Até 2016, o banco genético brasileiro contava com apenas cinco linhagens, compostas entre 92,7% a 98,6% de contribuição do genoma europeu. Mas alguma coisa estava errada aí: no Brasil, 43,1% da população se considera parda e 7,6% se considera preta, segundo pesquisa do IBGE. Logo, as linhagens não representavam integralmente as variedades do genoma brasileiro.

Cientistas, então, perceberam que os tratamentos de fertilização que deram origem às amostras de células do banco de genes têm um custo alto e são utilizados pela populações das classes mais ricas, preponderantemente brancas e com descendência européia. Isso distorcia a realidade da população brasileira.

Para resolver este problema, cientistas do Centro de Terapia Celular da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o grupo do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), criaram dezoito novas linhagens, estudo publicado em outubro no periódico científico Scientific Reports , do renomado grupo Nature. Agora, a ancestralidade europeia fica em 14,2% a 95% dos genes, enquanto as porcentagens da contribuição genética africana variam de 1,6% a 55,1%, e a de descendência indígena, de 7% a 56%, mostrando a diversidade brasileira mais afundo. 

As novas linhagens foram descobertas através de amostras coletadas em exames periódicos de 15.105 homens e mulheres voluntários entre 35 e 74 anos.

Mas o que a gente ganha com isso? O banco genético das células-tronco de um país serve para para testes in vitro (em laboratório) de medicamentos, fase anterior aos testes em animais. Esses testes testam as resistências e eficácias de tratamentos em pessoas distintas. As células-tronco, apesar de estarem fora do contexto do organismo completo, servem como um bom simulacro das reações do organismo completo.

Após os testes nas células isoladas, os cientistas passam para animais e, depois, os medicamentos são testados em seres humanos. Esse processo pode levar até dez anos.

Mas agora sabemos que as especificidades de saúde de grupos minoritários do Brasil estarão melhor representadas e, assim, essas pessoas contarão com tratamentos mais eficientes.

Segundo, Lygia Veiga Pereira, professora titular e chefe do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE) da USP e responsável pela criação das linhagens, a adição da ancestralidade africana e indígena atribuem um enorme avanço na inclusão das populações negras (preta e parda) nas pesquisas biomédicas, possibilita o aprimoramento dos medicamentos para a população brasileira e dos estudos das doenças mais frequentes no país.

Já existem remédios específicos para americanos afrodescendentes como, por exemplo, o BiDil, receitado para pacientes auto identificados como afro-americanos e que possuem insuficiência cardíaca, junto aos medicamentos tradicionais. Estudos têm mostrado que pessoas com ancestralidade africana podem ser mais propensos a ter problemas cardíacos e problemas na circulação sanguínea.

O novo medicamento, junto aos outros remédios de rotina, mostrou uma melhoria no dia a dia dos pacientes, além de diminuir em 39% a probabilidade de internação por insuficiência. O BiDil é fruto de um estudo clínico dos Estados Unidos chamado African American Heart Failure Trial (A-HeFT).

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