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C hiquinha, ou Chiqs, condinome da Fabiane Langona, é uma das vozes mais críticas e irreverentes do cartum brasileiro. Com fina ironia, ela retrata as doçuras e agruras de ser mulher.  Se você ainda não conhece o trabalho dela, publicado em veículos como Folha de S. Paulo, UOL e Revista Cult, já passou da hora de conhecer!

Em reação ao projeto de lei 5069, que dificulta o acesso ao aborto legal para vítimas de estupro e pode colocar em risco até o acesso à pílula do dia seguinte, Chiqs criou uma das tiras mais ousadas de sua carreira. Em “Dicas do Abortinho”, um feto abortado, ainda na sala de cirurgia, dá recados informativos para o congresso mais conservador desde a redemocratização. Na primeira das tiras, Abortinho explica como funciona a pílula do dia seguinte.

Como não poderia deixar de ser, “Dicas do Abortinho” causou polêmica, mesmo entre quem é a favor da legalização do aborto. Houve quem achasse o desenho pesado demais. Quando postamos uma das tiras em nossa página no Facebook, recebemos diversos comentários dizendo que o desenho poderia ser traumático para mulheres que já fizeram um aborto – uma experiência que nunca é bacana para ninguém, ainda mais quando feito na clandestinidade, como a lei brasileira obriga.

Aliás, se você é uma delas, avisamos que a entrevista e as imagens a seguir podem provocar sensações desagradáveis.

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Como não queremos causar dor a ninguém, respeitamos a crítica e optamos por retirar a tira da página. Porém, nós da Revista AzMina achamos que a sociedade precisa – e muito – conversar sobre aborto. Por isso, convidamos Chiqs para bater um papo com a gente sobre o projeto.

Ao receber nosso convite, ela estava reconfigurando seu computador de trabalho, que foi invadido. Toda a série do Abortinho, incluindo tiras inéditas, foi deletada, assim como ilustrações que ela fez para o movimento Mulheres em Luta. Os demais arquivos foram poupados. Uma coisa é certa: concordemos ou não com a maneira como Chiqs quer falar sobre aborto, ela tem todo o direito de fazê-lo.

Criticar as tiras sim, silenciar a cartunista nunca!

Leia a entrevista a seguir e depois nos conte: e você, como se posiciona com relação a esta polêmica?

O abortinho, um de seus novos personagens, é uma das tirinhas mais polêmicas dos últimos anos. Na nossa página no Facebook, por exemplo, recebemos muitas críticas após publicá-la, mesmo de quem é a favor da legalização do aborto, e tivemos que nos desculpar. Disseram que o desenho pode ser traumático para as mulheres que já fizeram um aborto – experiência que nunca é fácil pra ninguém, ainda mais quando feita na clandestinidade. O que você acha dessa crítica?

Tudo pode ser ofensivo. Pra mim nada é mais ofensivo que aquele cartaz de uma mulher com o rosto anônimo e um bebê homem formado, com uma placa “pela vida”. Pela vida de quem? E a vida dela? Eu não sou amorfa e dura como uma pedra. Pelo contrário! Ou acham que não preciso me despir das minhas próprias dores pra ir adiante?

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Como surgiu a ideia do Abortinho? Foi uma resposta ao PL 5069 ou você já estava pensando em fazer essa tira antes?

Logo após o atentado ao Charlie Hebdo, na França, a Folha de S. Paulo sugeriu que os cartunistas do jornal fizessem um cartum chutando o balde sobre quaisquer temas que quisessem pra um suplemento da Ilustrada, que seria uma espécie de homenagem à publicação francesa. Desenhei esse cartum que, curiosamente, não foi publicado por conta de problemas de ultima hora na gráfica.

O personagem traz sempre uma mensagem “educativa” sobre direitos reprodutivos. A ideia é educar o público ou mais se expressar contra as barbaridades ditas por aí?

Os dois. Nunca me declarei militante. E todas críticas que procuro fazer através do meu desenho partem de mim. É assim que sei trabalhar, comprometida comigo. Estamos num ponto de trevas em que está impossível não querer usar nossa voz de uma forma mais violenta e direta.

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Diz-se muito que precisamos falar abertamente sobre aborto. Mas essa imagem “literal” do aborto, do procedimento em si, quase nunca aparece. Comentários na sua página a acham “pesada” demais. Você acha que é preciso quebrar o tabu em cima dessa imagem para se ter uma discussão aberta e bem informada? Se sim, por quê?

Claro. A arte está aí desde sempre pra chocar. E uma dose de violência é importante em determinadas circunstâncias. Estamos numa situação delicadíssima quanto à exigência de medidas que legalizem o aborto. Não acho que um estado laico deveria se submeter ao atraso mental dessa bancada (religiosa) intolerante e odiosa. Estou feliz que muitas pessoas tenham abraçado o personagem. Algumas se sentiram desconfortáveis pela possível brutalidade da imagem. Reitero que não foi com alegria extrema que optei por usar de violência ao abordar o tema. Não é bonito, não é legal, não é feliz.

Envolve, sim, sangue, dor e medo. Às vezes o papel da arte tem de ser esse: levantar discussões por meio de um certo choque. Me propus a me expor como artista e assumo as consequências.

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Uma das coisas mais inusitadas da série é o jogo entre fofura e grotesco. Abortinho está coberto de sangue, mas é um mascote — com boné e nome no diminutivo. Por que essa escolha?

Na verdade, faz parte do meu trabalho esse tipo de contradição entre estética e discurso. Sempre fez. Fofura e escrotidão, pra mim, caminham sempre lado a lado.

A discussão sobre a tira do Abortinho lembra bastante o debate em torno das tiras do Charlie Hebdo. O cartum sempre foi um meio de provocação mas, hoje, com as mídias sociais, existe uma pressão contrária por um cartum que seja “sensível” com possíveis ofensas. O que pensa disso?

Não existe unanimidade e aprendi a conviver com divergências, com a vivência do outro e o que se constrói a partir daí, sua sensibilidade a determinados temas e seu imaginário opinativo. Minha postura enquanto cartunista é levantar o debate. Quando mais gente estiver tratando do tema, seja a favor ou contra minha representação do personagem, melhor.

O objetivo não é e nunca foi me sentir aprovada. O objetivo é fazer com que as pessoas pensem além da caixa.

Na tira, o Abortinho é humanizado. Tem rosto e fala. A luta pela legalização do aborto defende que o procedimento seja permitido enquanto ainda se tem um embrião, não um feto. Uma das principais confusões que pessoas “pró-vida” fazem é falar de embrião como se fosse feto ou mesmo uma “criança” inteiramente formada. Você não acha que a tira pode alimentar essa confusão?

“People say “beware!” / But I don’t care /The words are just / Rules and regulations to me / me.” (As pessoas dizem “atenção!” / Mas eu não me importo / As palavras são apenas / Regras e Regulações para mim / Para mim) – SMITH, Patti.

Conte-nos mais sobre esse lance de algumas tiras terem desaparecido do seu HD misteriosamente. Você chegou a receber alguma ameaça ou aconteceu do nada?

Recebi algumas mensagens raivosas pela fanpage. Estranhamente, as mais agressivas foram proferidas por uma FREIRA. Tem algo muito errado nesse discurso de amor e respeito ao próximo. Mas também recebi mensagens muito educadas, de pessoas que não concordam com a postura que assumi mas respeitam e me parabenizam pela coragem. Fico feliz de toda forma.

Sobre a invasão. Não foi mesmo possível recuperar o material. Fiquei bastante assustada. Achei tudo muito 1984.

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Além do Abortinho, sumiram ilustrações que você fez para um movimento feminista. Muitas de suas tiras ironizam o machismo. Você já recebeu ataques machistas pelo seu trabalho antes?

Sim. Desconforto e piadinhas, logo no começo. Pedidos de casamento, e-mails tarados. Toda essa droga. Mas, com o tempo, consegui adquirir um super filtro. Não de conformismo, isso nunca. Mas que me permita seguir adiante sem me deixar abalar tanto. Ataques em forma de ameaça nunca recebi. Inclusive, muitos homens já vieram me agradecer, dizendo “obrigada por me fazer ver o quanto sou ridículo e babaca”.

Falando nisso, como é ser cartunista mulher no Brasil? É um clube do Bolinha? Você já sofreu machismo entre colegas de profissão?
Completando a resposta de cima. Vou dizer algo bem honesto. A vez que me senti mais hostilizada como cartunista foi num evento de quadrinhos criado apenas e só para mulheres. Fui chamada de dissidente do movimento, o qual não sei exatamente qual era. Acredito que a crítica veio por eu ser de fato independente e prezar minha liberdade de criação acima de quaisquer fórmulas pré-estabelecidas pelo que se considera um nicho feminista.

Sou feminista mesmo antes de saber o que era. Abri meu espaço no facão, sozinhona. E algo pelo qual lutei é minha liberdade. A liberdade de não seguir ninguém. As ideias tão soltas aí no mundo. Movimentos que se pretendem libertários e se demonstram opressores e intolerantes me parecem contraditórios por demais. O inimigo é outro, sempre foi.

Você pretende continuar com as tiras do Abortinho? Quais seus planos para o personagem?

Sim, pretendo. Vou seguir adiante até quando achar que devo. Penso em reunir todos cartuns num zine e também em abrir a fala do personagem para leitoras que quiserem expressar-se através dele. Também quero disponibilizar imagens em alta para que, caso haja interesse de movimentos anti PL em usá-lo, possam fazê-lo gratuitamente em impressos, como panfletos e demais materiais voltados ao tema.

Conheça mais do polêmico trabalho da Chiqs em:
http://lugardemulher.com.br/author/chiquinha/
http://www.morula.com.br/blog/ptsc-20/

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