, a gente que falta quando ficam doentes”, desabafa ela.

“A gente vive numa corrida que não cessa. Eu sinto que falta cuidar da minha saúde, cuidar de mim. E, mesmo assim, sinto que deixo a desejar com a minha filha”.

Christiana se preocupa com assédio sexual, direitos reprodutivos e igualdade de salários entre homens e mulheres, mas a verdade é que a não-divisão das tarefas domésticas é a luta feminina que mais sente na pele, como milhões de outras mulheres ao redor do mundo. Por essa razão, não espanta que a Organização das Nações Unidas (ONU) tenha incluído o assunto entre as nove metas para conquistar a igualdade de gênero quando criou, no final de setembro, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. As metas foram oficializadas na última assembleia geral, em Nova York, e assinadas pelos países membros, incluindo o Brasil.

Pode parecer pequeno discutir quem lava a louça quando há tantas mulheres sendo estupradas e morrendo em decorrência de abortos clandestinos e surras de parceiros, mas a verdade é que o problema atinge as mulheres de maneiras muito mais profundas do que se imagina – e, estudiosos apontam, pode ser a raiz da maioria dos empecilhos para o pleno empoderamento. “A divisão sexual do trabalho é base fundamental das injustiças e desigualdades de gênero das sociedades contemporâneas”, opina Flávia Biroli, autora do livro “Feminismo e Política” (Boitempo, 168 página, R$ 34) e vice-diretora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB). “Quando observamos a subrrepresentação das mulheres na política e em cargos de comando das empresas, vemos que a falta de tempo está logo na raiz. E isso acontece porque elas estão sobrecarregadas pela dupla jornada. Em nosso país, as mulheres gastam o dobro de tempo com tarefas domésticas do que os homens. Quem vai pensar em carreira política depois de um dia de 14, 15 horas?”

Leia mais: Como a ONU quer virar o jogo a favor das mulheres

A posição de Flávia é compartilhada por diversas especialistas da área, inclusive na ONU, e comprovada por uma série de levantamentos e estudos recentes. A base do argumento é a seguinte: como têm menos tempo livre, as mulheres não conseguem se dedicar a uma participação política mais ativa, têm medo de assumir cargos de liderança que, eventualmente pelo menos, exigem horas extras, e, com mais frequência, abandonam os trabalhos por não dar conta do excesso de tarefas, se tornando reféns financeiras de maridos, abusivos ou não.

Ou seja, a verdadeira revolução feminina vai passar pela cama, pelo cinema, pelas empresas e pelo Congresso, mas precisa chegar também na pia!

Quero provas!

A ONU faz questão de destacar que nenhum país no mundo atingiu, ainda, a equidade de gêneros – e parte disso se deve a quem faz o quê dentro de casa após o expediente. “A questão da divisão sexual do trabalho é chave, e sempre foi, pra igualdade de gênero. Todas as relações sociais estão baseadas nas construções dos papéis de gênero em que, historicamente, as mulheres foram vinculadas ao cuidado da família e da casa, enquanto a esfera pública permanecia no domínio masculino”, explica Camila Almeida, Analista de Programas ONU Mulheres no Brasil. É por conta disso, defende ela, que mulheres ainda ganham 70% do que os homens em nosso país.

A situação por aqui, aliás, não só anda mal, mas vem piorando. Em 2012, 26% das empresas brasileiras não tinham funcionárias em funções de comando. Em 2013, 33% e em 2014, 47%. De acordo com a pesquisa “Women in Business 2015” (Mulheres nos Negócios), da Grant Thornton, hoje esse número escalou para 57%, colocando o Brasil no vergonhoso 3० lugar entre os que menos promovem mulheres no mundo. É importante analisar esses dados sob a luz de uma outra pesquisa, feita recentemente nos EUA. Segundo a “Women in The Wokplace” (Mulheres no Local de Trabalho), da McKinsey, 65% das mulheres com filhos nem sequer desejam ser promovidas a cargos de liderança porque não acham que dariam conta de balancear vida profissional e responsabilidades domésticas. Outros 58%, dentre elas, acha que isso traria estresse demais para suas vidas.

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“Para elas, o aceso ao emprego também é dificultado e, entre jovens desempregados, a maioria é de mulheres que, muitas vezes, enfrentaram uma maternidade precoce e tiveram que assumir os cuidados da criança sozinhas. Quando falamos de qualidade de emprego, como contratos estáveis e relações de trabalho saudáveis, vemos que elas também estão em desvantagem”, atesta Camila.

“Tudo isso aponta pra uma conclusão: não adianta estimular a participação das mulheres no mercado sem trabalhar questões de fundo, como a divisão do trabalho.”

A ideia de que o papel da mãe é mais importante que o paterno só tem reforço científico enquanto dura a gestação e a amamentação – e mesmo durante este período, o companheiro pode contribuir ajudando ainda mais nas outras tarefas da casa ou da maternidade. Após esta fase, não existe nenhuma função que ele não possa, ou deva, cumprir em relação à criança. Pelo contrário, um engajamento paterno maior estreita laços com os filhos, aumenta o suporte emocional da criança e ajuda as mães a desempenharem melhor a função, já que estão menos estressadas. A mentira de que os papéis de gênero têm um fundo biológico, destaca Camila, tem feito muito mal às mulheres – e a maioria das pessoas ainda acredita nela.

Foi o caso do ex-companheiro da diarista mineira Maria da Lapa Lopes Siqueira. Hoje aos 51 anos, ela ainda enfrenta as consequências dessa visão. Grávida, sem formação e abandonada pelo pai da filha aos 18 anos, ela se viu forçada a migrar para São Paulo deixando para trás a menina, aos cuidados da mãe. Só assim pode trabalhar horas suficientes, como faxineira, para pagar sozinha o sustento da filha. Mesmo quando se casou novamente e teve outro filho, há cerca de 18 anos, ela não conseguiu se livrar das consequências dessa cultura.

Sua rotina é exaustiva: acorda às 4 da manhã, faz um trabalho físico pesado e, ao chegar em casa, à noite, ainda tem que lavar roupa, cozinhar, limpar a casa. Às sextas-feiras, ela busca adiantar um pouco da faxina para poder descansar por algumas horas ao final de semana. O marido, pedreiro, vive de bicos e não tem renda fixa. Logo, ela não pode assumir menos trabalhos, já que o sustento da casa é garantido por ela. “E as tarefas de casa ele não faz. Ele nem sabe fazer. É muito cansativo. No fim, eu trabalho duas vezes e fico exausta. Tô sonhando com a aposentadoria”, revela.

Maria nos lembra de algo importante: é impossível pensar em direitos das mulheres sem considerar fatores como classe social e cor. “Hoje, no Brasil, além de uma hierarquização entre homens e mulheres, com elas abaixo, existe uma verticalização das relações entre mulheres, em que as ricas ou de classe média estão no topo”, lembra Flávia. “As carreiras das mulheres de classe média estão ancoradas no trabalho doméstico de mulheres pobres. Com a crise, voltou a crescer o números de domésticas no Brasil. E é bom lembrar: o trabalho doméstico remunerado só existe quando há altos níveis de desigualdade.”

É nas classes mais pobres que o problema causa mais sofrimento às mulheres, com algumas delas tendo que abandonar os filhos com os avós para poderem sustentá-los, como Maria. É também entre faxineiras e trabalhadoras braçais que esforços físicos repetitivos, no trabalho e em casa, mais causam doenças precoces.

Mesmo assim, seria errado pensar que as mulheres de classe média também não sofrem com esse problema. “Mesmo pagando babás e faxineiras, são elas que administram a casa, são elas que vão a reuniões da escola e são elas que faltam no trabalho quando os filhos ficam doentes”, lembra Wendy Goldman, historiadora emérita da Carnegie Mellon University, nos EUA. “As mulheres também se preocupam demais com a família e seu bem estar e carregam isso consigo o tempo todo no trabalho, aumentando problemas emocionais. Os homens desfrutam de todas as alegrias proporcionadas por uma familia, mas não têm que trabalhar por ela no mesmo nível.”

ILUSTRAÇÃO: Marcella Tamayo

ILUSTRAÇÃO: Marcella Tamayo

Dependência e violência

A menina não pegava mamadeira de jeito nenhum. Só queria saber de mamar no peito. A paulista Michelle Santos, 32, e o marido sentaram, conversaram, e ela decidiu largar o trabalho na área de RH de uma empresa para cuidar exclusivamente da família e da casa. O marido sempre repetiu que sua função era pagar as contas e que a dela era arrumar a casa.

“Na época, parecia uma decisão correta e importante, mas hoje já não sei se foi a escolha certa”, confessa Michelle. “Eu tinha o meu dinheiro, era independente e agora não sou mais. Preciso pedir dinheiro e autorização a ele para fazer qualquer coisa. Ele deve adorar: fico com todas as tarefas e ainda cuido da filha dele. Amo muito minha filha mas, às vezes, fico maluca com tanta coisa”, diz.

Há um ano e meio fora do mercado de trabalho, Michelle tenta, mas não consegue se recolocar. Até chegou a apelar para áreas de atuação fora de sua especialidade, mas não recebeu proposta alguma. “Eu não me arrependo de cuidar da minha filha. Mas, querendo ou não, fico pensando: se ele me ajudasse mais, eu não precisaria ter deixado meu serviço… Por exemplo, eu amo correr. Mas, mesmo pra isso, ele não gosta de ficar com ela pra mim, ele não tem muita paciência. Ele poderia assumir um pouquinho mais, pelo menos”, desabafa.

Em situações como essa, muitas mulheres ficam ainda mais vulneráveis à violência doméstica, destaca Flávia. E não estamos apenas falando de mulheres desempregadas. “Por ter que cuidar da vida doméstica, mulheres, em geral, assumem ocupações remuneradas em horários e colocações que as levam a ganhar menos. Com isso, ficam também mais dependentes de seus maridos e de outros homens da família, como pais, tios e irmãos. A vida vai sendo construída em torno da dependência, que define as relações entre as pessoas, até mesmo emocionais”, defende ela.

Ou seja: não só a mulher se vê de mãos atadas por não conseguir sustentar a si ou aos filhos sozinha, ela desenvolve uma dependência emocional em que tem uma posição de fragilidade quase infantil em relação ao marido. Assim, pode começar a fazer sentido a absurda ideia de que ele tenha o direito de “punir para ensinar lições”. E, se buscam o divórcio para se livrar da violência, ou até mesmo da infelicidade conjugal, as mulheres se veem ainda mais sobrecarregadas com o cuidado dos filhos.

Voltando ao caso de Christiana, do começo desta reportagem, por exemplo. Após se separar do marido, os dois dividiram meio a meio as contas relacionadas à filha, mas ela assumiu integralmente todas as responsabilidades no cuidado da menina. “E ele ainda cobra quando ela tira nota baixa, por exemplo!”, conta ela. “Criar um filho não é pegar no final de semana, o dia a dia é pesado, é dar limites e cobrar. O único jeito seria ele me compensar financeiramente, para que eu pudesse trabalhar menos e gastar mais do meu tempo com ela. Mas aí é complicado, porque o homem acha que tá pagando as nossas contas – principalmente conta de ex, né?”

Onde começou essa merda toda?

Apesar de muito machista por aí tentar convencer as mulheres de que essa não passa de uma divisão natural do trabalho, inspirada unicamente nas capacidades dos homens e das mulheres, a História prova que nada disso é verdade. Em muitas sociedades ao redor do mundo, mulheres que assumiram trabalhos fisicamente pesados de agricultura ou, mesmo fazendo tarefas domésticas, como costurar e fiar, tinham seu trabalho altamente valorizado.

Até o século 19, por exemplo, as mulheres do povo indígena Seneca, dos EUA, podiam decidir que guerras os homens lutariam ou não, já que elas controlavam a produção da comida que os alimentaria no campo de batalha. Na América Latina pré-colombina, mulheres eram comerciantes. Na Nigéria, os Igbo tinham mulheres tão poderosas e com tanto controle sobre os recursos da casa que ficaram historicamente conhecidas como “maridas”. Até hoje, no Bali, mulheres e homens dividem igualmente o cuidado das crianças e, na Nova Guiné, homens e mulheres partilham os negócios e são igualmente agressivos.

A ideia de que as tarefas domésticas pertencem apenas às mulheres e que elas têm um valor menor para a sociedade e para quem as realiza é uma exportação do Ocidente para as demais sociedades através do colonialismo e do neocolonialismo. As mulheres podem culpar os gregos por isso. Foram eles que dividiram a vida entre polis, a arena pública e valiosa que pertencia aos homens, e oikos, a esfera privada e caseira e que pertencia às mulheres. No livro “No turning back: the history of feminism and the future of women” (Sem volta: História do Feminismo e o Futuro das Mulheres), a historiadora Estelle B. Freeman lembra que filósofos como Aristóteles e Platão trabalharam duro para fincar essa ideia na cabeça das pessoas. “A coragem do homem está em comandar, a da mulher, em obedecer”, eternizou Aristóteles no clássico “Política”.

O ideário grego sobre a divisão do trabalho se espalhou como um vírus poderoso pela Europa e, dali, na época das grandes navegações e depois, durante o neocolonialismo, para o restante do mundo, que teve suas culturas – e suas mulheres – subjugadas. Até as deusas foram caindo em desprestígio e cedendo à dominação masculina e ao deus patriarcal. A eles, dava-se o mundo para ser conquistado. Às mulheres, restava a invisibilidade do lar.

Doutrinação que vem da infância

A verdade é que a divisão sexual do trabalho nos parece tão natural porque somos doutrinad@s nela desde muito jovens. Para quem duvida disso, a ONG Plan International realizou um estudo definitivo: o “Por Ser Menina no Brasil”. Cerca de 1/3 das 1.771 meninas entre 6 e 14 anos entrevistadas, ou 31,7%, avalia que o tempo para brincar é insuficiente. Isso acontece porque cerca de 82% delas têm algum tipo de responsabilidade nas tarefas domésticas. Enquanto 81,4% das meninas arrumam sua própria cama, por exemplo, 76,8% lavam louça e 65,6% limpam a casa, apenas 11,6% dos seus irmãos homens arrumam a própria cama, 12,5% lavam a louça e 11,4% limpam a casa. Elas também assumem mais tarefas de risco para crianças, como cozinhar. Entre as meninas 41% o fazem, entre os meninos, 11,4%.

“Não há nenhum problema em fazer trabalhos domésticos. Aliás, nós somos a única espécie que precisa de tantos cuidados. O problema é que isso se torna um fardo para as mulheres e meninas”, lembra Viviana Santiago, especialista em gênero da Plan International. “Educamos as crianças para naturalizar o trabalho doméstico feminino. As famílias pensam que faz parte do ser mulher lavar, passar, cozinhar e limpar. Isso é muito problemático não só porque diferenciamos meninas e meninos, mas porque hierarquizamos as tarefas que eles executam. Dizemos claramente que a vida delas têm menos importância porque elas estão ali para servir aos meninos.”

“Isso é chave no processo de construção da subjetividade deles também, porque acham que mulheres existem para satisfazê-los.”

Entre os danos psicológicos que essa criação pode proporcionar, Viviana destaca o papel do cuidado com irmãos menores. Como entende que sua função é cuidar e não ser cuidada, como seria o natural da infância, as meninas se sentem desprotegidas e essa insegurança se torna estrutural em sua personalidade. “Colocamos na cabeça de nossas meninas que a prioridade da vida delas é o trabalho doméstico, o que as faz desprezar as demais esferas da vida quando crescem e não almejarem realização profissional, política ou financeira”, complementa a especialista.

Mundos possíveis

As paulistanas Bárbara e Nathália Kodato cresceram em um pequeno mundo em que nada disso existia. Na casa delas, mulheres e homens eram iguais e tarefas domésticas eram de todos. A mãe, Elza, uma japonesa arretada, ia muito bem trabalhando fora. Já o pai, Luiz Veloso, gostava de ter uma rotina mais flexível, de trabalho artístico, em casa. Ele levava e buscava as filhas na escola, ia às reuniões, festinhas, etc. Também lavava roupa e louça e cozinhava. Elza chegava em casa e, com frequência, encontrava o jantar pronto. Esse foi o esquema dos dois até as filhas crescerem. Luiz só voltou a trabalhar fora há dois anos.

“No começo ele não sabia fazer as coisas, na verdade. Mas foi olhando e aprendeu. Quando não entendia algo, ligava e perguntava. Foi deixando o arroz e o feijão prontos, depois a carne. Hoje ele se vira na cozinha, inventa até pratos diferentes”, conta Elza. “Se ele não tivesse assumido essa parte, eu não conseguiria administrar tudo sozinha. E nossas filhas cresceram desse jeito, entendendo que o pai tinha mais disponibilidade que eu, porque eu trabalhava fora.”

Hoje, Luiz, que tem 61 anos, tem a oportunidade de ensinar Guilherme, o neto de 8, que fazer tarefas de casa fazem dele um homem melhor. “Eu não acho que cuidar da casa seja um demérito, pelo contrário! E não existe essa de coisa de mulher e coisa de homem, a família é de todos, logo, as tarefas são de todos!”, opina Luiz. “Para mim, aprender foi algo completamente normal e todos os homens podem fazer o mesmo: qualquer ser humano se adequa a qualquer situação, basta querer.”

Bárbara, mãe de Guilherme, acredita que hoje, pode quebrar um padrão que, na maioria das famílias, é passado de geração em geração. “Meu pai nos ensinou a cozinhar desde cedo e nos dizia que éramos uma família e precisávamos ajudar um ao outro. Esse foi um conceito que carregamos com a gente, sabe?”, explica ela.

A solução é brigar com os maridos?

Para mudar a situação, devemos sentar e dialogar, como Elza, ou brigar com o marido? A verdade é que não há uma resposta geral para todos. As mulheres da Islândia, por exemplo, optaram pela segunda alternativa e obtiveram sucesso. Em 24 de Outubro de 1975, milhares de islandesas foram às ruas para protestar contra o baixo reconhecimento dado ao trabalho feminino e entrarem em greve. Como resultado, muitos homens tiveram de levar os filhos pequenos ao trabalho e se virar na cozinha. Assim, elas chamaram atenção para a importância da mulher na sociedade e ganharam poder de barganha para exigir melhoras nas leis trabalhistas e políticas públicas.

Já Flávia acha que a resposta está em uma terceira via. Para ela, nós devemos superar a ideia de que o trabalho doméstico é uma questão privada e transformá-la em um problema social. “Precisamos criar um modelo que não comece e termine na esfera privada. Os países que têm melhores números em equidade são aqueles em que o Estado provê bons serviços públicos de cuidado das crianças, licenças conjugadas e outras soluções que permitem que, com cuidado coletivo, as mulheres não fiquem restritas à esfera doméstica.”

A pesquisa da historiadora Wendy a leva às mesmas conclusões. Ela se inspira no modelo criado pelos bolcheviques, na antiga União Soviética, e acredita que ele pode ser adaptado à realidade atual. “Os bolcheviques transferiam quase todo o trabalho doméstico para fora de casa. Havia empresas de lavagem de roupa, restaurantes públicos a preços acessíveis, creches em período integral – todos com funcionários bem remunerados”, explica. “Não acho que homens e mulheres devam passar o dia brigando pela louça, nós temos que aprender a entender que tudo isso faz parte da sociedade como coletivo.”

As especialistas concluem, em uníssono, que mudança cultural e trabalho de Estado são necessários, e ninguém pode se isentar dessa tarefa. E homens, em vez de lavar as mãos, que tal lavar a louça? Porque essa revolução vai começar com esponja e sabão!