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E se você pudesse vestir a pele de um homem por um dia? Será que diria coisas como “homem não chora” ou “mulheres têm mais senso estético”? Será que os estereótipos de gênero continuariam fazendo sentido pra você?

São esses questionamentos que a artista performática Diane Torr quer provocar com sua oficina “Man for a Day”, ou “Homem por um Dia”, em que mulheres são convidadas a criar um alterego masculino e sair com ele para interagir com o mundo. Nesta entrevista, ela discute nossos conceitos fechados sobre o que é ser homem e o que é ser mulher e fala um pouco sobre como o mundo do rock estimulou a exploração dos limites entre os gêneros.

Como o contexto artístico de Nova York das décadas de 1980 e 90 influenciou o surgimento de práticas em torno da desconstrução das condutas de gênero? Como isso te inspirou a criar a oficina “Man for a Day”?

Na década de 80, Nova York era um laboratório no qual era possível experimentar novas ideias. Todos estavam bem envolvidos com seus projetos e ninguém estava controlando o que você fazia. Acho que a “androginia” da época também se inspirava em figuras como David Bowie, Marc Bolan e outras estrelas do rock que brincavam com o gênero em suas apresentações. A banda Kiss desafiava o gênero ostentosamente em suas apresentações no começo dos anos 70. A identidade de gênero de todas as estrelas do rock talvez estivesse em dúvida, mas havia um consenso geral de que eles eram heterossexuais.

No teatro lésbico sempre houve mulheres interpretando homens nos anos 80 em Nova York. Nessa mesma época, houve muitas apresentações de drag queens em boates, como Holly Woodlawn, Ethyl Eicheilberger, Ru Paul, Hapi Phace, Jonh Kelly, entre outras. Elas eram fabulosas e fizeram shows maravilhosos, audazes e divertidos.

Para mim, foi uma boa época para explorar diversos personagens masculinos, os quais apresentei ao longo da década de 80. A primeira vez em que trabalhei com gênero foi junto com Bradley Wester, um artista visual gay. Desenvolvemos juntos, durante vários meses de 1981, a performance “Arousing Reconstructions” (Reconstruções Excitantes). Nossa intenção era criar uma performance com o vocabulário do movimento andrógino. Nos ensaios, tivemos abertura e apoio suficiente para nos travestir. Em janeiro de 1982 apresentamos o trabalho completo da performance.

A primeira vez que me apresentei como drag king (versão masculina da drag queen) foi no começo dos anos 90, no Pyramid Club. No ano seguinte, realizou-se o primeiro concurso de drag king de Nova York. Outras mulheres também faziam drag nos anos 80 em boates. Nos anos 90, quando a questão de gênero era de grande interesse cultural, emergiram diferentes eventos drag king. No ano de 2001, dois meses depois do 11 de setembro, Murray Hill organizou um Drag King Extravaganza na zona oeste de Manhattan. Houve muitos performers que vieram a Nova York para se apresentar, a última apresentação de Drag King aconteceu às 5 da manhã!

De que forma esse tipo de práticas artísticas podem ajudar a desconstruir estereótipos do tipo “isso é coisa de mulher” e “isso é coisa de homem”? 

Quando Johnny Science, transexual mulher-para-homem, e eu começamos a dar as oficinas de Drag King em 1990, não imaginávamos que seriam tão populares. Estávamos ambos decididos a usar o drag king em termos comuns, a ideia de uma mulher imitando um homem. Mas os jornais adoraram a proposta e deram muitas matérias a respeito. E as pessoas começaram a ligar para me convidar para debates televisivos nos EUA para discutir a ideia de que o gênero era um comportamento perfomático em si (ou seja, o que entendemos como “ser homem” e “ser mulher” é nada mais que uma encenação para a sociedade).

Como essa prática performativa pode sugerir outras formas de ser e estar no mundo?

Se todas as mulheres do mundo tivessem um alterego e um nome opcional de homem, que pudessem usar, talvez surgissem mudanças na forma de perceber quem somos. Isso é o que precisa ser mudado.

Há tanto preconceito que vem de uma falta de compreensão e também de suposições baseadas no gênero. Isso causa um dano desnecessário. Quando a artista surrealista Lucy Schwob mudou seu nome para Claude Cahun, de repente, suas fotografias chamaram a atenção e suas mostras ganharam resenhas na imprensa. É engraçado ler os jornais e revistas de arte de Paris dos anos 1920 e 30 se referirem a Cahun como “ele”. Minha inspiração vem de Cahun e de outras mulheres como Isabelle Eberhardt, que sentiram a desvantagem. Elas simplesmente mudaram seu gênero para serem tratadas diferente.

Qual é a importância de realizar essa performance artístico/política de drag king em sua relação direta com o corpo, com a rua e a “normalidade” do dia a dia?

Quando as participantes do workshop “Man for a Day” saem do espaço de oficina, nem sempre são tidas como homens pela sociedade. No entanto, a intenção é mesmo criar uma “confusão de gênero”. Isso pode gerar incômodo e, às vezes, inquietação, no público em geral. Muitas pessoas nem sequer percebem, mas alguns podem se ofender já que não sabem como reagir, por exemplo, poderiam pensar: “Você é um homem? Um homem real?”.

Hoje, as pessoas transgênero, transexuais e intersexo estão na vanguarda dessa questão. Eles enfrentam diariamente essa confusão de gênero. Sua performance de gênero é extremamente importante e relevante.  Até o ano de 1996 não existia o “T” na sigla LGBT, a percepção e a consciência que existia em geral se modificou desde então. A triste mártir da causa transexual foi Brandon Teena. Depois do seu assassinato, que foi declarado por um grupo de lésbicas como “um crime de ódio contra uma lésbica machona”, houve um grande debate que culminou com a inclusão do “T” como uma categoria separada e diferente.

Você participou de trabalhos muito importantes em relação ao trato dado à mulher, mas também em relação ao sexo e à sua forma de representação no cinema (comercial e experimental). Penso no Mayhem da Abigail Child ou no The Dead Man de Peggy Awesh e Keith Sanborn, por exemplo. Dá para relacionar esse contexto dos 80/90 em Nova Iorque com a tendência contemporânea do cinema pos-pornô? Dá para relacionar esse contexto dos 1980/90 em Nova York com a tendência contemporânea do cinema pós-pornô?

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Não sei bem dizer. O que posso dizer é que os cineastas que trabalhavam comigo eram bem amigos meus, tínhamos muita confiança entre nós, todos estávamos mapeando novos territórios, éramos precursores. Sabíamos que o que estávamos fazendo era avançado. Todos nós trabalhávamos num contexto no qual não existia a reinvenção do sexo e do gênero, visível hoje no cinema pós-pornô. Buscávamos nossa inspiração no passado, desde os surrealistas até teóricos como Foucault, Deleuze e Felix Guatarri, pelo menos eu fiz isso e me lembro de ter tido conversas pessoais com cada um deles sobre movimentos de vanguarda e sobre pensadores. Estávamos entusiasmados com as descobertas e com os trabalhos colaborativos que tínhamos feito.

Diane Torr é artista, escritora e educadora. Trabalha com performances, filmes, vídeos e instalações. Ela é considerada uma filósofa física- uma pensadora do corpo. No fim dos 70, depois de sua graduação em Artes, se mudou para Nova Iorque, onde formou parte da vivida cena artística de Manhattan.Escreveu um livro sobre seu trabalho, em co-autoria de Stephen Bottoms. Sex, Drag and Male Roles: Investigating Gender as Performance que foi publicado pela Editora da Universidade de Michigan em Outubro de 2010. Tem desenvolvido a  MAN FOR A DAY, oficina do gênero como performance, desde 1990 numa variedade de lugares da América, Europa e Asia. O filme com o mesmo nome, Man for a day, da cineasta berlinesa Katarina Peters estreou no Berlinale Film Festival em 2012 e tem sido exibido em Europa, Asia, Mexico e na América do Norte.