Nesta semana eu dei um fora nas redes sociais. Quando soube do horrível ataque em Orlando, em que um homem que parecia ter conflitos com a própria sexualidade matou 49 pessoas na boate gay Pulse, soltei uma frase mais ou menos assim: “É isso que a sociedade ganha ao reprimir os homossexuais, leva as pessoas à loucura e a atos extremos.”

O que há de errado com a minha postagem? Acompanhe comigo o raciocínio que eu, alertada com muito carinho por meus amigos gays e lésbicas, também acabei de entender: ao insinuar que todo ato violento de homofobia vem dos próprios gays enrustidos, eu estava aumentando o coro que diz que eles são o câncer do mundo. Ou seja: o problema não seria a ideia de que machos heterossexuais são o suprassumo da batata doce, mas que os gays são desequilibrados quando não são aceitos.

Ajuda a compreender quando fazemos um paralelo com a ideia de mulheres machistas. Claro que existem mulheres machistas tanto quanto existem gays enrustidos e amargos, mas essas pessoas não podem ser as grandes culpadas pela própria opressão, não faz sentido. Dizer que “os homens são machistas por culpa das mães que os criam assim” e que “todo homofóbico é gay enrustido” é o mesmo que afirmar que “os negros eram escravos por culpa deles mesmos que não resistiram à escravidão”. Entende como é confortável mudar o foco do problema do verdadeiro vilão para culpar a vítima?

E, acima de tudo isso, não está confirmado que o atirador seja gay. Existe, sim, a possibilidade dele frequentar esses ambientes apenas para planejar ataques. Ódio puro e simples. Mas me permitam continuar com a possibilidade dele ser, de fato, enrustido, por força da argumentação.

Mas agora que já fiz o mea culpa e expliquei o abacaxi todo, me permitam introduzir algumas nuances à questão. E acho isso importante porque a internet é a terra da lacração, né? Não tem espaço pra mais ou menos, é só sim ou não – e de preferência como meme ou frase quase publicitária. E nosso feminismo e luta pelos direitos LGBT não podem ser assim, justamente porque estamos lutando para que as pessoas sejam livres e não para que troquem os dogmas machistas por um novo conjunto de dogmas em formato GIF.

E a questão é que esse discurso tem limites e sabe por quê? Porque tanto as mulheres machistas quanto os gays enrustidos são pessoas com livre arbítrio e seria um tremendo desrespeito com elas imaginar que não tinham a mínima capacidade crítica para lutar contra a própria submissão. E, sim, quando uma mulher diz para seu filho pequeno que ele deve ser “pegador”, ela é parcialmente culpada pelo machismo daquela criança. O que as pessoas esquecem, no entanto, é que a culpa dela é muito, muito menor do que a culpa do pai que leva o moleque num puteiro aos 13 anos, ou do Faustão, que coloca mulheres semi-nuas feito enfeites na televisão durante toda a vida daquela criança.

Reconhecer que gays e mulheres têm um papel duplo de vilão e vítima é importante para que nós, enquanto minorias, percebamos que temos o poder de reagir.

Assim, o atirador da boate podia ter usado seu perfil no Grinder e suas visitas à Pulse para conhecer pessoas gays maravilhosas que ajudariam ele a libertar seu coração do amargor. Poderia ter buscado ajuda psicológica e até igrejas LGBT friendly – aqui nos EUA, onde eu também vivo, tem uma igreja com bandeira LGBT na porta em todos os bairros. Mas isso não tira a culpa de absolutamente ninguém que repetiu a ele, tantas vezes, que ele iria ao inferno se realizasse esses desejos. Ninguém que riu de outros gays fazendo com ele sentisse que se tratava de algo de que ele teria que se envergonhar.

No fundo, esse homem é um produto da repressão e da intolerância e disso somos todos culpados por não sermos, enquanto seres humanos, acolhedores o suficiente. É produto de uma lei capenga que permite acesso a armas a qualquer um. Mas ele também escolheu ser violento. E dizer isso, com todas as nuances envolvidas, não é culpabilizar a vítima, é empoderá-la por afirmar que ninguém está condenado a um destino de oprimido por ser minoria: há sempre um caminho pra libertação. Sem nos esquecer, jamais, que essa é sempre, um culpa socialmente compartilhada.