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Violência política de gênero: as diferenças entre os ataques recebidos por mulheres e seus oponentes

Análise de discurso mostra que mulheres são atacadas pelo que supostamente são - atributos físicos, intelectuais, etc -, enquanto homens são ofendidos por trabalhos ou posicionamentos

ATENÇÃO: A reportagem abaixo mostra trechos explícitos de conteúdo misógino e racista. Optamos por não censurá-los porque achamos importante exemplificar como o debate é violento nas redes, como a violência política contra mulheres se espalha pelas redes e é sexista em suas formas, quais termos são frequentemente utilizados e como podemos identificá-la.

Renata Campos, economista e viúva do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, não concorreu às eleições municipais de 2020. Mesmo assim, foi alvo de ofensas no Twitter feitas por usuários que discordavam da candidatura de seu filho, João Campos (PSB), à prefeitura de Recife. O mesmo aconteceu com Tabata Amaral (PDT-SP), namorada de Campos. Enquanto as críticas ao candidato faziam menção à sua juventude e “falta de maturidade” para lidar com questões da campanha, Renata foi chamada de “múmia” e Tabata foi acusada de ter “interesse” em ser primeira-dama de Recife. A candidatura de Campos virou trampolim para os ataques às duas mulheres. 

Já a oponente de Campos, Marília Arraes (PT), foi acusada por um usuário de “não controlar as emoções e fazer caras de bocas”, de se “vitimizar por ser mulher” e não controlar suas emoções – um discurso misógino clássico que coloca as mulheres como “loucas e histéricas”. A análise dos discursos direcionados a homens e mulheres candidatas no segundo turno das eleições espelham uma característica comum da violência política de gênero: as mulheres alvos de ataques pelo que supostamente são – características físicas, intelectuais, morais -, enquanto, geralmente, os homens são ofendidos pelo que fazem, seja por trabalhos que já realizaram ou por posicionamentos que adotaram.

No caso de João, mesmo os tweets ofensivos, em que era chamado de “moleque”,  “menininho” ou “princípe”, eram menos contundentes. “João, jogasse muito sujo, boy… Especialmente nessa última semana. E não és jovem demais pra saber que não se topa tudo por uma vitória eleitoral. Agora é aprender com isso e cuidar da tua legislatura. O tamanho da mancha que isso vai dar na tua biografia, lá na frente verás”, escreveu um usuário. 

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As ofensas para candidatas e candidatos que disputaram o segundo turno das eleições municipais de 2020 foram identificadas na terceira etapa do MonitorA, projeto da Revista AzMina junto ao InternetLab, que coleta e analisa comentários direcionados a candidatas de todos os espectros políticos para compreender as dinâmicas da violência política de gênero durante as eleições. Na primeira etapa do estudo, o MonitorA mostrou que, no primeiro turno, as candidaturas femininas acompanhadas pelo observatório  receberam, em média, 40 xingamentos por dia no Twitter, com termos ofensivos relacionados aos atributos físicos assédio moral, sexual e intelectual, descrédito, gordofobia, transfobia, racismo.

Já na segunda etapa do estudo, o MonitorA mostrou que os ataques às candidatas não só continuaram no segundo turno, como também se estenderam às mulheres que apoiaram publicamente as campanhas femininas. Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, fundadora do partido Rede Sustentabilidade, recebeu, por exemplo, três tuítes ofensivos por hora em apenas dois dias. Tudo isso porque declarou apoio à Manuela D’Ávila (PCdB), que disputava a prefeitura de Porto Alegre (RS) e esteve entre as candidatas mais ofendidas nas redes sociais. 

Diferença no trato

Nas duas primeiras etapas do MonitorA, Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) destacou-se como a candidata mais atacada nas redes sociais durante a campanha à prefeitura de Porto Alegre. Chamada de “comunista safada”, “comunista de iPhone” e outras variações que tentavam descredibilizar seu posicionamento político, a candidata também foi xingada de “lixo”,  “bandida”, “oportunista”, “dissimulada” etc. Esses xingamentos, no entanto, nunca se relacionavam à atuação política de Manuela, que foi a vereadora mais jovem da história de Porto Alegre, em 2004, e eleita como deputada federal com recordes de votação em 2006 e 2010. Ela foi chamada de “hipócrita”, por exemplo, pelo jeito que se vestia.

No caso de seu oponente no segundo turno, o emedebista Sebastião Melo, grande parte dos xingamentos estava relacionada à sua atuação como político ou mesmo como candidato, durante a campanha. Ele foi chamado principalmente de “mentiroso” por causa dos discursos de campanha, assim como de “corrupto”, “sonegador” e “caloteiro” por denúncias de sonegação de impostos. Ele também foi chamado de “fascista” e “racista” pelos apoios políticos que recebeu durante a campanha. 

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Em São Paulo, enquanto Bruno Covas (PSDB), prefeito reeleito foi criticado por sua atuação à frente da administração municipal, Luiza Erundina, candidata a vice-prefeita na chapa de Guilherme Boulos (PSOL) foi chamada de “velha decrépita”, “louca”  e mandada para o asilo, sem que tenha sido feita qualquer menção ao seu trabalho como prefeita de São Paulo. Por suas falas e políticas relacionados às pessoas em situação de rua, à Covid-19 e às denúncias de violência doméstica de seu vice, Covas é colocado como “péssimo administrador” ou “péssimo prefeito”. Ainda que ele receba ofensas, é o trabalho feito por ele que é comentado. No caso de Erundina, é sua integridade mental que é atacada.

Os exemplos encontrados nas análises de João Campos e Bruno Covas retratam um comportamento comum e padronizado no mundo todo em diferentes redes sociais, além de refletir também as dinâmicas de violência fora das redes. 

“O primeiro ponto é que existe um ‘descolamento’ do offline e online que é abstrato, mas que só reproduz o que vemos enquanto sociedade. Isso quer dizer que não estamos falando de mundos diferentes. As desigualdades vistas no dia a dia, como a falta de representatividade feminina no desenvolvimento de softwares e plataformas, implicam diretamente na representatividade de quem está online”, explica Yasmin Curzi de Mendonça, advogada, pesquisadora do projeto Moderação de Conteúdo Online do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio e doutoranda em Sociologia no IESP-UERJ.

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O segundo ponto, segundo ela, é o que já mostrava o estudo feito em Oslo, na Noruega pelos pesquisadores Marjan Nadim e Audun Fladmoe. “Os homens são mais atacados online porque frequentam fóruns onde o hábito é ser agressivo, mas no geral recebem xingamentos pelo que fazem: uma opinião emitida, um trabalho. Já as mulheres são atacadas pelo que são – características do corpo, religião, ideologia –  e frequentemente os xingamentos são mais nocivos, atentam à vida”, explica.

Segundo a pesquisadora, é preciso capacitar o judiciário e a polícia, para que o discurso de ódio seja levado a sério. “Não deve haver essa separação entre online e offline, uma vez que as agressões virtuais são altamente violentas e nocivas às mulheres. Se os homens têm uma imensa dificuldade em respeitar leis como a Lei Maria da Penha, por exemplo, imagine no ambiente virtual, onde não há fiscalização e punição bem estabelecida”, completou. 

Em outra cidade paulista, Ribeirão Preto (SP), a candidata e professora universitária Suely Vilela (PSB), chegou a ser chamada de “arrogante” por um usuário no Twitter. O motivo? Ter no currículo o cargo de reitora na  Universidade de São Paulo (USP), tendo sido, inclusive, a primeira mulher a ocupar a posição nos 71 anos de existência da universidade. No caso dela, portanto, sua experiência profissional não a torna qualificada, mas “autoconfiante” demais. 

 “É importante observar como pontos que poderiam ser destacados positivamente, no que diz respeito à formação acadêmica ou atuação profissional das candidatas, acabam sendo usados para colocá-las como “arrogantes”. A desigualdade de gênero orienta o pensamento social hegemônico na tentativa de expurgar mulheres dos espaços públicos, independentemente de as mulheres em questão terem experiência com gestão pública, terem um passado político.Tudo poderá ser utilizado contra elas. É como se as mulheres nunca fossem boas o suficiente para ocupar esses cargos. O maior “problema” que elas possuem para aqueles que as atacam, no entanto, parece ser o fato de serem mulheres”, analisou Fernanda K. Martins, antropóloga e coordenadora da área de desigualdades e identidades do InternetLab. 

Youtube

Dados do Youtube também foram analisados na terceira etapa do MonitorA. Dos 3.431 comentários capturados, 34 eram ofensas diretas às candidatas Manuela D’Ávila e Marília Arraes. Apesar de estarem em menor quantidade, os comentários foram mais violentos e agressivos, com conteúdo misógino e sexual como, por exemplo, o direcionado à Manuela após a divulgação do resultado do segundo turno em Porto Alegre pelo TSE:  “VTNC sua bandida. Deveria estar é presa por dar guarida ao hacker da Lava Jato”  ou o direcionado à Marília, após o fim da apuração em Recife: “Hoje JOÃO Ganhou mano Chupa kkkkkkk”. 

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“O Youtube tem sido muito utilizado pelos grupos que disseminam discurso de ódio e vem pecando nas políticas de moderação. O que pesquisas mostram é que esses grupos misóginos se organizam em fóruns ou outras plataformas onde a moderação do conteúdo é descentralizada, para depois migrar para as plataformas mais populares, uma vez que o intuito é atacar as pessoas. Como o Youtube precisa melhorar muito nesse aspecto, acaba sendo uma ferramenta onde o uso tem sido crescente”, destacou Yasmin. 

Metodologia

Entre os dias 15 e 29 de novembro, período de campanha até o segundo turno, foram coletados 94.108 tuítes que citavam as candidatas e candidatos de diferentes regiões do País. Deste total,  foram filtrados os 30% dos tuítes que tinham algum engajamento (curtida ou retuíte). Após este primeiro recorte, foram analisados 1.310 tuítes considerados ofensivos direcionados aos candidatos e candidatas – os 100 tweets com mais engajamento de cada candidato ou o total de tuítes dos candidatos que não chegaram a 100. Para verificar a dinâmica do discurso de ódio para homens e mulheres, foram selecionadas apenas as candidaturas femininas que tiveram seus respectivos concorrentes analisados após a aplicação de todos os filtros, chegando a um grupo de seis candidaturas femininas e seis candidaturas masculinas. 

O MonitorA é um observatório de violência política contra candidata nas redes, um projeto da Revista AzMina e do InternetLab, com parceria do Instituto Update. A ferramenta de análise de dados foi desenvolvida pelo Volt Data Lab e os glossários de termos pesquisados foi desenvolvido pela pesquisadora em discurso de ódio Yasmin Curzi. 

Pelo InternetLab, o MonitorA é uma das frentes do projeto Reconhecer, Resistir e Remediar, uma parceria com a organização indiana IT for Change, financiada pelo IDRC (International Development Research Center), para pesquisar manifestações e problemas no enfrentamento ao discurso de ódio online contra mulheres no Brasil e na Índia.

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