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No Natal do meu 14º aniversário, minha mãe me deu minha última boneca. Ela era realista, respirava fazendo barulhinho e levantando o diafragma, bebia mamadeira e fazia xixi, pra eu trocar a fraldinha. Naquela altura, eu já ajudava a cuidar dos meus quatro irmãos mais novos e viria a acalentar o quinto, que nasceria não muito depois daquilo. Mas ela queria que eu não esquecesse de brincar. Não ainda.

Na mesma idade, Shanya* também ganhou uma boneca que respira e faz xixi. Ela já tinha uma casa inteira sob sua batuta e não podia fazer uma série de coisas que eram permitidas ao marido. A boneca de Shanya, ao contrário da minha, já estava prometida pra se casar, aos 13 ou 14 anos, feito a mãe, com um garotinho da vizinhança.

Com tudo isso, Shanya se dizia feliz. Felicidade pra ela era aquilo, um horizonte que cabia naquela vila do sertão baiano. E eu não duvido que seja mesmo.

Sorria como alguém feliz. Quem sou eu pra invalidar a felicidade de outro, afinal?

Será que eu, com meu etnocentrismo ocidental, deveria ir lá investigar a realidade da Shanya e apontar que talvez os últimos momentos da infância dela deviam ser mais como os meus e menos como os dela? Teve gente que me disse que não, que eu não deveria fazer esta reportagem.

Shanya, 15, e sua filhinha de 5 meses: já prometida para casar aos 13 anos, como a mãe. Foto: Paula Fróes/AzMina

Uma antropóloga cigana europeia, que não se sentiu confortável para ter seu nome citado aqui, me disse, inclusive:

“Você não quer estigmatizar os Romani (ciganos) para além do preconceito que eles já sofrem, mas focar no casamento infantil entre eles vai acabar fazendo exatamente isso. Além do mais, os Romani são um grupo extremamente heterogêneo e as práticas de algumas famílias não representam a de toda a nação.”

“Se há casos de casamentos infantis, ele devem ser isolados porque esta não é a prática geral. Na minha família, por exemplo, ninguém apoiaria um casamento de pessoas com menos de 18 anos”, completou.

Essa inteligente e crítica ativista cigana fez com que minha editora e eu hesitássemos e reavaliássemos toda a reportagem. Mas decidimos prosseguir e eu vou explicar o porquê: por que esta não é uma questão apenas da cultura cigana – na Europa, por exemplo, esta já não é mais a prática. E não sejamos hipócritas, casamento infantil era praxe entre meus avós que não eram ciganos, mas italianos, (e talvez os seus também) e pra maioria do mundo até uns 80 a 100 anos atrás.

Esta, na verdade, é uma questão de segregação, racismo e ausência de interesse do poder público.

Porque a principal diferença entre minha infância e a de Shanya é que ela não tinha muitas possibilidades pra almejar além do casamento. Ela não poderia ter muitas carreiras, porque aos 13, tinha largado a escola pra casar e a Secretaria de Educação ou de Serviços Sociais local não deram estímulos para que os pais a mantivessem estudando – ou, como alternativa, tampouco estimularam o debate sobre sua liberdade sexual. Shanya não podia sequer ter um emprego numa vendinha, porque todo mundo ali acha que cigana é tudo ladra e sequestradora de bebês. No máximo, serviria só pra ler mãos ou agiotar – ou casar e ter filhos aos 14.

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Os preconceitos dos “brasileiros”  – como chamam os ciganos, assim, em terceira pessoa porque eles não se sentem incluídos – e o descaso do governo com práticas que muitas ciganas, como Rebecca Taina, chamam de violência e não de cultura tinham deixado a felicidade de Shanya confinada ao casamento. Foi essa combinação que não deixou que a comunidade cigana de Boa Vista do Tupim fizesse as mesmas mudanças que as nossas avós e bisavós fizeram ao longo do último século. Essa argumentação convenceu até a ativista cigana que, inicialmente, se opunha à reportagem.

Aliás, a invisibilidade do povo cigano é tão tão grande, que quase ninguém sabe que eles também foram exterminados em campos de concentração pelos nazistas. Pois é. Dois milhões deles morreram no Holocausto.

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E não que eu ache que casar não possa realmente fazer alguém feliz – sei bem da alegria que o meu próprio casamento me proporcionou, 13 anos após a minha última boneca. Mas acho que se os sonhos forem ganhar fronteiras, elas deveriam ser desenhadas por coisas mais bonitas que preconceitos. No meu delírio, Shanya poderia escrever as bordas das próprias aspirações e deixar que a filha fizesse o mesmo, em vez de ter o mundo mastigado pra si aos 5 meses de vida.

Ela deveria ter escolhas. O direito de seguir uma cultura própria, claro, mas também o de fazer diferente, se quisesse.

Quando perguntei à secretária de serviço social de Tupim qual era a política do governo pra prevenir o casamento infantil entre ciganos, a mulher tomou um susto. “Veja só, não é que você me deu uma ideia e uma provocação?”. Ela nunca tinha pensado nisso, mesmo que, durante a maior parte de sua vida, meninas ciganas de 12 ou 13 anos largassem a escola, inexoravelmente, pra casar. Ela também não sabia que o Brasil era líder em casamentos infantis na América Latina.

E nós, aqui, nos sentindo muito “evoluídos” com relação aos ciganos, ainda permitimos que exista uma lei que autoriza o casamento a meninas de 9 anos, desde que estejam grávidas. Uma lei. Que legaliza o estupro infantil.

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E ninguém deu a essas mulheres ferramentas para se auto-organizar. Porque existem grupos de feministas ciganas na Europa, mas não no Brasil.

Quem está investindo (recursos mesmo) na organização desses grupos de mulheres aqui no Brasil e, especialmente, no sertão baiano, para que elas mesmas sentem, conversem e decidam que mudanças elas querem ver na própria comunidade?

“Os últimos governos nos davam apenas status consultivo, e status consultivo não significa nada”, reclama Nicolas Ramanush Leite, presidente da ONG Embaixada Cigana do Brasil. “Gastavam muito dinheiro consultando e pouco com resultados efetivos. Em vez disso, o governo poderia atuar empoderando grupos militantes ciganos e tendo políticas públicas voltadas em particular ao grupo calon, que está mais marginalizado.”

É, parece que a questão vai mesmo além da cultura. Mas Shanya parecia feliz, eu juro! Que coisa difícil é esta da felicidade. A Shanya dizia que não tinha sonhos e era feliz sem sonhar. Será que sonho é coisa boa ou sonhos só nos angustiam? (eu que sei o quanto o peso dos meus me deixam prostrada de vez em quando, temerosa de eles sempre correrem mais rápido do que meus pulmões asmáticos podem alcançar).

E enquanto os filósofos se dedicam a responder a essa questão tão complicada da felicidade, eu vou teimar com minha visão (simplória?) de que Shanya deveria ter escolhas delimitadas por ela mesma. E que, talvez, ela devesse ainda brincar escondida das amigas de vez em quando e sonhar com uma cadeira seja lá onde quisesse estar, na sala de casa, no caixa do supermercado ou na prefeitura de Salvador. Ou no Conselho do Prêmio Nobel. Mas, principalmente, que não deveria ter destino algum escrito pra sua filhinha antes dela engatinhar.

Me perdoe, Shanya, porque eu, até pouco, também não sabia que o Brasil era líder em casamentos infantis e nunca havia pensado sobre o preconceito que te obriga a um único destino possível. Eu sequer conhecia a história dos ciganos. Minha tentativa de pedido de desculpas é esta reportagem.

* Nomes fictícios para proteger a identidade de menores que são, segundo a lei brasileira, vítimas de casamento infantil.


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