ILUSTRAÇÃO: Marcella Tamayo

ILUSTRAÇÃO: Marcella Tamayo

A pesquisa Mulheres e Trabalho, divulgada hoje pelo Ministério do Planejamento e realizada pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), mostrou que, apesar do aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho, as tarefas domésticas ainda ficam nas mãos femininas. Enquanto apenas 51% dos homens assumem esses trabalhos, a taxa fica em 90% quando se trata das mulheres. E elas ainda dedicam uma média de 25,3 horas semanais à faxina, enquanto entre eles a média é de apenas 10.

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Esses dados são preocupantes, uma vez que a divisão desigual dos trabalhos domésticos é um dos maiores entraves à equidade de gênero. E o que o relatório mostra é que nos últimos 10 anos, praticamente não ocorreram mudanças nesse sentido. Enquanto as mulheres reduziram em cerca de duas horas o tempo que dedicam a cuidar da casa, essa queda não pode ser creditada a um aumento da colaboração masculina, que se manteve inalterada.

O relatório não apresenta dados relativos à desigualdade racial na execução das tarefas domésticas, mas mostra que quanto maior a renda da mulher, menos tempo ela dedica ao lar se comparada com mulheres de renda inferior: aquelas ganham até um salário mínimo gastam quase 25 horas semanais, enquanto as que ganham mais de oito gastam apenas 14. Ou seja: a libertação de algumas mulheres se dá às custas da exploração de outras.

Outra comparação interessante do relatório mostra que mesmo homens inativos (que não estão trabalhando) dedicam apenas metade do tempo das mulheres ativas no mercado de trabalho aos cuidados do lar: 21,7 horas para elas contra apenas 13,7 para eles.

Ou seja, “tempo livre” não é a justificativa para a decisão sobre quem vai cuidar da casa.

E esses números ficam ainda mais surpreendentes quando se olha os dados relativos a quem paga as contas em casa.  Quando é o homem quem assume esse papel, ele se responsabiliza por 11,5 horas semanais de tarefas domésticas. Mas quando é a mulher que tem o maior rendimento, essa proporção não diminui, a divisão dos trabalhos fica assim: 25,3 horas semanais para ela e apenas 10,1 para ele.

Mas onde começou essa merda toda?

Apesar de muito machista por aí tentar convencer as mulheres de que essa não passa de uma divisão natural do trabalho, inspirada unicamente nas capacidades dos homens e das mulheres, a História prova que nada disso é verdade. Em muitas sociedades ao redor do mundo, mulheres que assumiram trabalhos fisicamente pesados de agricultura ou, mesmo fazendo tarefas domésticas, como costurar e fiar, tinham seu trabalho altamente valorizado.

Até o século 19, por exemplo, as mulheres do povo indígena Seneca, dos EUA, podiam decidir que guerras os homens lutariam ou não, já que elas controlavam a produção da comida que os alimentaria no campo de batalha. Na América Latina pré-colombina, mulheres eram comerciantes. Na Nigéria, os Igbo tinham mulheres tão poderosas e com tanto controle sobre os recursos da casa que ficaram historicamente conhecidas como “maridas”. Até hoje, no Bali, mulheres e homens dividem igualmente o cuidado das crianças e, na Nova Guiné, homens e mulheres partilham os negócios e são igualmente agressivos.

A ideia de que as tarefas domésticas pertencem apenas às mulheres e que elas têm um valor menor para a sociedade e para quem as realiza é uma exportação do Ocidente para as demais sociedades através do colonialismo e do neocolonialismo. As mulheres podem culpar os gregos por isso. Foram eles que dividiram a vida entre polis, a arena pública e valiosa que pertencia aos homens, e oikos, a esfera privada e caseira e que pertencia às mulheres. No livro “No turning back: the history of feminism and the future of women” (Sem volta: História do Feminismo e o Futuro das Mulheres), a historiadora Estelle B. Freeman lembra que filósofos como Aristóteles e Platão trabalharam duro para fincar essa ideia na cabeça das pessoas.

“A coragem do homem está em comandar, a da mulher, em obedecer”, eternizou Aristóteles no clássico “Política”.

O ideário grego sobre a divisão do trabalho se espalhou como um vírus poderoso pela Europa e, dali, na época das grandes navegações e depois, durante o neocolonialismo, para o restante do mundo, que teve suas culturas – e suas mulheres – subjugadas. Até as deusas foram caindo em desprestígio e cedendo à dominação masculina e ao deus patriarcal. A eles, dava-se o mundo para ser conquistado. Às mulheres, restava a invisibilidade do lar.

Doutrinação que vem da infância

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A verdade é que a divisão sexual do trabalho nos parece tão natural porque somos doutrinad@s nela desde muito jovens. Para quem duvida disso, a ONG Plan International realizou um estudo definitivo: o “Por Ser Menina no Brasil”. Cerca de 1/3 das 1.771 meninas entre 6 e 14 anos entrevistadas, ou 31,7%, avalia que o tempo para brincar é insuficiente. Isso acontece porque cerca de 82% delas têm algum tipo de responsabilidade nas tarefas domésticas. Enquanto 81,4% das meninas arrumam sua própria cama, por exemplo, 76,8% lavam louça e 65,6% limpam a casa, apenas 11,6% dos seus irmãos homens arrumam a própria cama, 12,5% lavam a louça e 11,4% limpam a casa. Elas também assumem mais tarefas de risco para crianças, como cozinhar. Entre as meninas 41% o fazem, entre os meninos, 11,4%.

“Não há nenhum problema em fazer trabalhos domésticos. Aliás, nós somos a única espécie que precisa de tantos cuidados. O problema é que isso se torna um fardo para as mulheres e meninas”, lembra Viviana Santiago, especialista em gênero da Plan International. “Educamos as crianças para naturalizar o trabalho doméstico feminino. As famílias pensam que faz parte do ser mulher lavar, passar, cozinhar e limpar. Isso é muito problemático não só porque diferenciamos meninas e meninos, mas porque hierarquizamos as tarefas que eles executam. Dizemos claramente que a vida delas têm menos importância porque elas estão ali para servir aos meninos.”

“Isso é chave no processo de construção da subjetividade deles também, porque acham que mulheres existem para satisfazê-los.”

Entre os danos psicológicos que essa criação pode proporcionar, Viviana destaca o papel do cuidado com irmãos menores. Como entende que sua função é cuidar e não ser cuidada, como seria o natural da infância, as meninas se sentem desprotegidas e essa insegurança se torna estrutural em sua personalidade. “Colocamos na cabeça de nossas meninas que a prioridade da vida delas é o trabalho doméstico, o que as faz desprezar as demais esferas da vida quando crescem e não almejarem realização profissional, política ou financeira”, complementa a especialista.

Mundos possíveis

As paulistanas Bárbara e Nathália Kodato cresceram em um pequeno mundo em que nada disso existia. Na casa delas, mulheres e homens eram iguais e tarefas domésticas eram de todos. A mãe, Elza, uma japonesa arretada, ia muito bem trabalhando fora. Já o pai, Luiz Veloso, gostava de ter uma rotina mais flexível, de trabalho artístico, em casa. Ele levava e buscava as filhas na escola, ia às reuniões, festinhas, etc. Também lavava roupa e louça e cozinhava. Elza chegava em casa e, com frequência, encontrava o jantar pronto. Esse foi o esquema dos dois até as filhas crescerem. Luiz só voltou a trabalhar fora há dois anos.

“No começo ele não sabia fazer as coisas, na verdade. Mas foi olhando e aprendeu. Quando não entendia algo, ligava e perguntava. Foi deixando o arroz e o feijão prontos, depois a carne. Hoje ele se vira na cozinha, inventa até pratos diferentes”, conta Elza. “Se ele não tivesse assumido essa parte, eu não conseguiria administrar tudo sozinha. E nossas filhas cresceram desse jeito, entendendo que o pai tinha mais disponibilidade que eu, porque eu trabalhava fora.”

Hoje, Luiz, que tem 61 anos, tem a oportunidade de ensinar Guilherme, o neto de 8, que fazer tarefas de casa fazem dele um homem melhor. “Eu não acho que cuidar da casa seja um demérito, pelo contrário! E não existe essa de coisa de mulher e coisa de homem, a família é de todos, logo, as tarefas são de todos!”, opina Luiz.

“Para mim, aprender foi algo completamente normal e todos os homens podem fazer o mesmo: qualquer ser humano se adequa a qualquer situação, basta querer.”

Bárbara, mãe de Guilherme, acredita que hoje, pode quebrar um padrão que, na maioria das famílias, é passado de geração em geração. “Meu pai nos ensinou a cozinhar desde cedo e nos dizia que éramos uma família e precisávamos ajudar um ao outro. Esse foi um conceito que carregamos com a gente, sabe?”, explica ela.

A solução é brigar com os maridos?

Para mudar a situação, devemos sentar e dialogar, como Elza, ou brigar com o marido? A verdade é que não há uma resposta geral para todos. As mulheres da Islândia, por exemplo, optaram pela segunda alternativa e obtiveram sucesso. Em 24 de Outubro de 1975, milhares de islandesas foram às ruas para protestar contra o baixo reconhecimento dado ao trabalho feminino e entrarem em greve. Como resultado, muitos homens tiveram de levar os filhos pequenos ao trabalho e se virar na cozinha. Assim, elas chamaram atenção para a importância da mulher na sociedade e ganharam poder de barganha para exigir melhoras nas leis trabalhistas e políticas públicas.

Já Flávia Birolli, cientista política da UnB (Universidade de Brasília) acha que a resposta está em uma terceira via. Para ela, nós devemos superar a ideia de que o trabalho doméstico é uma questão privada e transformá-la em um problema social. “Precisamos criar um modelo que não comece e termine na esfera privada. Os países que têm melhores números em equidade são aqueles em que o Estado provê bons serviços públicos de cuidado das crianças, licenças conjugadas e outras soluções que permitem que, com cuidado coletivo, as mulheres não fiquem restritas à esfera doméstica.”

A pesquisa da historiadora americana Wendy Goldman a leva às mesmas conclusões. Ela se inspira no modelo criado pelos bolcheviques, na antiga União Soviética, e acredita que ele pode ser adaptado à realidade atual. “Os bolcheviques transferiam quase todo o trabalho doméstico para fora de casa. Havia empresas de lavagem de roupa, restaurantes públicos a preços acessíveis, creches em período integral – todos com funcionários bem remunerados”, explica. “Não acho que homens e mulheres devam passar o dia brigando pela louça, nós temos que aprender a entender que tudo isso faz parte da sociedade como coletivo.”

As especialistas concluem, em uníssono, que mudança cultural e trabalho de Estado são necessários, e ninguém pode se isentar dessa tarefa. E homens, em vez de lavar as mãos, que tal lavar a louça? Porque essa revolução vai começar com esponja e sabão!