O funcionário público paulista Jean Rodrigues da Silva, 53, se sentia tão constrangido de ir ao banheiro que largou a escola. Foto: Helena Bertho

O funcionário público paulista Jean Rodrigues da Silva, 53, se sentia tão constrangido de ir ao banheiro que largou a escola. Foto: Helena Bertho

A gravidez parecia mesmo destinada a ser cheia de mistérios. Primeiro, ela não soube que estava grávida até o sexto mês. Depois, mesmo com a tecnologia dos ultrassons, não havia médico que soubesse satisfazer sua curiosidade quanto ao sexo do bebê. Alguns diziam que era menina. Outros, menino. E tinha ainda quem nem se arriscava a palpitar.

Haru chegou ao mundo sem esclarecer muito mais para ela. Seu corpinho pequeno não era feminino nem masculino, mas era saudável. Entre a ansiedade e a confusão que aflige pais nesta situação, ela acabou por autorizar que os médicos fizessem a chamada “cirurgia de adequação” no bebê. Registou o que agora era sua menina e enterrou o assunto. Só lembrava do ocorrido quando chegava a hora de dar hormônios à criança dizendo que eram suplementos de vitamina.

O silêncio acabou de forma brusca. Haru, já adolescente, percebeu o engodo e sentiu-se traído. Seu corpo tinha sido moldado por uma cirurgia que ele não desejou e hormônios que não concordou em tomar. A lei o havia enquadrado em um sexo que não representava nem sua personalidade nem sua biologia. Quando confrontada, a mãe só lhe deu a única explicação que conhecia:

— Mas eu não queria que você fosse uma “aberração”….

Nunca mais os dois se falaram.

“Eu não tenho um gênero”, atesta Haru, hoje DJ com 20 anos.

“Se eu nasci indefinido, por que me definir?! Não vejo necessidade e nem consigo fazer isso. Anjos não têm sexo e nem gênero, e são perfeitos como são. Eu também sou assim.”

Haru faz parte de um grupo de pessoas maior do que se imagina, os intersexo. Segundo a Sociedade Norte Americana Intersexo, pessoas cujos corpos não são nem femininos nem masculinos – antigamente chamadas de hermafroditas, um termo impreciso e pejorativo – são 1 em cada 100 nascimentos. Para se ter uma ideia, trata-se de uma condição mais comum que o albinismo, por exemplo – e  você, muito provavelmente, se lembra de já ter visto um albino na vida.

Estigmatizadas e tratadas como bizarrices, a maioria dessas pessoas mantêm segredo sobre sua identidade sexual. E para elas, também, a internet foi um alento e, no final do ano passado, possibilitou que elas começassem a se organizar em fóruns on-line e a criar o que é hoje o embrião do movimento intersexo do Brasil.

O que é intersexo?

Antes de saber o que essas pessoas desejam e pelo que lutam, é preciso entender o que é, afinal, uma pessoa intersexo. O vídeo a seguir dá uma boa introdução.

Veja que não existe um único tipo de intersexualidade. Os nossos corpos se moldam como masculinos e femininos por uma série de razões, que começam na genética e terminam em nossa interação com o mundo. Imagine que a sexualidade é formada por vários níveis como uma dessas bonequinhas russas que contêm uma ainda menor dentro de si, e outra, até o nível mais básico. A menor das bonequinhas é a genética, seguida pelas células, pelos órgãos, pela interação entre os sistemas e, finalmente, pela influência do mundo sobre nossos corpos. E, sim, isso existe também: afinal, ter cabelo comprido é uma característica “de mulher” apenas porque a sociedade decidiu assim. E se você tomar pílulas de hormônios, o mundo estará mudando sua expressão sexual biológica também.

Assim, existe uma intersexualidade que é genética, fruto de variações menos comuns dos genes X e Y, como as combinações XXX, XXY, XYY e XXXX. Existe ainda uma que resulta da alteração das glândulas que produzem os hormônios sexuais, como pessoas XX que produzem testosterona em quantidades típicas de corpos masculinos. E também existe uma intersexualidade que é resultado de uma maneira singular de certos corpos reagirem a hormônios, como é o caso de Minako*, uma intersexual de 27 anos que vive em Minas Gerais.

Apesar de ter nascido com o par genético típico aos homens, o XY, o hormônio que molda o corpo como masculino nunca funcionou com ela. Ela é completamente insensível à testosterona. Não tem pêlos, tem seios e curvas muito femininas e completamente naturais.

header-672x372

Quando nasceu, Minako tinha uma genitália dúbia. Os pais foram obrigados a registrá-la como menino, já que a lei brasileira exige a classificação do sexo como homem ou mulher na certidão de nascimento. Se não se enquadrar, segundo a legislação atual, você não tem o direito de existir enquanto cidadão. Em compensação, os pais de Minako não fizeram nenhum tipo de cirurgia “de adequação” na criança e deram a ela uma educação livre de qualquer estereótipo de gênero. Um dia brincava de videogame e futebol, no outro, de bonecas e maquiagens.

“Eu tenho muita sorte porque meus pais nunca decidiram por mim quem eu seria “, ela conta. “Tive uma educação libertadora. Tive as noções básicas de humanidade e de como viver em sociedade. Desde pequena, eu tive apoio deles (conforme meu corpo e minha personalidade foram se desenvolvendo como femininos) e eles sabiam que não tinha o organismo masculino. Aliás, é, e sempre foi, muito mais feminino do que masculino.”

Quando chegou à puberdade, Minako decidiu que queria alterar cirurgicamente sua genitália, já que o pequeno pênis com que nascera havia se tornado atrofiado e era desfuncional. Hoje é uma mulher que leva uma vida normal. Relaciona-se com homens e está tranquila com a ideia de que, se escolher formar uma família, seus filhos serão adotados.

“A diversidade que a natureza nos deu é muito bonita! Não é à toa que, na mitologia grega e de muitas outras culturas antigas, os hermafroditas e pseudo-hermafroditas eram considerados deuses e deusas”, defende ela.

“Veja: a maioria das pessoas que têm intersexualidade são saudáveis, estudam, se desenvolvem em excelentes profissionais e pessoas, mas têm a biologia diferente. Simples assim.”

Preconceito científico

É fácil julgar a mãe de Haru por sua reação à condição do filho, mas a verdade é que ela é apenas fruto de uma sociedade que castrou o direito de ser diferente em tudo que se refira a sexo. E não estamos falando aqui apenas do preconceito contra homossexuais e transexuais.

Vale explicar: gênero é maneira como você se comporta e se veste, de acordo com ideias que são relacionadas a um sexo ou outro. Sexo é a expressão biológica do seu corpo. Uma pessoa que nasceu com um corpo que possui um sexo diferente do seu gênero é transexual. Os intersexuais não: eles nasceram com um corpo feito assim pela natureza, muitas vezes se sentem representados por ele e, mesmo assim, a medicina resiste em enquadrá-los dentro do que é considerado “normal” –  feminino ou masculino. Ou seja, estamos falando da rejeição do próprio sexo biológico, um preconceito que nasce no seio da ciência!

Foi uma lésbica norte-americana, Anne Fausto-Sterling, quem primeiro apontou o dedo na cara dos cientistas para mostrar o quanto a medicina não está imune a nossas construções sociais (e preconceitos) sobre gênero. No polêmico e celebrado artigo “Os cinco sexos”, de 1993, ela usou o caso das pessoas intersexo para questionar: se essas pessoas são saudáveis, porque cientistas e médicos sentem a necessidade de adequar seus corpos a padrões entendidos como normais?

“Não acho que podemos dizer que a intersexualidade é um distúrbio, é apenas uma variação biológica”, afirma Fausto-Sterling.

“Essa visão é problemática porque nos faz questionar uma série de outras características sexuais. Por exemplo, existe um tamanho ‘normal’ de seios e outros tamanhos não-naturais? Quem decide se pessoas que não têm nenhum seio ou seios enormes sofrem de alguma síndrome? Há muitas variáveis para as características sexuais dos indivíduos. E a ideia de distúrbio não nos ajuda muito.” (leia entrevista completa com ela aqui)

Mais de uma década se passou desde a publicação do artigo de Fausto Sterling e sua visão continua perfeitamente atual. Mais: a maioria dos países continua operando crianças ao nascer com critérios tão arbitrários quanto “é mais fácil cortar um pênis do que alargar um clítoris”. Infelizmente, o Brasil está entre os maus exemplos.

Apesar da Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmar que a cirurgia de “adequação” ao nascer tem implicações éticas e não está comprovado que traga nenhum tipo de ganho psicológico e sexual ao indivíduo que passa por ela, o Ministério da Saúde brasileiro continua tratando a intersexualidade como uma “malformação congênita” e permite que pais e médicos decidam o sexo da criança e o “adequem” por vias hormonais e cirúrgicas ainda bebê.

“Os métodos de tratamento dessa malformação congênita ofertados pelo SUS são definidos após avaliação clínica e consulta aos pais ou responsáveis pelo paciente. Os procedimentos são realizados em hospitais gerais, de média e alta complexidade. As cirurgias de adequação sexual são realizadas em pacientes entre zero e 18 anos, mediante acompanhamento de equipe médica multidisciplinar, além de psicólog@ ou psiquiatra. Entre os procedimentos disponíveis estão tratamentos de malformações congênitas dos órgãos genitais, além de construção e reconstrução de vaginas. Desde 2010, 75 cirurgias foram realizadas pelo SUS para adequação sexual, ao custo de R$ 42,1 mil”, informou o Ministério à Revista AzMina, em nota.

Ana Karina Canguçu-Campinho, psicóloga e doutora em saúde pública, que atende no Centro de Referência no Atendimento a Pessoas Intersexo do Hospital Universitário Professor Edgar Santos, presencia diariamente o resultado dessa política de governo. Na ansiedade da indefinição, mal informados e temerosos do preconceito que está por vir, a maioria dos pais opta pela saída fácil, como a mãe de Haru. “As famílias vêm com angústia, querem uma posição: menino ou menina. Acontecem casos em que os médicos até acham que deveria aguardar a criança ser grandinha o bastante para decidir, mas o mais comum é que a família decida rapidamente”, relata Campinho.

Nem sempre a decisão tomada pelo impulso da ansiedade é correta e a pessoa fica, pelo resto da vida, presa num sexo que não é o dela.

E, mesmo quando a escolha dos pais e médicos coincide com o sexo expresso na criança, como foi o caso da funcionária pública Juliana*, 28, foi difícil para ela compreender por que o corpo dela não se desenvolveu como o das demais. “Eu me sentia estranha, como se não pertencesse a este mundo, não conseguia me identificar em nenhum grupo (meninas ou meninos)”, segreda ela. “Essa sensação só melhorou com o passar do tempo e quando tomei consciência de quem eu sou!”

Nem homem, nem mulher

A questão fica ainda mais complexa, quando encaramos que além da adequação biológica, as pessoas intersexo muitas vezes são forçadas a adequações de gênero, sem nenhuma identificação. Assim como seus corpos fora do padrão masculino/feminino são funcionais e naturais, muitos acreditam que não precisam se enquadrar nas expressões de gênero masculinas e femininas.

É o caso de Haru que, quando olha no espelho, imagina que, se não fosse a interferência dos hormônios, seu corpo seria mais andrógino, como ele. “Eu preferiria não ter passado por nenhuma intervenção, seja hormonal ou cirúrgica. Acho que cirurgia só é válida se a criança corre risco de vida”, defende. 

Hoje ele dedica sua vida a lutar para que outros bebês tenham a chance que ele não teve de esperar que o corpo decida por si como se desenvolverá. “Hoje eu tenho um olhar totalmente diferente sobre o que é ser intersexo. É mais do que ter nascido com uma diferenciação na genitália ou nos cromossomos, é uma identidade”, afirma. “É difícil não ter amparo médico, ser tratado como anomalia, as pessoas não fazerem ideia de que você existe e de que você é normal como você é.” 

A própria OMS reconhece, hoje, que a crença de que só existem dois sexos biológicos é incorreta e que estudos recentes trazem dúvidas suficientes sobre a necessidade de se adequar o corpo de recém-nascidos ou crianças pequenas, a não ser em casos raros em que há má-formação do canal urinário, por exemplo. E que alterar o corpo de bebês pode levar a erros graves.

Na Alemanha, a possibilidade de registro como um terceiro sexo foi a alternativa encontrada para que crianças não tenham que se sujeitar a uma identidade ou a uma criação como menina ou menino. Para certidões de nascimento criou-se, em 2013, uma categoria para o terceiro sexo, indefinido. O país foi o primeiro da Europa a oficializar a intersexualidade na lei. O Brasil ainda nem sequer discute o tema na arena pública.

A própria Campinho reconhece não estar equipada – nem a maioria dos profissionais com que trabalha – para tratar a questão sob este viés. “O que eu percebo é que a gente está muito longe disso aqui no Brasil. As pessoas intersexo querem achar um lugar no mundo, mas ainda não vi ninguém que se coloca como uma terceira possibilidade”, relata. “Essa questão do terceiro sexo, eu ainda não consigo formular muito bem.” O filme Argentino XXY, de 2007, aborda com muita delicadeza essa questão.

Um mundo sem lugar para eles

Mas aceitar a diferença não significa que pessoas intersexo não devam passar por um acompanhamento médico e psicológico constante. Isso porque elas estão inseridas em um mundo cheio de preconceitos e expectativas sobre como elas devem agir e se parecer de acordo com o sexo determinado em sua certidão de nascimento. A mentalidade social brasileira ainda não alcançou as últimas descobertas da ciência e não consegue comportar a intersexualidade.

“Se não existe o atendimento desde a infância, acontecem casos assim: chegam no ambulatório meninas adolescentes que têm muitos pêlos, clítoris virilizados (maiores que a média). Chegam muito sofridas porque não têm como separar-se do ambiente em que vivem e das expectativas das pessoas”, conta Campinho. “Elas vivem muito preconceito, trazem muita narrativa de sofrimento, de ter vergonha de tomar banho de biquíni. São meninas do interior, que tinham medo de se expor, chamadas de ‘macho-fêmea’ e cujos corpos as pessoas queriam ver com curiosidade.”

O funcionário público paulista Jean Rodrigues da Silva, 53, experimentou o peso desse preconceito. Nascido com uma condição quase oposta à de Minako, ele tem uma genética feminina, mas uma expressão sexual masculina. Enquanto todos à sua volta, de seus pais à diretoria da escola, o tratavam como mulher, porque estava registrado assim, ele se entendia como homem. Desde criança, tinha vergonha de ir ao banheiro da escola, pois apesar da aparência masculina, não tinha um pênis igual aos dos outros garotos, o que o deixava deslocado no banheiro dos homens e no das mulheres. A angústia foi tanta que largou os estudos. Os pais, que nunca falaram sobre o assunto com ele, não quiseram gastar dinheiro com médicos ou cirurgia e o pai chegou a rejeitá-lo. E morreu sem que os dois fizessem as pazes ou ele sequer compreendesse a condição do filho. Só aos 33 anos, após um acidente, os médicos descobriram que ele era intersexo.

Exame genético de Jean, cujo corpo é masculinizado. A intersexualidade dele se dá pelo meio como os hormônios se expressam em seu corpo.

E mesmo depois da descoberta, Jean sofreu muito para conseguir que o mundo o reconhecesse como o homem que é. Mudar seus documentos foi muito difícil e algo essencial para ele.  “As dificuldades nos acompanham em todos os lugares: na medicina, nos ambientes públicos. Às vezes eu ia pagar uma conta e ouvia ‘ah! Mas esse cartão não é seu. Essa identidade pode ser roubada'”, desabafa.

“Hoje meu documento é masculino, mas eu não sou um homem completo, eu não fiz a cirurgia. Eu acho que devia ter um terceiro sexo até mesmo pra registrar uma criança. Para que elas não vivam o transtorno de quase sete anos que eu tive pra conseguir retificar meu nome.”

Em busca de uma identidade

Por um ano de sua vida, o estudante baiano Ernesto Denardi, 20, não foi cidadão de lugar nenhum. Os médicos não conseguiam enquadrá-lo como homem ou mulher – como incorporar nessa lógica binária um corpo com genes masculinos e pênis, mas sem testículos e com trompas? –  e a lei brasileira não permitia que ele fosse registrado sem essa decisão. Foi quando optaram por arrancar-lhe os resquícios de útero e começar um tratamento hormonal com testosterona. Seria menino.

“A questão ‘ser intersexo’ influenciou todos os aspectos da minha vida”, desabafa. “Imagine-se no lugar de um pré-adolescente que, apesar de ter sido criado como um garoto, sabe que ele não nasceu como tal e não se identifica como tal. Por outro lado, também não se identifica como garota. Hoje tenho uma compreensão maior à respeito de gênero e sexualidade, mas, na época, isso me causou uma confusão muito grande. E para piorar, além da incerteza sobre meu sexo, comecei a me relacionar com garotos e garotas…”

Na igreja evangélica em que frequentava, foi induzido a jejuar, orar e participar de campanhas para que “Deus o livrasse do demônio da homossexualidade”.

O preconceito e a ignorância dos membros de sua religião o levaram a brigar com Deus e isolar-se. Autodecretou-se um amaldiçoado.

A cura veio do amor. Abriu sua condição a alguns amigos, que o aceitaram e o apoiaram. Um desses amigos ficou mais próximo e o aceitou mais de perto. “Com ele, me senti seguro para me entregar de corpo e alma. Com ele aprendi que não há vergonha em ser eu mesmo. O problema está no julgamento e preconceitos dos outros.”

Com o amigo Haru, Ernesto decidiu trilhar um caminho longo e duro, o da militância, o de serem os primeiros a “sair do armário” e enfrentar o mundo. Como ainda não existe um movimento intersexo organizado no Brasil, começaram abrindo a página Visibilidade Intersexo no final do ano passado. Todas as pessoas são convidadas a debater o tema ali em clima de respeito.

“Existem mais de 40 tipos de intersexos. Isso significa que existem muitas pessoas que sequer imaginam que são intersexo”, alerta Haru. “Preciso divulgar informações para que essas pessoas se encontrem e não se sintam excluídas, como eu me senti. Com essas informações, algum pai com criança intersexo pode se sentir amparado. Às vezes, tudo o que você precisa é de uma esperança.”