Esposo e filha de Rosilene visitam Bento Rodrigues (Elisa Estronioli/MAB)

O  saguão do Hotel Providência, no centro histórico de Mariana (MG), está sempre movimentado. O local é um dos tantos da cidade a hospedar, há quase um mês, os desabrigados devido ao rompimento da barragem da Samarco (pertencente às transnacionais Vale e BHP-Billiton). São cerca de 300 famílias, sem contar as que foram para casas de parentes. Além desses hóspedes, jornalistas, fotógrafos, pesquisadores, assistentes sociais, funcionários da empresa e da prefeitura e tantos outros circulam o tempo todo por ali, para desespero da recepcionista, que tenta colocar ordem na bagunça.

– Essa é a última entrevista que eu dou – avisa Rosilene da Silva, enquanto vamos para o quarto onde está alojada sua família, nos fundos do hotel, depois das quadras de futsal e vôlei. Os atingidos, em geral, ficam divididos entre o desejo de que não se apague a memória daquele trágico 5 de novembro e o esgotamento com a superexposição do último mês.

Embora no hotel não precisem fazer nenhum trabalho doméstico, a falta de privacidade incomoda. No alojamento onde Rosilene está, por exemplo, 12 camas de solteiro dividem o espaço. A mudança das famílias dos hotéis para casas alugadas pela Samarco é lenta. A primeira meta da empresa era transferir 25 famílias por semana, o que significaria que as últimas viveriam em hotéis até o carnaval. Pressionada pelos atingidos, a empresa dobrou a meta e agora promete mudar 50 famílias por semana.

– Demorei, mas cheguei – avisa a tão aguardada funcionária da Samarco, de prancheta na mão.

Os integrantes da família agraciada com a mudança naquela segunda-feira (30 de novembro) iam e voltavam várias vezes carregando seus pertences do quarto de hotel até o transporte. Não carregavam uma mala sequer, somente sacolas pretas com materiais de higiene, algumas roupas e caixas de alimentos, tudo fruto de doações. Subiam no micro-ônibus da Manserv, uma das terceirizadas da Samarco, e partiam para a nova residência provisória. Por quanto tempo viverão lá ainda é um mistério.

Célis e seu sobrinho em Bento Rodrigues (Elisa Estronioli/MAB)

Célis e seu sobrinho em Bento Rodrigues (Elisa Estronioli/MAB)

A espera

– Para a gente que está acostumada com sala, cozinha, tudo separado, isso aqui está difícil – comenta Maria Imaculada da Silva, 58 anos, sentada na cama de um quarto no terceiro andar do hotel Águas Claras. O quarto com três camas de solteiro é dividido com sua filha e seu filho, já moços. Naquele espaço ela toma conta da pequena Emily, de dois anos, filha de sua vizinha. Antes da lama, quando morava em Paracatu de Baixo, ela já cuidava da menina, pois a mãe trabalha fora. Agora, no hotel, a rotina continua, mas a preocupação é maior: o quarto é no terceiro andar e seu medo é que a criança caia das escadas.

A Samarco entrega marmitas para os atingidos no almoço e na janta. Muitas são as queixas sobre a qualidade das refeições. Imaculada recusa-se a comer a comida fornecida pela empresa desde que passou mal e foi parar no hospital com dores no estômago. As três filhas que moram na cidade se revezam para levar comida para a mãe.

Ela já visitou uma casa para alugar, que não a agradou: os quartos eram pequenos e, mal começou a estação chuvosa, as paredes já tinham mofo. Em Paracatu de Baixo, sua casa continua em pé, mas a lama deixou um cheiro forte devido à quantidade de animais mortos. Com a notícia do risco de ruptura de outra barragem de rejeitos da Samarco, ela foi aconselhada a deixar o local.

– Eu vou esperar só mais uma semana para ir para uma casa, senão vou voltar lá pra roça.

Elisabete Messias, 37 anos, também está ansiosa, mas por outro motivo. Aguarda o nascimento de seu primeiro filho, previsto para o começo de dezembro. O Hotel Providência provavelmente será o primeiro lar da criança. Ex-moradora de Bento Rodrigues, o distrito mais atingido pela lama, ela não se queixa do tratamento do hotel, mas questiona a demora na mudança para as casas.

– Eles disseram que tinha prioridade para grávida, idoso, quem tem criança, mas aconteceu que as primeiras pessoas que saíram daqui eram só casais sem filhos.

Alojamento dos atingidos no Hotel Providência (Elisa Estronioli/MAB)

Alojamento dos atingidos no Hotel Providência (Elisa Estronioli/MAB)

Trabalho

– Nome completo?

– Rosilene Gonçalves da Silva.

– Qual sua idade?

– Tenho 38 anos.

– Profissão?

– Agora eu sou “à toa”, né – Rosilene cai na gargalhada. – Não escreva isso aí não! Eu antes fazia de tudo um pouco: trabalhava no açougue meio período com meu irmão, olhava criança, fazia faxina para fora, mexia na casa, fazia crochê e bolo para vender, ajudava o Caé [apelido de seu esposo] na venda do mel, não ficava parada não, era o dia inteiro em pé.

Com quase um mês vivendo no Hotel Providência, a ex-moradora de Bento Rodrigues se preocupa. Como muitas mulheres atingidas, perdeu sua fonte de renda. Rosilene explica que mulheres que eram “somente donas de casa” eram exceção no Bento.

Algumas trabalhavam fora da comunidade, principalmente nas terceirizadas da Samarco. Outras faziam crochê ou faxina, algumas até pegavam lenha para vender ou iam para o rio garimpar ouro. Fontes de renda que se perderam com a lama.

Enquanto não reconstrói os distritos devastados pela lama, a Samarco terá que pagar uma verba mensal para cada família sobreviver. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que tem atuado na organização das famílias, propôs o valor de um salário mínimo por pessoa. A empresa contrapropôs um salário mínimo por família com acréscimo de 20% por dependente. Com a pressão dos atingidos, a proposta final deve ser fechada da seguinte forma: o “chefe de família” vai receber um cartão com R$ 1500 mais 30% por dependente.

– Sobre quem é o chefe de família, se o cartão vai ser no nome do homem ou da mulher, vamos ter que analisar caso a caso. Já recebemos pedidos para não entregar na mão do homem, por receio dele gastar com bebida – explica Stanislau Klein, representante da área social da Samarco, na terça-feira (1º de dezembro) em reunião com comissão de moradores das comunidades impactadas.

Como os ganhos das mulheres eram vistos, na maioria dos casos, como complementares à renda das famílias, a tendência nesse momento é a perda de uma conquista importante na vida delas: a autonomia financeira.

Maria Imaculada, sua filha Clarice e a pequena Emily no quarto do Hotel Águas Claras (Elisa Estronioli/MAB)

Maria Imaculada, sua filha Clarice e a pequena Emily no quarto do Hotel Águas Claras (Elisa Estronioli/MAB)

As mais atingidas

Já foram amplamente divulgados os estragos feitos pela lama da Samarco, neste que já é tido como o maior desastre ambiental da história do país.

Naquele dia 5 de novembro, às 16h, a barragem de Fundão estourou, despejando entre 55 e 65 milhões de metros cúbicos de resíduos, destruindo em poucos minutos Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, ambos distritos de Mariana. De madrugada, a onda de sujeira chegou à pacata cidade de Barra Longa, desabrigando mais de 130 famílias que, desorientadas pela empresa, acreditavam que a lama não chegaria até ali. Os resíduos desembocaram no Rio Doce, atravessaram as comportas da hidrelétrica da Candonga, e percorreram mais de 800 km, atingindo uma população de mais de um milhão de pessoas que vivem ao longo da bacia e dela dependem para abastecimento de água, pesca e agricultura. Após uma viagem de 17 dias, a lama chegou ao mar, em Linhares (ES).

Até agora, foram confirmadas 13 mortes e 11 pessoas continuam desaparecidas. Entre as desaparecidas está a sogra de Célis Felício, 32 anos, Maria das Graças Celestino da Silva. Até hoje ela e seu marido lutam para que a empresa e o poder público não abandonem as buscas. Ambas moravam em Bento Rodrigues, o primeiro povoado aonde a lama chegou.

Célis é auxiliar de serviços gerais na Manserv. No dia 5 de manhã, saiu para o trabalho, sem imaginar que não teria para onde voltar no fim do expediente. Estava na área da mineradora quando a barragem estourou e tentou avisar a família o mais rápido possível. Muitas vidas em Bento Rodrigues foram salvas dessa forma, com o aviso de familiares que trabalhavam na obra, já que a empresa não contava com plano de evacuação das comunidades em caso de rompimento das barragens.

No Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), dizemos que as mulheres são as mais atingidas no processo de construção de barragens. Relatos de norte a sul do país mostram problemas como perda dos trabalhos geradores de renda, desagregação da comunidade, aumento da prostituição e da violência e diversos outros impactos particularmente graves para as mulheres. A mesma constatação apareceu em 2010 em um relatório do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana [atual Conselho Nacional de Direitos Humanos] sobre violações de direitos na construção de barragens:

“As mulheres são atingidas de forma particularmente grave e encontram maiores obstáculos para recomposição de seus meios e modos de vida”, diz o documento.

Perguntei para todas as entrevistadas para essa matéria se elas acreditavam que eram os homens ou as mulheres atingidas que estavam sofrendo mais. Embora tenham sido afetadas de maneira distinta das mulheres atingidas pela construção das barragens, foram unânimes:

– As mulheres, claro. Ah, porque os homens vivem mais fora de casa e as mulheres que estão ali todo dia. Cada cantinho da casa a mulher conhece mais que o homem, dá mais amor até mesmo às criações, às plantasSe mudar alguma coisa de lugar a mulher vai saber, o homem não sabe disso. Não que o homem não sofra, mas a mulher sofre mais – conta Célis.

Sua irmã Rosilene concorda:

– O negócio dos homens é mais o serviço, é trazer as coisas e colocar para a família. Já a mulher presta mais atenção no que está acontecendo em casa.

Domingo passado (29 de novembro), Rosilene, sua irmã Célis, seu esposo Expedito, e dois de seus filhos, um menino de 17 e a caçula de oito, foram visitar “o Bento”. Proibidos de ir até sua casa pela defesa civil, observavam de longe o antigo povoado completamente destruído, banhado por um córrego onde agora corre lama contaminada. A menina ficou quase o tempo todo nas costas do pai, talvez com medo de afundar na lama, ainda mole em algumas partes. O menino perguntava quando teriam autorização para voltar à casa, pois tinha esperança de resgatar seu violão, ou pelo menos as cordas.

– Tirou a vida da gente. Morreu um pedaço junto com o que a gente construiu – assim Rosilene finalizou sua última entrevista.[/fusion_text]