Glória Pires vive no cinema a psiquiatra Nise da Silveira.

Glória Pires vive no cinema a psiquiatra Nise da Silveira.

Está em cartaz o filme Nise – O Coração da Loucura, que conta a história da psiquiatra alagoana Nise da Silveira, vivida por Glória Pires. E apesar dela ter nascido há mais de um século, sua história de vida fala muito sobre tudo o que vivemos agora. Naquela época, ela já batia de frente com o forçado ideal da mulher “bela, recatada e do lar” e foi uma das maiores responsáveis pelos rumos que a psiquiatria tomou no Brasil – rumos estes que parecem ameaçados com a nomeação de Valencius Wurch Duarte Filho, opositor da reforma psiquiátrica, para a gerência da Saúde Mental no Brasil.

Mas comecemos do começo.

Nise formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia em 1926, a única mulher entre 157 homens.

E durante a graduação, escreveu o Ensaio Sobre a Criminalidade da Mulher no Brasil. Com seu marido, mudou-se para o Rio de Janeiro e passou em um concurso público para atuar com psiquiatria. No entanto, o Brasil vivia um momento complicado e a posição política de Nise foi suficiente para que ela fosse presa.  Entre 1934 e 36, ela foi prisioneira do Estado Novo por ser comunista.

E mesmo depois de solta, passou oito anos na semi-clandestinidade  até que 1944 pode retomar o serviço público.

Invasora e revolucionária

Nise foi trabalhar, então, no Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, e ficou chocada com o que encontrou a chegar: técnicas agressivas de eletrochoque e cirurgias invasivas e controversas que faziam mais mal do que bem. Ao se recusar a usar esses métodos, Nise foi “encostada” no setor de Terapia Ocupacional – uma área abandonada e, naquela época, considerada inútil.

Obviamente, a medicina era uma profissão masculina. Nise era duplamente invasora:  por atuar em um espaço que era dos homens e por, ainda por cima, questionar seus métodos.

Mas ela não se abateu e colocou a terapia ocupacional para funcionar com um ateliê de arte. Foi pioneira em usar a arte como forma de expressão dos pacientes psiquiátricos e em defender a comunicação com esquizofrênicos através dela. Além disso, introduziu animais no convívio dos pacientes, para promover a afetividade.

Desse trabalho, surgiu o Museu de Imagens do Inconsciente, onde estão expostas até hoje as obras de seus pacientes. E além da produção artística, Nise conseguiu uma grande melhora em seus pacientes, mostrando que existiam sim formas diferentes, nada agressivas e até mais afetivas de se tratar as doenças da mente.

nise da silveira

Outro importante legado de Nise foi a primeira instituição com um projeto de desisntitucionalização dos manicômios no país, a Casa das Palmeiras, fundada em 1956 para receber pacientes que saíam dos hospitais psiquiátricos. Isso foi o embrião da reforma psiquiátrica, também chamada de luta antimanicomial, que tomaria forma duas décadas depois levando à substituição dos hospitais psiquiátricos tradicionais por formas diversas e mais abertas de atenção aos doentes mentais. Um movimento que muitos profissionais da saúde temem que esteja ameaçado pela presença de Valencius Wurch como gestor da saúde mental no país.

Nise ainda publicou livros e artigos, fundou associações e teve uma vida bem produtiva até sua morte em 1999, aos 94 anos.

As nuances da loucura ou da normalidade

O filme “Nise – O Coração da Loucura”, dirigido por Roberto Berliner, retrata o período do retorno de Nise ao trabalho como psiquiatra e mostra como foi que ela adotou o uso da arte de maneira terapêutica e sua relação com os pacientes.

Apesar de algumas falhas, como um exagero na construção dos vilões, a produção tem o poder de emocionar com uma narrativa delicada da relação entre a psiquiatra e os pacientes e um olhar sem preconceitos sobre as doenças da mente.  Ao final da sessão, não tem como não sair tocado e refletindo sobre o que de fato é loucura ou normal e todas as nuances que existem entre um e outro – uma das melhores formas de se homenagear essa mulher admirável.