“Tenho 30 anos e passei a maior parte da minha infância fora do país. Quando completei 15 anos, após me mudar pro Brasil aos 13, fui entendendo os códigos culturais que a mídia comunicava através da TV.

Sou negra. Minha pele é considerada “clara”. Do “tipo Globeleza”.

Dentro do imaginário popular, o estigma da Globeleza sempre me acompanhava… E eu tentava entender por quê.  

A minha identidade étnico-cultural estava ainda se desenvolvendo partir de referências encontradas nesse emaranhado de informações que são absorvidas no dia a dia de uma adolescente negra.

Aos 16 eu já usava o cabelo natural. Black power. E era alvo de muitas críticas na rua, não conseguia emprego por não me encaixar nos padrões exigidos e apesar de minhas habilidades e interesse em aprender, não tinha muitas oportunidades. 

A Globeleza era, sem dúvidas, uma oportunidade. Como se fosse algo a se sonhar. Um lugar ao sol.

Sou bailarina. Na época cursava Dança na UFRJ. Assim que eu começava a dançar em festas de família, eventos, bailes… sempre ouvia: Você podia se inscrever pra Globeleza! Samba tão bem!

Me dava uma esperança.

A Globeleza era uma forma de ser bela. Aceita. Brilhar com o apoio da sociedade. Na minha mente jovem, só ali era possível não ser invisível.

Aquele era o lugar onde meu corpo seria aceito? meu cabelo seria celebrado? minha pele seria honrada? Esse era mesmo um lugar real? Porque em nenhum outro canto eu me via? Lugar nenhum era meu?

O que nunca me foi dito, é que esse lugar ao sol, foi constituído através de uma ótica dominadora. Opressora. Racista. E eu só fui entender a bucha que isso significava anos depois.

Aquela era uma ótica que permite o abuso, incentiva o estupro e objetificação corporal e só faz reforçar o estereótipo de que nós mulheres negras somos mesmo apenas uma fantasia sexual que permeia o imaginário dessa sociedade machista com mentalidade escravocrata.

Acredito que esta não seja uma história pessoal. Quantas adolescentes tinham essa mesma ideia? Aceitaram estar nesse lugar porque parecia que ele era o lugar ao sol? Por que só a “mulata” da Globo representava o Carnaval? E por que ela era invisível o resto do ano?

Todas essas perguntas não passavam por minha cabeça na época. 

A gente nunca aprendeu a questionar. Aprendemos a aceitar. De acordo com o opressor, não merecemos muito afinal. E por isso estes lugares ao sol eram tão sedutores.

Por isso os elogios: “Nossa, você parece com a Globeleza!” eram vistos como uma esperança na busca por aceitação e visibilidade na sociedade.

A nudez gliterizada era simplesmente a única forma de ser “valorizada” de acordo com a mídia.  

Por anos, nós mulheres negras fomos tratadas como objeto sexual. Mesmo. Eu me lembro de não ser apresentada formalmente  pra família de um menino que eu amava e já tinha um relacionamento. E me lembro da dor que isso me causava.

Figuras como a Globeleza eram usadas para reforçar a convicção de que nosso corpo só era válido ali. Nu. Exposto. Explorado para divertir e seduzir o observador. E mesmo assim…dentro dos padrões impostos por eles. Pele clara, cabelo exótico, longilínea, magra, com curvas…

A cultura do carnaval na Globo se resumia a esse evento. Quem será a Globeleza deste ano? Existia uma expectativa nacional para colocar mais um corpo na arena dos leões.

E o que acontece no caso da bela Nayara Justino, que foi rejeitada por ter a pele escura demais? além de exposta, nua e objetificada…ela foi rejeitada por não se encaixar nesse imaginário cruel. Como ela se sente hoje? 

A Globeleza é uma personagem que expôs esse lugar. Serviu para que questionássemos a crueldade nessa figura. E serviu para que o mundo enxergasse o quão machista e racista nosso país pode ser.

E em 2017, finalmente, mudamos a perspectiva. Graças a movimentos em prol dos direitos das mulheres, da diversidade na mídia, da retratação do nosso país de forma a contemplar a complexidade e multiplicidade cultural do nosso povo.

No ano passado, Djamila Ribeiro e a Stephanie Ribeiro publicaram na Revista AzMina um texto em que pediam o fim da Globeleza. “Não aceitamos ter nossa identidade e humanidade negadas por quem ainda acredita que nosso único lugar é aquele ligado à exploração do nosso corpo”.

Temos uma vinheta de carnaval onde uma mulher negra é retratada vestida com vários figurinos coloridos e exuberantes, feliz por poder fazer seu trabalho de forma íntegra. Dançando ao lado de uma mulher branca também vestida com figurinos criativos, homens brancos e negros alegres acompanhando-as e danças populares BRASILEIRAS. Temos representado naqueles 37 segundos: o Carnaval do Brasil. (Veja a vinheta aqui)

O que mudou?

Mudou que a partir de agora, uma jovem de 16 anos vai poder ver que dançar como Globeleza é um trabalho que não expõe o seu corpo de forma cruel.

Todos os envolvidos estão fazendo seu trabalho. Nenhum estereótipo. Apenas se veem profissionais exercendo suas funções com muita competência.

E eu continuo me perguntando: não é assim que deveria ser? As oportunidades não deveriam existir e serem iguais para que todos expressem seu profissionalismo sem exotização e exposição moral?

Começamos 2017 com mudanças positivas ao menos quando se refere ao Carnaval.

Sigamos.