Homens fotografam manifestantes na marcha topless em Nova York. Foto: Débora Costa e Silva

Homens fotografam manifestantes na marcha topless em Nova York. Foto: Débora Costa e Silva

Quando soube que haveria uma marcha pró-topless no domingo, dia 28, em Nova York me animei com a possibilidade de ver um movimento feminista tomar as ruas dessa cidade incrível, conhecer mulheres inspiradoras, fotografar e, por que não, experimentar tirar a blusa também. Imagino que seja libertador por inúmeras razões: por ser um ato permitido por lei em Nova York, mas bastante condenado pela sociedade; para aliviar o calor – ainda mais no verão daqui, que tem chegado facilmente aos 35°C; e principalmente para encarar e exibir uma parte do corpo que muitas vezes não gostamos ou temos vergonha.

A marcha percorreu 2,5 km em Manhattan, até a Dag Hammarsjold Plaza, onde alguns manifestantes fizeram discursos em um megafone. Chegando ao ponto de encontro, avistei dois balões cor de rosa infláveis simulando dois seios, acoplados em um carro 4×4 ao lado da praça, mulheres com cartazes e muito barulho. O clima era de festa.

Mas ao me aproximar estranhei a quantidade de homens que havia no local. Não só havia muitos como era um número infinitamente maior do que o de mulheres – cerca de 30 manifestantes apenas.

Eram poucos os homens que se mostravam mais empáticos. Eles também estavam sem camisa e colaram adesivos nos mamilos. “Fiz isso em solidariedade às mulheres, que também têm que cobrir os mamilos em muitos lugares”, explicou Larry Nelson, um dos manifestantes.

Eu mal consegui assistir aos discursos, pois havia um mundaréu de homens à minha frente, disputando espaço para conseguir tirar fotos das mulheres de topless. Alguns usavam câmeras profissionais, então supus que deveriam ser jornalistas – ainda assim, por que só homens foram cobrir o ato? A minha impressão se confirmou quando, ao pedir para fotografar uma das meninas, ela me disse: “uau, você é a primeira mulher que vi fotografando o evento! E uma das poucas que me pediu para fazer a foto.”

Sim, porque a maioria simplesmente se aproximava e fazia os cliques, às vezes até com a câmera mirando diretamente os seios das mulheres, sem o menor pudor. Os poucos que pediam permissão para fotografar eram os que queriam selfies com elas.

A reação das manifestantes era tão intrigante quanto o comportamento masculino. Elas não pareciam estar incomodadas com o assédio, não negavam uma foto sequer e ainda sorriam e faziam pose. Sserá que elas gostam? Como podem não se incomodar? A resposta veio quando consegui conversar com algumas delas.

“É claro que eu não gosto de ser vista como um objeto sexual, mas acredito que quanto mais a sociedade nos vê, mais o topless será visto como algo normal e comum. O processo é lento, cada manifestação é um pequeno passo, mas chegaremos lá”, acredita Nadia Salois.

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“Os homens, principalmente os americanos, são obcecados por seios. Temos que viver com isso, mas eles têm que respeitar. Agem como se nunca tivessem visto um peito antes”, critica Kasyo Perrier, que junto com Nadia participa da seita Raelian Movement (Http://rael.org), um guia espiritual progressista que promove atos e protestos que lutam pela igualdade de direitos entre os gêneros, como o próprio Go Topless (http://gotopless.org/), que acontece desde 2007 em diversas cidades dos Estados Unidos, Canadá, Europa, África, Ásia e até América do Sul. Bastante controversa, a religião consiste na crença em extraterrestres e tem como símbolo uma suástica dentro de uma estrela de David.

Mesmo com as polêmicas do grupo fundador, o movimento acaba ganhando adesão de feministas que nada têm relação com a seita. É o caso da estudante Nickii, que participa pela segunda vez do ato e carregava um cartaz com símbolos feministas e as hashtags  “#freethenipple” (liberte o mamilo) e “FuckOpression” (f***-se a opressão). “Depois da primeira vez, me senti mais livre e comecei a fazer topless com mais frequência, em casa e também na praia”.

A sensação de liberdade parece ser a motivação principal das participantes. “Uma vez que você faz topless, muita coisa muda na sua cabeça e você sente que é capaz de fazer qualquer coisa. Perde o medo e a vergonha e sente mais orgulho de si. É muito empoderador”, afirma Kasyo, cujos seios bronzeados não mostram o menor sinal de marca de biquíni.

Por fim, mesmo após conversar com essas mulheres corajosas e inspiradoras, não me senti a vontade de seguir o exemplo e tirar a camisa. Imaginava encontrar um ambiente menos agressivo, mais amigável e aberto. O que vi foi o mesmo que vejo nas ruas todos os dias: homens olhando e abordando as mulheres de forma desrespeitosa e voraz. De fato, há muito ainda a protestar e situações como essas só provam o quão longe estamos do ideal de igualdade de direitos.