Quem viu Joanna Maranhão se tornar a quinta mulher mais rápida do mundo nos 400 metros medley nos Jogos Olímpicos de 2004, com apenas 17 anos, não imaginava que ela carregava um trauma que poderia até mesmo ter acabado com sua vida por duas vezes.

Aos 29 anos de idade — 25 deles nas piscinas —, a atleta já disputou quatro Olimpíadas. Mas, para conseguir isso, até hoje ela trava uma luta diária consigo mesma. Diagnosticada com depressão, Joanna luta contra a doença há anos. O trauma vem de muito tempo: aos 9, quando ainda estava começando a trajetória no esporte, um técnico abusou sexualmente dela.

Por anos, Joanna não conseguiu contar a ninguém o que havia sofrido e deu um jeito de “fugir” do treinador para se livrar do abuso. Mais tarde, quando se viu capaz de lidar com a situação, conseguiu quebrar o silêncio — e isso mudou completamente sua vida.

“Eu me calei em relação ao meu abuso por muitos anos. Depois que eu verbalizei, que eu consegui vomitar isso, eu não me calo pra mais nada. Se tem uma coisa que me incomoda, eu vou falar”, disse às dibradoras.

“Depois que eu não queria de jeito nenhum falar o que o cara tinha feito comigo, o terapeuta falou: você vai ter que falar. Eu comecei a tirar pesos e pesos de mim e comecei a ver como o mundo é muito louco e eu estava deixando que o mundo me consumisse. Eu percebi que verbalizar sobre tudo aquilo que eu penso me faz bem.”

Trauma

Joanna começou a nadar aos quatro anos e, aos nove, passou pela experiência mais terrível da sua vida. Treinando em um clube de Recife, ela foi abusada pelo seu técnico em uma situação que não soube, na hora, identificar, mas que a deixou marcada para sempre.

“Quando aconteceu, ele fez o que fez, abusou, eu falei: isso é uma coisa muito estranha, eu sei que é errado, mas eu não tenho ideia do que é. E eu não quero mais que ele faça isso comigo. Então na minha cabeça de 9 anos de idade eu pensei: vou mudar de clube, de escola, vou mudar completamente a minha vida e, tudo bem, eu não vou mais ter contato com ele”, afirmou.

“Segundo a minha mãe, eu tentei falar com ela. Ela disse que eu cheguei e falei: mãe, eu acho que ele tentou me dar um beijo. E ela disse que eu tava confundindo, que ele me tinha como filha, que deveria ser um carinho. Aí pensei: bom, é melhor eu pensar que foi isso. Por mais que no fundo eu soubesse que não era. Mas era muito doloroso mergulhar ali. Era uma água muito podre.”

O trauma da infância refletiu na mulher que Joanna se tornaria a partir dali. Na adolescência, ela quis se fingir de menino para fugir dos perigos de “ser mulher”.

“Com o tempo, eu fui me tornando uma pessoa desequilibrada mesmo. O primeiro beijo foi horrível, a primeira relação foi horrível também, eu não conseguia confiar em ninguém. Aí com 15 anos, quando meus pais se separaram, eu comecei a odiar todos os homens”, contou.

“Um pouco antes disso, quando meus seios começaram a crescer, eu pensei: se eu for vista como mulher, isso é um perigo. Então tirei brinco, cortei o cabelo tipo joãozinho e só usava roupa folgada, porque, quando olhavam pra mim, perguntavam: é uma menina ou um menino? Eu suspirava! Que alívio! Porque, se estão pensando ainda o que eu sou, me dá tempo de fugir.”

Suicídio

O processo de enfrentamento daquele trauma não foi menos doloroso. Ele veio já quando Joanna havia passado por sua primeira Olimpíada — quando conseguiu o melhor resultado da história da natação feminina brasileira ao alcançar o quinto lugar nos 400m medley — e durou pelo menos três anos.

“Só que chegou um momento da minha vida em que eu falei: vou enfrentar o que eu estou me tornando, porque eu estava ficando completamente louca. Não estava gostando de quem eu estava me tornando. Ou é melhor morrer. Só que, nesse enfrentamento, a morte parecia uma boa saída”, disse Joanna.

“Não consigo descrever o quanto era ruim sentar naquela sala com o psicólogo e descrever o que o cara estava fazendo comigo. Porque era eu voltar para lá, com 9 anos de idade, mas com consciência.”

“Comecei a lembrar de outros casos, outras coisas que ele fazia comigo. Eu lembro que eu falei com ele (psicólogo): ah, ele tremia em cima de mim. Depois eu pensei: não, ele não tava tremendo, ele tava ejaculando em cima de mim. Depois de muito tempo me liguei que aquilo era um tremor pra mim, mas não, era o cara gozando em cima de mim. Então era muito louco. E aquilo foi me dando um ódio, ódio de eu ter me calado, da pessoa que eu tornei, dele, de eu ter que nadar, porque eu tinha contrato, patrocínio, e eu não queria ir treinar.”

Diante de toda essa dor, Joanna chegou a tentar suicídio duas vezes — uma em 2006 e outra em 2013. Sem saber o que fazer, sem vontade de enfrentar a piscina e as lembranças que ela trazia, a nadadora quase se entregou.

“Eu caía na água e pensava: o que que eu estou fazendo aqui? E minha mãe falava: mas, se você vai parar de nadar, você vai fazer o quê? Você não tem faculdade, não tem nada. E eu falava: minha vida não tem saída. Mas eu não tinha coragem de tirar minha vida. Minhas tentativas eram de pegar tudo quanto é remédio e colocar pra dentro. Só que, logo depois, eu falava: olha a merda que eu tô fazendo. E aí vomitava, fazia lavagem etc”, conta.

Quando Joanna conseguiu se recuperar e começar o processo de superação do trauma, veio outro baque: ela acabou falando sobre o abuso em uma entrevista, seu técnico decidiu processá-la e, de repente, ela se viu ré em um caso em que sempre foi vítima.

“Quando uma mulher verbaliza uma coisa dessas, que é algo tão difícil de falar, que um cara enfiou a mão no seu maiô, aí as pessoas dizem: não, ela tá mentindo, ela tá fazendo isso pra ganhar mídia. Quem é o ser humano que vai querer mídia por esse assunto?”, questiona.

Lei

Mas, alguns anos depois, o caso de Joanna deixou um marco na legislação brasileira que trata de crimes de abuso sexual, estupro e atentado violento ao pudor. Em 2012, foi aprovada a lei “Joanna Maranhão”, que muda as regras para estes casos.

A contagem do tempo para o crime prescrever passou a valer somente a partir do momento em que a vítima faz 18 anos, e não quando o crime foi cometido.

“Aí, quando existiu o projeto de lei, eu pensei: as coisas estão fazendo sentido. O processo todo foi doloroso, mas ali eu vi que tudo começou a fazer sentido”.

Hoje, Joanna atua na luta contra a pedofilia por meio de sua ONG Infância Livre, criada em 2014 para auxiliar crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Lá, são oferecidas aulas de educação sexual para crianças e também para profissionais que trabalham com elas.

Símbolo do esporte

Após vencer o trauma do abuso, Joanna se tornou mais forte para enfrentar outras coisas que a incomodavam. Foi assim que ela assumiu um papel importante na natação, para além das piscinas. Mulher de forte posicionamento político, ela passou a atuar fortemente contra a gestão que comanda os esportes aquáticos no Brasil há décadas e que é acusada de desvios, superfaturamentos e corrupção.

Sem medo de retaliações, Joanna sempre falou o que pensava e nunca “disfarçou” suas críticas a Coracy Nunes, hoje presidente afastado da CBDA (Confederação Brasileira de Esportes Aquáticos) justamente pelos problemas com a Justiça. Mais recentemente, quando uma nova eleição estava prestes a acontecer e a chancelar mais quatro anos de comando a ele — que está no posto desde 1988 — Joanna uniu outros atletas para adiar o pleito na Justiça. Em uma manobra, Coracy tentou determinar ele próprio como representante da comissão de atletas e com direito a voto na eleição. A pressão deu certo e, agora, a diretoria comandada por Coracy Nunes na confederação foi afastada do cargo pela Justiça.

“Eu não consigo compactuar com corrupção, com as coisas feitas de maneira errada. Eu acho que, quando você não toma uma posição diante de algo, na verdade, está tomando a posição de não fazer nada. E eu não consigo me calar.”

Por conta desses posicionamentos fortes, Joanna sofre constantemente ataques na internet. Nas redes sociais, ela assume suas opiniões de esquerda na política e sofre as consequências disso até mesmo no trabalho.

“É óbvio que, financeiramente, pra mim é péssimo. Hoje, eu ganho muito menos como atleta. Se eu fosse dona de uma empresa, eu não investiria em Joanna. Eu ia investir naquele atleta de foco, força, fé, que eu acho um saco, mas é o que vende.”

No fim do ano passado, Joanna se viu desempregada quando o Esporte Clube Pinheiros, onde treinava, a demitiu alegando que ela estava “velha demais”. Mas, segundo ela, o motivo real para a demissão, que ela descobriu depois, estava em seus posicionamentos políticos, que “não compactuavam com a visão do clube”.

Durante a Olimpíada do Rio, a nadadora chegou a sofrer um ataque orquestrado nas redes sociais, quando comentários ofensivos e violentos inundaram sua timeline. Ela não teve dúvidas: deu print em todos e fez a denúncia.

“As pessoas têm que entender que a gente não vai mais calar a boca. Eu não vou para a cozinha. Eu vou se eu quiser ir. E é isso, não importa o que elas pensem.”