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15 de junho de 2016

O feminismo precisa aceitar as prostitutas

Cada vez mais profissionais do sexo se organizam pra construir uma luta que respeite nossas pautas

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Amanhã tem debate quente no Rio de Janeiro, debate que me custou a perda do meu perfil no Facebook. No meio duma série de posts acalorados em que disputavam a opinião pública, feministas contrárias à prostituição (aquelas ditas radicais ou materialistas) e feministas que respeitam as pautas do movimento de prostitutas (as putafeministas, nós), acabou que tive meu perfil denunciado por eu não usar meu nome “verdadeiro” e o Facebook acatou, impedindo acesso ao perfil que eu construía há dois anos, com todos os textos e contatos que havia lá.

Vejam que muitas vezes, pra fazer imperar seu ponto de vista, algumas pessoas acham que não importa o quão baixos são os meios usados: basta conseguir calar a outra parte e poder continuar seu monólogo em paz. Bem o que houve. Não à toa transfobia (preconceito contra trans) e putafobia (preconceitos contra putas) costumam andar sempre de mãos dadas, inclusive dentro do feminismo.

Prostituição é um assunto muito delicado pras travestis. Ela é o ofício que nos permite existir quando a sociedade fecha suas outras tantas portas e, ao mesmo tempo, aquele onde mais nos matam, violentam… Percebem que não é coisa fácil discutir a questão?

Mas certo feminismo, cegado pelos seus dogmas, não consegue sequer permitir que o debate ocorra, lançando mão de linguagem sensacionalista que só serve pra estimular pânico, “querem legalizar a cafetinagem”, “prostituição é estupro pago”, “feminismo a serviço da objetificação da mulher”, “vender o corpo”, “tráfico de pessoas”, “prostituição infantil”, “prostitutas se drogam pra conseguir trabalhar”, “pegam AIDS”. Nunca param pra discutir a natureza exata dessa suposta cafetinagem que o PL Gabriela Leite quer regulamentar, nem os discursos racistas e xenófobos que orientam o debate sobre tráfico de pessoas, nem a noção exata de estupro que estão mobilizando pra afirmar que nosso trabalho não envolve sexo mas violência sexual.

E se houver quem viva a prostituição em termos que fujam a esse vitimismo todo, a pessoa é prontamente catalogada como “fetichista a serviço da supremacia masculinista” e já não é necessário mais considerar nada do que ela diga.

Percebam que essa argumentação cega não vai impedir que continuemos dando a cara a tapa e forçando a sociedade a encarar o debate que querem jogar pra debaixo do tapete. Prostitutas estão se organizando politicamente desde o boom da AIDS, desde o fim da ditadura, conseguindo conquistas notáveis como, por exemplo, o reconhecimento oficial da prostituição na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO, 2002), do Ministério do Trabalho.

Agora vai surgindo o tempo de um novo desafio, disputar o feminismo, desafiá-lo, para que ele aprenda a respeitar nossa autonomia e nossa luta por melhores condições de trabalho, melhor remuneração e fim do estigma.

As portas estão abertas para todas as feministas que quiserem, de fato, ouvir o que as prostitutas têm a dizer sobre seu trabalho.

Turismo sexual e Olimpíadas: quebrando tabus

16 de Junho, às 18h30.
Casa Nem: Rua Morais e Vale, 18, 20021260 Lapa, Rio De Janeiro, Brasil.
Entrada Franca.

 

Amara Moira é travesti pan puta, feminista antes de mais nada, e escritora dessas de batom na boca e sem papas na língua. Militante dos direitos de LGBTs e de profissionais do sexo, no tempo que sobra ainda faz doutorado em teoria literária pela Unicamp, para o desespero do patriarcado.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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