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Por mais meu que ele seja, preciso reconquistá-lo. Necessito reencontrá-lo. Amá-lo. Conceder-lhe o direito a sua existência, liberdade para ocupar o espaço que quiser, as formas que tiver e a aparência que lhe aprouver.

Na sociedade em que vivemos, o corpo da mulher é o primeiro alvo de ataques. Diante dos padrões estéticos impostos pela mídia, somos programadas a concluir que nosso corpo está longe de ser como deveria. Nunca está bom e nem vai ficar. Ainda que nos mutilemos, nos esforcemos, que façamos um investimento de muito tempo, vontade, dinheiro e energia para o tão almejado “corpo perfeito”, parece que nunca chegaremos lá. E não mesmo, porque esse não é o objetivo do sistema.

O modelo ideal é feito sob medida para ninguém, perfeito para que passemos a vida inteira escravizadas inutilmente em busca de conquistá-lo.

Já disse a escritora norte-americana Naomi Wolf que “a obsessão pela magreza feminina não é uma obsessão pela beleza feminina, mas, sim, pela obediência feminina. As dietas são um instrumento poderoso no processo de submissão das mulheres, pois uma população passivamente insana é facilmente controlada”. Isso porque essa programação insistente e sistemática incutida em nosso inconsciente desde que nos entendemos por gente tem consequências que ultrapassam e muito a questão física.

Ela pode nos transformar em uma massa insossa, incapaz e infeliz.

A sociedade relaciona diretamente a beleza feminina com sucesso, realização pessoal, merecimento, amor e felicidade. Enquanto a existência fora dos padrões é vinculada ao fracasso, à preguiça, falta de popularidade e afeto. Indústrias de cosméticos, academias, salões de beleza, spas e clínicas de cirurgias plásticas investem milhões para nos vender o sonho da “perfeição”. Na mídia, mostrar as características reais dos corpos femininos tornou-se o maior dos tabus. Maquiagem, manipulação de imagens e Photoshop são a regra para nos iludir quanto à aparência de modelos e celebridades na onda do “é possível ser perfeita, só não consegue quem não quer”.

Quando o corpo da mulher, o corpo real, passou a ser proibido? Não pode mostrar dobras, marcas, pêlos, estrias, celulites, rugas, tudo que a gente tem, que todo mundo sabe que tem. É um antagonismo surreal: sabemos que o corpo é corpo, mas acreditamos que ele é aquele plástico que nos vendem nas revistas.

Miga: ninguém é daquele jeito.

Aquilo não é nada mais que uma mentira.

Simples assim.

Desconstruir conceitos é um processo. Um processo trabalhoso, demorado, não é fácil e pode ser doloroso. Mas nada é pior do que a dor constante da busca por uma ilusão. Uma luta que não se pode ganhar, pois dentro desse conceito a gente não pode nem envelhecer mais. E, acredite, todas vamos envelhecer. O que queremos é envelhecer em paz com nossos corpos, nossas curvas, nossas marcas, pois, a partir do momento em que travamos uma luta contra nós mesmas, a gente já perdeu.

Trégua para com esse corpo que nos traz tanta coisa boa! Ele nos leva para tantos lugares incríveis, nos proporciona sentir um abraço, um beijo, a chuva no rosto, a água do mar, o sol, a brisa, o sexo, a vida. Nosso corpo merece ser amado!

É esse o processo que venho trabalhando através da fotografia, um processo de encontro, de reconhecimento, de perdão. Vamos perdoar nosso corpo por não ser “perfeito”. Através disso conseguimos retirar a culpa que nos foi entuchada guela abaixo pela sociedade e compreender que, na verdade, não há o que perdoar. Que é ok sermos de verdade, não sermos bonecas de cera. É ok termos dobras, cicatrizes, estrias, tudo que mostra as experiências que passamos na vida. É ok ter mais quilos do que dizem por aí que deveríamos ter. E é ok ter menos também. Não é uma competição, estamos todas nessa luta juntas.

Compreendemos também que esse processo é uma luta diária. Como fomos tão bombardeadas pelas repressões e julgamentos durante tanto tempo, eles foram absorvidos em nosso subconsciente de forma muito profunda. Assim, a desconstrução também leva tempo. A semente é plantada e precisa ser regada todos os dias, várias vezes por dia. E é ok quando a gente não conseguir. Quando a gente acordar se detestando, a gente pode lembrar que não é fácil mesmo. E aí a gente continua tentando. E a gente vira mais gente. E essa mais gente cria uma rede de apoio, de resistência, de empatia, porque amar nosso corpo numa sociedade que praticamente nos obriga a odiá-lo é um ato revolucionário.

Assim, eu considero meu trabalho mais do que um ensaio fotográfico, trata-se de um ritual. Há todo um processo no qual procuro conduzir a união da mulher com seu próprio corpo e registrar esse momento em forma de imagens. Imagens que são poderosas, capazes de iniciar um processo de uma beleza ainda desconhecida até por nós mesmas. Isso porque uma sociedade composta de mulheres que se amam, se consideram capazes, confiantes e empregam seu tempo e sua energia não para conquistar o tão irreal corpo “perfeito”, mas sim para criar, realizar, questionar e descobrir uma série de outras coisas tem uma força inimaginável. Uma sociedade de mulheres livres, fortes e realizadas é o maior perigo para o patriarcado.

Por isso, migas, a revolução será feminista.

Será não, já está sendo.

E nós estamos construindo isso juntas.

Deh Mussolini:

 

 

Graças a esta ideia incrivel da Revista AzMina e da Maria Ribeiro, eu tive a oportunidade de dividir momentos e reflexões sobre o corpo da mulher no mundo. Objetificação, exigência de perfeição estética, ditadura da beleza, autoestima baixa…tudo aquilo que dividimos entre nós, mulheres, nos nossos circulos e encontros.

Falo diariamente em canção, poesia, diálogo e retórica sobre a liberdade do corpo feminino, feminismo, empoderamento, em viés material e espiritual, principalmente no meio musical e de repente me vi ali, nua, tendo que encarar de frente o que ainda não superei: as minhas cicatrizes, o que ainda considero feio e flácido, as marcas da maternidade… Foi difícil, bateu neura pós sessão de fotos e foi INTENSO!

Ver a coragem das outras manas em se expor, as palavras de encorajamento da Maria linda, lembrar que se quero liberdade, devo começar a me libertar, para além do discurso. Encarar a mim mesma!  Vamos lá, eu sou corajosa, somos corajosas!! Quero me amar cada dia mais, sem me importar com qualquer “defeito” físico. Olhar pra cada parte do meu corpo e não ver feiura, ver um grande instrumento de trabalho, de relação, de prazer, de estar aqui, agora!


Aline Xavier:

 

Despudorar a alma, literal e metaforicamente. Como ela está inteiramente ligada ao corpo, o processo passa pelo físico também. E é essa a proposta desafiadora da Maria Ribeiro, revelada ao mundo por meio do que chamo de retratos de afirmação e resistência.

“Como assim ousa?” – era o que as minhas vozes internas desconexas discorriam, numa sincronia quase que mentalmente destrutiva. “Quem é você?” – senti um peso nas costas. O que pretende atingir com isso? – escutava e não tinha sequer meia resposta. Não preciso (e talvez nem deva) calar os meus diálogos internos e desconcertados. De repente, a ideia é deixá-los passar livremente pelo meu consciente, e permitir que reprogramem o seu curso. E não tentar expurgá-los a qualquer custo. Mas também não adotá-los como verdades de estimação e abastecê-los com pequenas porções de suprimento de três em três horas.

Visualizar a própria imagem é um desafio pra muitas. É muito fácil se encolher atrás de ângulos, utilizar um super filtro da porra pra amenizar o que consideramos defeitos e revelar para o mundo (considero as redes sociais um universo, na verdade) o que mais nos agrada. Não que uma ou outra coisa que não gostemos na aparência não possa aparecer de vez em quando (discordo horrores de quem diz que só postamos o lado “bom” da gente e da vida), mas aquilo que é muito desconfortável, que sangra sem derramar, raramente submerge.

Imagens (coloridas, principalmente) captadas por quem enxerga além do externo é uma surra de exposição. Que foi absolutamente necessária e relevante para parte do meu processo de reconstrução (ou construção) de uma autoestima minimamente saudável.

Esse caminho é longo. Em alguns casos, eterno. Um eterno desaprendizado de tudo que foi imposto às mulheres de forma doutrinadora. Mas que pode ser questionado e desconstruído em pequenas doses diárias. Afinal, resistimos pra isso. Resistimos pra existir com significado e transformar o mundo e os padrões (de beleza, mas não somente) através do nosso próprio universo.

Resistimos porque apenas existir e (sub)viver não faz sentido.

Pabline Félix

 

Apesar do que querem nos tornar, existimos.

Olha, sorri. “Meldels”. A alegria de se ver livre numa foto.

Olha de novo. Repara no nariz meio torto. “E essa pele? Devia ter colocado uma maquiagem direito”. Percebe a postura nada adequada. Conta e reconta uma série de insatisfações. Além da boca torta, claro. Entra na cota-imperfeição que todo mundo tem, afinal, “ninguém é perfeito”. “Mas aí chega,né? Boca torta e pele oleosa é demais”. E aí pára.

A cabeça gira dez mil vezes para sintonizar finalmente a voz da afirmação pessoal. É que é difícil ouvir esse som tão tímido quando tantas outras vozes – da publicidade, das revistas, das novelas, da religião e até da política – gritam em favor dos padrões, dos estereótipos. Em favor de um mundo fictício e opressor.

Mas se esse som ainda é tímido, é também potente, porque se alimenta e cresce diariamente n(d)as conversas, leituras, debates e reflexões. Se transforma na convivência com outras mulheres, naquilo que se chama empoderamento feminino, uma revolução que se torna real na vivência individual e que só se torna viável se manifestado coletivamente. Se alimenta também de experiências, como a de ser fotografada seminua – e, ao ver a imagem, decidir se achar linda apesar dos desvios, apesar dos julgamentos. Apesar das expectativas. Apesar.

Sou Pabline Cota Felix, tenho 29 anos e desde que nasci lido com o “apesar”. A falta de um nervo do lado esquerdo do rosto faz com que eu tenha a boca torta. “Quase normal, sabe, apesar da deficiência”. Apesar disso, bonita, mas “melhor não passar batom que é pra não destacar esse seu defeito”, disse a maquiadora que me preparou para o meu baile de formatura da faculdade.

Pois apesar do que decidiram nos tornar, existimos. Bonitas não “apesar”, mas “com” tudo aquilo que nos tornam quem somos. Formas humanas com inteligência e sentimento, com relações em construção, com significância. Somos mulheres que existem e precisamos ser respeitadas por isso. E também precisamos nos respeitar. Aceitar a existência complexa das formas e personalidades das outras e de nós mesmas – certamente a parte mais difícil dessa tarefa.

E é por isso que, hoje, ostento (quase sempre) o batom vermelho, que me lembra que as diferenças precisam ser valorizadas, e não escondidas. Por isso a bicicleta, que me serve como bandeira por uma forma mais amigável de circular na cidade. Por isso o cabelo curto.

Por isso os seios pequenos.

Por isso as pernas.

Por isso os braços.

Por isso a barriga.

Por isso o sorriso, torto, com o qual resisto.

Por isso o feminismo.