De Paris, na França

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A costarriquenha Christiana Figueres foi a principal mulher a costurar o acordo – Wikimedia Commons

O dia 12 de dezembro de 2015 ficará na história como o dia em até finalmente o mundo celebrou um acordo para enfrentar as mudanças climáticas. O tratado celebrado na COP21, a conferência de clima das Nações Unidas em Paris, era esperado havia 20 anos. Mesmo que não seja o melhor texto possível, de acordo com as organizações que acompanharam todo o processo, agora há um plano de ação que pode ser “o começo do fim da era dos combustíveis fósseis”, principais causadores das mudanças climáticas.

O acordo que ficará na história é ainda mais especial para as mulheres de todo o mundo: além de ter sido conduzido com a participação de diversas líderes do sexo feminino, as mulheres estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos das mudanças do clima. E isso foi reconhecido no texto adotado pelos governos do mundo inteiro.

Isso significa que os recursos aplicado pelos países ricos em ações para reduzir emissões de gases de efeito estufa e para ações de adaptação aos efeitos já irreversíveis deverão ser investidos considerando igualdade de gênero.

É uma vitória, por exemplo, para as mulheres das pequenas ilhas do Oceano Pacífico e vilas africanas, responsáveis por prover água potável para suas família, às vezes depois de caminhar quilômetros. Também é uma vitória para as mulheres que lidam com as perdas de safras de suas pequenas plantações familiares que garantem o sustento de suas famílias. Vitória também para as responsáveis pelas decisões de consumo nas famílias dos países mais desenvolvidos. Todas nós ganhamos.

De acordo com as Nações Unidas, mais de 606 mil pessoas morreram por acidentes meteorológicos desde 1995 — ano em que ocorreu a primeira conferência da ONU sobre clima. As consequências de grandes tempestades, secas severas e mudanças no regime de chuvas são sentidas com mais intensidade em regiões pobres. E, segundo a ONU, 70% dos
pobres do mundo são mulheres.

“Mas as mulheres não podem ser vistas como meras vítimas das mudanças climáticas”, disse a ministra francesa do Meio Ambiente, Sègolene Royal. “Devem ser vistas como agentes com papel de ação.”

Tomada de decisões

Nas negociações diplomáticas para o acordo, dominada pelos homens, líderes femininas tiveram grande importância. A começar pela secretária-executiva da UNFCCC (Convenção-Quadro nas Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), Christiana Figueres, essencial na construção do caminho até Paris. “Por muito tempo eu disse que nós deveríamos fazer isto [fechar um acordo]. Depois passei a dizer que nós podíamos fazer. Hoje eu digo: nós fizemos”, disse emocionada em seu discurso final na conferência.

A tomada de decisões estava desequilibrada. Entre as delegações oficiais dos países, havia mais de 12 mil homens registrados, e apenas 5,9 mil mulheres. Ou seja, as mulheres eram menos de um terço entre os negociadores. Também eram minoria (43%) entre os quase 8 mil observadores das negociações — os membros da sociedade civil que podiam acompanhar as reuniões.

“Estou aqui literalmente assistindo ao processo. Não sou ouvida”, disse Helen Hakena, da Agência de Desenvolvimento das Mulheres Leitana Nehan, Papua Nova Guiné. “E tudo sobre clima é, na verdade, sobre mulheres.”

Mas foram as líderes femininas, junto às suas delegações, que se destacaram. Uma delas foi a ministra Izabella Teixeira, do Brasil, que liderou um dos grupos responsáveis por destravar as negociações a respeito de diferenciação das responsabilidades de cada país no novo acordo. “O Brasil sai plenamente satisfeito com o acordo e eu fui cumprimentada por todas as delegações pelo nosso papel aqui”, declarou a ministra.

Igualmente importantes foram a ministra e a embaixadora sul-africanas, Edna Molewa e Nozipho Diseko, lideranças no G77, o grupo dos países em desenvolvimento.

Porém, o acordo de Paris é só o começo. Os desafios serão ainda maiores na sua implementação. “É preciso garantir que as mulheres participem da tomada de decisões sobre recursos e medidas a partir de agora”, disse a ativista norte-americana Claire Greensfelder, da WEDO (Organização de Mulheres pelo Meio Ambiente e Desenvolvimento) e da Chamada Global das Mulheres por Justiça Climática.