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Como o feminismo e as mulheres podem influenciar as eleições em 2018

Maioria entre eleitores e indecisos, voto das mulheres tem peso nas Eleições 2018 e faz candidatos a presidente moldarem campanhas e escolha de vices
por Maria Martha Bruno
27 de agosto de 2018
Crédito: Marri Nogueira/Agência Senado

Com as campanhas na rua, os candidatos a presidente da República das Eleições 2018 estão tendo que rebolar para conquistar o voto das mulheres, a maioria entre os indecisos. Em um claro aceno ao público feminino, candidatos de grandes partidos correram atrás de mulheres que já têm história na vida política para comporem suas chapas, além de incluirem políticas voltadas a essa população em suas propostas de governo.

Por enquanto, as pautas feministas não necessariamente trazem novos votos. Mas candidatos que se posicionam de forma machista já correm sérios riscos. “O feminismo pode até não dar votos nas eleições majoritárias, mas pode tirar votos, como mostram as mulheres que não votam no [Jair] Bolsonaro por causa de suas declarações machistas”, diz a cientista política Carolina de Paula, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp).

Bolsonaro (PSL) tem 20% das intenções de voto na última pesquisa do Ibope no cenário sem Lula (considerado o mais provável pelos analistas eleitorais devido à Lei da Ficha Limpa). Mas esse percentual cai para 13% entre as mulheres. Na cidade de Jacobina, a 300 km de Salvador, a dona de casa Joelma Santos Silva ainda não sabe em quem vai votar, mas está entre as que torcem o nariz para o candidato. “O que ele fala demonstra seu caráter. Bolsonaro precisa ter Jesus no coração. Não votaria nele de jeito nenhum”, afirma. Ela diz buscar um candidato honesto, que “faça um Brasil sem corrupção”.

Apesar de as pautas de gênero parecerem distantes das prioridades de Joelma, ela desaprova as declarações de Bolsonaro que naturalizam a desigualdade salarial entre homens e mulheres, além da polêmica com a deputada petista Maria do Rosário que, segundo ele, “não merece [ser estuprada] porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia”.

Na escolha dos vices, o candidato chegou a sondar uma mulher, mas a advogada Janaína Paschoal preferiu tentar uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Estado de São Paulo. Bolsonaro terminou com um de seus pares militares na composição de chapa, o general Hamilton Mourão.

Como falar com as eleitoras na campanha

Entre os 13 candidatos a presidente nas Eleições 2018, apenas dois rostos de mulheres estarão nas urnas eletrônicas no primeiro turno, no dia 7 de outubro: Marina Silva (Rede) e Vera (PSTU). Única candidata presente aos debates de televisão, Marina não é uma histórica portadora de bandeiras feministas, mas tem adotado um tom assertivo e investido em pautas como educação e combate à corrupção para marcar território junto ao cobiçado eleitorado feminino e desviar de ataques conservadores.

No debate promovido pela RedeTV, no dia 17 de agosto, ela chamou atenção ao usar a retórica da família, tão cara aos eleitores brasileiros, para responder a uma pergunta de Bolsonaro. “Nós somos mães, educamos nossos filhos. A coisa que uma mãe mais quer é ver um filho sendo educado para ser um cidadão de bem. E você fica ensinando para os nossos jovens que têm de resolver as coisas na base do grito, Bolsonaro”, disse Marina.

Três dias após o programa, Marina disse à Revista AzMina esperar que as mulheres avaliem com cuidado as propostas e os financiadores dos candidatos e candidatas. “Elas devem observar trajetória e propostas, para saber se têm alguma coerência. E olhar os meios que os candidatos estão usando para alcançar os propósitos, porque a forma como se ganha determina a forma como se vai governar”, afirmou.

“É muito difícil acreditar em tolerância zero com a corrupção, quando não há tolerância zero com as pessoas com quem você se une para ganhar a eleição.”

Em um cenário sem Lula, Marina tem 12% das intenções de voto, percentual que sobe para 15% entre as mulheres, segundo a pesquisa Ibope. No dia da entrevista, Marina visitara a sede do Instituto Maria da Penha, em Fortaleza, uma pauta prioritária na agenda feminista, mas que também encontra grande receptividade entre mulheres que não são militantes. “Vim assumir compromisso de combate à violência contra as mulheres”, disse Marina.

Mas mesmo para candidatas diretamente identificadas com pautas feministas e progressistas, a saída tem sido inseri-las em temas de mais apelo popular, como saúde, educação e segurança. Única candidata à governadora de São Paulo, a professora de educação da USP Lisete Arelaro (PSOL) discute com eleitoras indecisas problemas com a falta de creches e o atendimento precário em delegacias especializadas. “A pauta feminista existe, mas não aparece de forma direta no discurso de muitas eleitoras”, diz Lisete.

“Na educação, por exemplo, para quem sobra o problema da falta de creches? As mulheres carregam essas questões feministas, mas nem sempre sabem identifica-las dessa forma”, avalia. A candidata conversa com as suas eleitoras sobre assuntos caros ao movimento feminista, como o aborto, mas conta que sua assessoria a aconselha que deixe a discussão de lado ao falar com as indecisas. “As eleitoras ainda não estão falando sobre isso. Acabam resolvendo o assunto à sua maneira.” Lisete é a única candidata ao governo de São Paulo, mas o Estado conta com oito  mulheres como vices entre os 12 candidatos na corrida ao Palácio dos Bandeirantes.

Voto decisivo

Há muito não se via uma eleição presidencial tão fragmentada no Brasil. Faltando pouco mais de um mês para as eleições, 27% dos eleitores ainda não sabe em quem votar, percentual que é ainda maior entre as mulheres, segundo a pesquisa Ibope divulgada em 20 de agosto. Mulheres são maioria (52% do eleitorado) entre os 147 milhões de brasileiros que vão às urnas em outubro. Sendo maioria também entre os indecisos, o voto feminino passa, assim, a ter um peso importante na decisão do quadro eleitoral.

 

Entre os candidatos à presidência que buscaram mulheres para comporem suas chapas, cinco tiveram sucesso e terão uma mulher na vaga de vice-presidência. Mas será isso suficiente para influenciar o voto das indecisas?

“Não conheço nenhuma delas”, diz a costureira desempregada Adriana Oliveira, sobre Ana Amélia, vice de Geraldo Alckmin (PSDB); Kátia Abreu, vice de Ciro Gomes (PDT); Manuela D’Ávila, possível vice de Fernando Haddad (PT no cenário em que Lula não concorra); Sonia Guajajara, vice de Guilherme Boulos (PSOL); e Suelene Balduino, vice do Cabo Daciolo (Patriota).

Moradora da cidade de Serrolândia, no interior da Bahia, sua fala demonstra simpatia à ideia de uma mulher na Presidência (“eu gostava da Dilma”) e pouca inclinação à volta de Lula (“não votaria de novo, o tempo dele já passou”). Adriana gostaria de ver no poder uma mulher “determinada, com atitudes, e também jovem, para ter pose firme”, mas seus desejos como eleitora coincidem com as necessidades mais básicas de uma cidade cujo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ocupa o 4395ª lugar entre os 5.565 municípios brasileiros.

“O próximo presidente tem que fazer determinadas coisas em relação ao povo pobre, como saúde e educação”, diz.

“E criar mais emprego. Não adianta só falar bonito. Tem que agir”, afirma. Adriana ainda está indecisa em quem votar em outubro, mas acha “que as mulheres têm que fazer a diferença”.

O peso dessas opções femininas para compor as chapas é relativo na escolha do voto, segundo a cientista política Carolina de Paula. “Kátia Abreu e Ana Amélia, por exemplo, não agregam por serem mulheres, mas pelo apelo junto ao agronegócio. Se o Alckmin realmente estivesse de olho no voto feminino indeciso, buscaria uma mulher do Nordeste ou do Norte, e não do Rio Grande do Sul”, observa Carolina, que é especializada em análise e pesquisa de mercado há dez anos.

A maioria das vices não carrega bandeiras feministas. Kátia Abreu, em entrevista recente ao jornal Folha de S. Paulo, se colocou a favor de ideias defendidas por Bolsonaro, como o porte de armas, e afirmou que mulheres deveriam dar à luz à anencéfalos, ainda que decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) permita a interrupção da gravidez nestes casos. Apenas Manuela D’Ávila, cuja situação ainda está indefinida por causa do imbróglio envolvendo a candidatura de Lula, defende propostas feministas.

Confira as principais propostas voltadas às mulheres nos programas de governo dos candidatos, em ordem de intenção de votos, segundo o Ibope:

LULA

Rovena Rosa/Agência Brasil
  • Recriação do Ministério de Políticas para as Mulheres;
  • Aumento significativo da presença de mulheres nas instâncias de decisão do Poder Executivo, Judiciário, Legislativo e Ministério Público;
  • Ampliação das vagas em creche, contribuindo para a autonomia das mulheres;
  • Titularidade prioritária às mulheres nos lotes dos assentamentos concedidos nos programas de reforma agrária;
  • Promoção do crédito para produtoras no âmbito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

JAIR BOLSONARO

Valter Campanato/Agência Brasil
  • Visitas de gestantes ao dentista no âmbito de programas neonatais, a fim de reduzir a quantidade de prematuros;
  • Combate ao estupro de mulheres e crianças através de mudança ideológica.

MARINA SILVA

Marcello Casal Jr/Agência Brasil
  • Estímulo ao parto humanizado;
  • Ampliação das políticas de prevenção à violência contra a mulher, combate ao feminicídio e qualificação da rede de atendimento às vítimas;
  • Combate à discriminação no mercado de trabalho, com o objetivo de garantir igualdade salarial entre mulheres e homens;
  • Apoio ao empreendedorismo feminino, por meio de acesso a crédito e microcrédito, e capacitação profissional;
  • Estímulo à ampliação da oferta de vagas em creches em tempo integral e ao compartilhamento dos cuidados dos filhos com os pais.

CIRO GOMES

Marcelo Camargo/Agência Brasil
  • Garantia da aplicação efetiva da reserva de 30% das candidaturas para mulheres e defesa da paridade de mulheres na política;
  • Cumprimento da regra que determina a igualdade de salários entre homens e mulheres quando na mesma função e carga horária;
  • Eliminação do uso de material de ensino e educação estereotipados, que reforcem o papel da mulher como menos apta ao mundo da produção ou mais apta à esfera doméstica;
  • Combate à violência obstétrica, com o fortalecimento de programas que incentivem o parto natural;
  • Identificação e enfrentamento das violências cometidas contra as mulheres encarceradas, especialmente as grávidas.

GERALDO ALCKMIN

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
  • Pacto nacional para a redução da violência contra mulheres, e incentivo à criação de redes não-governamentais de apoio ao atendimento de vítimas de tráfico sexual;
  • Fomento a ações de prevenção da gravidez precoce, adotando estratégias educativas de sensibilização de adolescentes e apoio integral no caso de gestação.

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