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“Às vezes a mulher está com um nó engasgado na garganta e ninguém quer escutá-la”

Panmela Castro, uma das grafiteiras mais conhecidas do Brasil, transforma relatos de mulheres sobre suas experiências de quarentena em pinturas
por Letícia Ferreira
9 de junho de 2020
A artista visual Panmela Castro

“Culpa. Culpa por não saber relaxar, culpa por não saber descansar. Mas culpa também por não produzir, por não dar conta, por não inspirar”, diz uma das mulheres que escreveu para a artista visual carioca Panmela Castro, 35 anos, sobre seus sentimentos no isolamento social devido à pandemia do novo coronavírus.

Esses relatos são a inspiração da artista para pintar quadros que fazem parte da série Retratos Relatos. Os depoimentos que Panmela recebe nas suas redes sociais falam sobre solidão, comportamento, relacionamento e violência contra mulher, um tema constante em suas obras. Com a pandemia, as mulheres começaram a compartilhar suas dificuldades e o que sentem durante a quarentena.

Panmela desenvolveu três pinturas a partir dessas histórias e quem compartilha sua voz para esse trabalho são uma mulher HIV positivo que perdeu seu filho, uma mãe solo que trabalha em casa e cuida de sua filha e outra personagem que escreveu sobre as incertezas que o novo coronavírus trouxe para a sua vida. As obras foram feitas para o Instituto Moreira Salles (IMS). 

A pintura é uma das linguagens que a artista visual utiliza em seu trabalho. Panmela Castro é uma das grafiteiras brasileiras mais conhecidas do mundo. Em cada obra, a visão feminista impressa é uma forma de luta pelos direitos das mulheres e contra a violência doméstica, da qual foi vítima, uma realidade comum, infelizmente, entre tantas brasileiras. Seu trabalho artístico é um diário de experiências espalhado em murais, vídeos, performances e fotos que estão em vários países do mundo. 

Na Rede NAMI, ONG que fundou em 2010, ela promove os direitos das mulheres por meio da arte urbana. A organização arrecada fundos para distribuir cestas básicas durante quarentena e lançou uma campanha para contratar mulheres artistas para pintar murais pelo fim da violência contra a mulher na favela Tavares Bastos, no Rio de Janeiro. A rede remunera as artistas durante a quarentena e elas vão entregar o trabalho quando as medidas de isolamento social acabarem. 

Nesta conversa com a revista AzMina, Panmela explica como a experiência de ser mulher faz parte do seu trabalho, acompanhada pela vivência de outras mulheres, e quais dificuldades enfrenta com suas obras e trabalhos de formação social por falar sobre gênero. 

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Revista AzMina: Como a pandemia afetou seu trabalho?

Panmela Castro: Eu acho que o que eu faço mais ativamente com as mulheres sofreu mais mudanças do que o trabalho de arte em si, porque eu continuo produzindo no ateliê. As temáticas do meu trabalho continuam muito vivas com a quarentena. O não lugar,  a solidão, temas relativos às vidas que acabam estão na quarentena. 

O  trabalho que eu sempre fiz na rua, com mulheres, por não ter mais essa relação física, é algo que eu não consigo mais desenvolver. Eu entrego cesta básica, faço campanha com a ONG. É um tapa-buraco em meio à ausência do Estado, mas  o trabalho que eu gosto de desenvolver com as mulheres é de mudança social, na raiz do problema, para que a gente possa mudar, se fortalecer, e esse trabalho acaba em segundo plano no momento em que as pessoas não tem nem o que comer.

AzMina: Como você desenvolveu essa relação com as vivências das mulheres na sua arte?

Panmela: Quando eu comecei a produzir, via que as pessoas interagiam muito comigo. Tanto nas ruas, no grafite, elas paravam, perguntavam, existia uma relação ali com o outro. Quando eu comecei a fazer perfomance, vídeo, foto, as pessoas começaram a se ver ali. Apesar do meu trabalho ser autobiográfico, são experiências pessoais que dependem de uma relação com o outro, uma relação de alteridade. 

Então, muito do que eu fazia era participativo, com mulheres que queriam interagir. Eu recebo muita coisa pela internet – decidi transformar isso em um trabalho.

Desde de 2019 eu peço para as mulheres me enviarem suas histórias, seus relatos, e a partir deles, pinto os retratos. Retratos relatos. E agora eu estou recebendo muitos depoimentos sobre a situação das mulheres na quarentena. Essa é uma relação que beira um processo de cura mesmo. Às vezes a mulher está com um nó engasgado na garganta e ninguém quer escutá-la ou ela tem vergonha de falar alguma coisa que tá ali presa. Quando ela escreve pra mim e tem esse retrato pintado, é como se ela fizesse alguma coisa com aquela dor, com aquele sentimento.

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Obra da série Retratos Relatos, de Panmela Castro, para o IMS

AzMina: Em 2017 você estava tentando registrar um caso de violência patrimonial  com as suas obras. Como anda esse processo? 

Panmela Castro: Em 2017 eu tive um problema com um companheiro de 10 anos antes, já tinha terminado o namoro. Ele sempre me perseguiu, mas era uma coisa boba. Até que ele começou a cobrir os meus murais. Encarei isso como uma violência patrimonial, pois quem vai contratar uma artista para fazer murais com obras atacadas e destruídas?

Eu tive muita dificuldade, fui a vários órgãos do governo, as pessoas não queriam me orientar e tive ajuda da Marielle [Franco, vereadora carioca assassinada em 2018] . Ela fez a orientação com o gabinete dela, a gente conseguiu prestar queixa na delegacia para pedir uma medida protetiva, só que eu tive dificuldade dos juízes aceitarem. Com a morte da Marielle, eu fiquei um pouco sem forças de levar isso para frente, principalmente porque os juízes não estavam aceitando a minha colocação.

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AzMina: Os juízes não reconheciam o trabalho artísticos dos murais  como um patrimônio seu? 

Panmela: Reconheciam. Acho que sempre teve uma dificuldade de aplicar a lei nos casos de violência doméstica. Durante muitos anos desde a criação da Lei Maria da Penha existia um movimento grande, tanto do governo quanto da sociedade civil, para aplicar a lei, para incentivar a mudança de comportamento, para a criar políticas públicas de proteção à mulher. De quatro anos para cá, tudo o que foi conquistado começou a ser sucateado. Hoje a gente tem uma lei que a gente não consegue pôr em prática, porque não tem meios, os homens legitimam o machismo, os delegados, policiais. Você não tem como ter um uma resposta. Na quarentena está difícil fazer valer a Lei Maria da Penha.

As pessoas falam para ligar no 180 [canal de atendimento à mulher do governo federal] e eu fico muito desanimada ao falar isso para uma mulher. A gente sabe que ela vai denunciar e talvez ela vai ser morta, porque nada vai acontecer. Como mulher a gente está muito encurralada e isso é muito triste. 

Nós temos que nos auto-organizar, dar apoio, abrir o olho de outras mulheres para não cair em situação de violência, para elas não se relacionarem com homens machistas, controladores, violentos. Porque se depender do governo, das políticas para nos proteger, a gente está muito ferrada.

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Obra da série Retratos Relatos, de Panmela Castro, para o IMS

AzMina: E você também tem trabalhos educativos nessa área…

Panmela: A gente ia em favelas ou escolas para divulgar a Lei Maria da Penha com o projeto Grafite Pelo Fim da Violência Contra a Mulher. Falávamos sobre a construção da mulher, os tipos de violência doméstica e o que a lei tinha para nos proteger, inclusive os órgãos criados. Com a história da Escola Sem Partido, teve muita perseguição ao trabalho sobre gênero nas escolas e a própria Lei Maria da Penha. Esse é um projeto que ficou parado nisso. Ele ganhou vários prêmios de direitos humanos no mundo, mas não conseguimos dar continuidade por causa da perseguição.

AzMina: As escolas deixaram de autorizar esse tipo de trabalho? 

Panmela: Para começar, para ir a uma escola, você precisa ter a autorização da secretaria de educação da prefeitura. E só o fato de se tratar de um projeto de mulheres, sobre gênero, equidade de gênero, é suficiente para o projeto ser barrado. 

AzMina: Por algum tempo, você diz que se masculinizou para ser respeitada. Por quê?

Panmela: Principalmente na adolescência, em uma cidade do interior, uma menina era sempre vista como boba. Eu sentia rejeição e foi por isso que eu comecei a pichar. Quando eu colocava meu nome na parede, os rapazes me viam de igual para igual, uma sensação de poder. 

Eu queria o poder de ser respeitada e eu via que sendo uma mulher isso não ia acontecer, não ia conseguir esse respeito. Então, eu tentava me masculinizar, falar com rapazes, andar com os rapazes. Eu entendi, com o tempo, que eu não queria ser homem. Eu queria ter a possibilidade de acessar características que são consideradas masculinas, mas que, na verdade, podem ser de qualquer pessoa. 

Depois que eu percebi que por mais que eu viesse a me masculinizar para ser aceita no meio da galera, o fato de eu ter um corpo feminino nunca ia me colocar no mesmo patamar de igualdade com os caras. Foi a partir daí que eu comecei a me entender como mulher e  perceber o espaço que eu ocupava no mundo. 

AzMina: O que você esperava da faculdade, da sua vida profissional? 

Panmela: Nessa época eu era muito pobre, eu só estava pensando em me sustentar. Qualquer coisa que pagasse as minhas contas eu topava. Fiz caricatura cobrando um real no Largo da Carioca, fazia de tudo para conseguir me manter. Eu morava na Favela do Manguinhos, minha família estava destruída. Se com a faculdade de Belas Artes eu ia me tornar uma artista, se eu ia vender quadro, se eu ia ter sucesso com isso, não importava. Eu tinha que me sustentar. Tanto que demorei 10 anos para me formar, porque eu não tinha o básico para terminar aquele faculdade. 

Azmina: E quando você conseguiu viver do seu trabalho de artista visual? 

Panmela: Eu consegui me sustentar sem ajuda de ninguém, com o meu trabalho de arte, a partir de 2011. Agora sou totalmente independente vivendo assim. Espero que mesmo nesse momento de crise eu consiga manter o que eu conquistei até hoje, vivendo dos trabalhos, da arte, sem precisar de atividades paralelas.

Essa reportagem faz parte da parceria d’AzMina com o Data Labe, Gênero e Número e Énois na cobertura do novo Coronavírus (Covid-19) com foco em gênero, raça e território. Acompanhe a cobertura completa aqui e nas redes e pelas tags #EspecialCovid #CovidEMulheres 


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