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Quando a Loucura
é filha do machismo

Da histeria na antiguidade, passando pelas bruxas e as vítimas de eletrochoque, e chegando às esposas indesejadas internadas por maridos nos dias de hoje. Será que o corpo feminino é mesmo propenso às doenças mentais?
    21 de agosto de 2018

    Desde a antiguidade, as insatisfações femininas foram tratadas como um mistério biológico. O que é que havia no corpo das mulheres que fazia com que elas sofressem angústias e perturbações de toda ordem? Na Grécia, Hipócrates, o pai da medicina, resgatou e reafirmou uma velha teoria: o útero, quando frustrado, “passeava” pelo ventre. Esse órgão cavernoso partia, pelo labirinto de uma anatomia imperfeita, em busca de um lugar mais confortável onde se alojar. Era o útero errante a causa dos sintomas que se apresentavam: irritações, espasmos, convulsões, palpitações e angústias. A doença foi batizada de histeria (do grego Hystéra, que quer dizer: útero).

    Mulheres histéricas foram estudadas como um caso sério de perturbação mental e física ao longo de 600 anos durante os quais a ideia se manteve viva. A prescrição variava ao longo dos séculos, mas, em quase todos os casos, o tratamento sugerido era o casamento e a concepção.

    Vinte e quatro séculos se passaram, mas a presença de um útero ou a desobediência a padrões sociais impostos às mulheres ainda justificam estigmas ligados à loucura e histeria – e muitas mulheres ainda precisam ouvir de seus psiquiatras que “endoideceram” por não terem marido. Mais: especialistas entrevistados pela Revista AzMina alegam que a medicina está longe de reconhecer que uma das principais causas dos transtornos mentais femininos é, sim senhora, o machismo.

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    O útero viajante e enlouquecido

    Mas havia, certa vez, o útero enlouquecido. Para Platão, o distúrbio de um útero que viajava e se agitava nascia da ausência de crianças. A mulher havia sido criada para ser mãe. Quando não preenchia esse vazio, sua fisiologia provocava sintomas. Mais tarde, médicos sugeriram que a estimulação genital bastaria para tranquilizar o útero ensandecido – e assim nasceria o vibrador.

    Uma lição clínica sobre histeria ministrada por Charcot, na pintura de Pierre Aristide André Brouillet (1887), mostra uma mulher desfalecida sendo estudada por uma classe de homens

    Foi somente mais tarde, no século 19, com o surgimento e avanço da psiquiatria, que a histeria deixou de ser uma condição abstrata atribuída às mulheres e foi alçada à categoria de neurose. A tristeza feminina, contudo, que agora ganhava o status de doença mental, não deixava de ter uma leitura biológica, desta vez ligada aos hormônios. De histéricas, as mulheres passaram a loucas e foram confinadas em manicômios.

    A própria loucura, cuja definição variou ao longo dos séculos, ganhou o rosto da mulher rebelde. A mulher que rejeitava o rótulo social, que não objetivava se casar. A mulher que amava outras mulheres. Aquela que não queria ser mãe.

    “Muitas manifestações de transgressões sociais das mulheres foram e são tidas como sintoma”, explica Kyola Vale, psiquiatra especializada em gênero que trabalha com mulheres há 30 anos. “Nos prontuários como os do Hospital Psiquiátrico Juquery – maior hospital psiquiátrico do país – é possível encontrar anotações muito interessantes, como de jovens internadas por serem consideradas desobedientes, contestadoras ou por falarem muito alto, comportamentos não típicos para aquele momento. Vemos isso do final do século 19 até hoje”.

    A maior parte dos casos médicos tratados e relatados na literatura entre o final do século 18 e o século 19 eram femininos. Tanto tempo depois, o quadro não é tão diferente: são elas que sofrem mais de depressão e ansiedade, e são consideradas mais suscetíveis a tais transtornos mentais, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS).

    Mas por qual motivo isso acontece? Estariam os gregos corretos? Será que o corpo feminino tem, de fato, uma propensão às angústias?

    Segundo Valeska Zanello, doutora em psicologia e especialista em saúde mental e gênero da UnB (Universidade de Brasília), a medicina ainda falha em buscar as verdadeiras causas do sofrimento feminino e aposta em justificativas simples, apenas biológicas. A explicação padrão é a de que, por sofrerem mais com variações hormonais, como menopausa e gravidez, as mulheres acabariam mais suscetíveis a episódios depressivos. “Culpam-se os hormônios e ignoram-se várias agressões, como estupro e violência doméstica, que não são vistas como geradoras de sofrimento. Ao ouvir a vida dessas mulheres, os psiquiatras não perguntam e não levam em conta o horror vivido por elas”, conta.

    A psicoterapeuta americana e autora do livro “Women and madness” (Mulheres e Loucura), Phyllis Chesler, acrescenta que a própria estrutura patriarcal faz com que as mulheres desenvolvam distúrbios mentais.

    “Mulheres estão sobrecarregadas pelo trabalho e recebem salários menores. Elas podem ocupar os cargos mais poderosos ou aqueles com menor pagamento – sempre terão um trabalho interminável. Quando chegarem em casa, elas ainda vão ter que cozinhar o jantar, lavar a louça, as roupas e cuidar da casa. Só isso já pode deprimir alguém ”, defende.

    “Se as mulheres são vistas como cidadãs de segunda classe até por suas mães, se são levadas a trabalhar em ambientes hostis, se são tratadas injustamente, se sofrem abusos de seus primos e irmãos, isso pode levá-las a desenvolver depressão, ansiedade, paranoia, insônia, etc. Os efeitos a longo prazo do assédio e da violência sexual que as garotas e mulheres sofrem constituem, sim, uma experiência traumática”, conclui.

    Além disso, tudo pode ser uma questão de mais casos reportados. Chesler explica que as mulheres são mais propensas e abertas a procurar ajuda e falar sobre seus problemas, o que pode explicar o fato de serem, nas estatísticas de transtornos mentais, maioria, enquanto os homens tendem a se calarem e fecharem-se num casulo de fortaleza dissimulada. Um indicativo que corrobora sua teoria é o fato de homens serem a maioria entre os suicidas, mesmo sem nunca frequentarem os divãs dos psicólogos. Segundo a OMS, uma média de 800 mil pessoas se matam no mundo. Na maior parte dos países, a taxa média de morte masculina é de 15 para 100 mil, enquanto, no caso das mulheres, é de 9 para 100 mil.

    No Brasil, os homens também são maioria entre os suicidas. Paradoxalmente, contudo, a maioria das tentativas são de mulheres. A explicação dos profissionais é simples: o grau de letalidade do suicídio tentado pelos homens, por conta do meio empregado, é maior. Além disso, em muitos casos, a tentativa de suicídio feminina é apenas um pedido de socorro, conforme destaca Kyola. “Com muita frequência as mulheres que sofreram violência doméstica e sexual tentam se matar. É um grito de socorro, uma tentativa de sumir com o problema”, explica.


    “Eu me sinto sufocada e isso bagunça minha mente”

    Rosa* fala como se quisesse arrancar, pelo verbo, as coisas que lhe doem na alma. Aos 49 anos, trabalha em uma cooperativa de lixo na periferia do Distrito Federal e destila o sofrimento de sua vida para quem quiser ouvir – embora poucos queiram. “As pessoas me dizem: você fala demais da sua vida. Mas eu preciso conversar. Senão eu fico entalada”, diz.

    As memórias vão se amontoando, empilhadas pela rapidez das palavras. Lembranças do marido abusivo, com quem ficou casada por quase quinze anos. Um marido que bebia e a agredia – violências cotidianas que ela diminui, culpa a própria agressividade. “Ele revidava. Eu dei um tapa nele, ele me deu uns murros na boca”, relativiza. “Passei um ano dormindo com ele, ‘cedendo’ pra ele com o travesseiro na cara sem querer. Sabe o que é se entregar durante um ano para uma pessoa com nojo? Eu tinha raiva, eu tinha nojo dele”, desabafa.

    Mesmo sem amar o marido abusivo, Rosa temia ir embora. É que sabia para onde iria voltar: a casa dos pais, uma prisão antiga, na qual hoje se vê obrigada a viver. O pai diabético, de 78 anos, tem uma das pernas amputadas e está prestes a perder a outra. A mãe tem 74 e é esquizofrênica. Embora tenha quatro irmãos, Rosa é a única que cuida dos dois, agora que voltou a ser “solteira”. Leva ao médico, dá banho, faz comida e trabalha. Nos últimos tempos, tem se sentido nervosa e sobrecarregada, motivo pelo qual procurou apoio de um grupo terapêutico em Brasília.

    O pai, figura autoritária central de sua vida, defende que ela procure um psiquiatra. Diz que ela está ficando “doida”. Doida como a mãe. “Não preciso de remédio. Eu só quero sair, quero viver a vida. Eu não sou feliz. Eu só me sinto sufocada e isso bagunça a minha mente”, ela explica.

    Rosa é perseguida pela dor. Pelo fantasma antigo de uma depressão que começou com a morte do filho mais novo, aos sete meses de idade. Um bebê que já nasceu com um defeito congênito no coração e não resistiu. Ela se lembra bem do dia em que, tomada pelo desespero, foi ao cemitério e tentou abrir com as mãos a cova diminuta.

    Com as mãos sujas de terra, odiou a Deus. Naquela profunda ausência, começou a rejeitar o filho maior, de oito anos, que ainda precisava dela.

    “Olhava para aquele filho e via nele um estranho”, conta. “Só queria o outro. O que morreu”.

    Ela garante que aprendeu a lidar com o luto e ganhou também forças para deixar o casamento abusivo. Mas admite que dentro dela, lá no íntimo, mora uma inquietação: o medo de ficar louca como a mãe. “Minha mãe já viveu em vários hospícios. Eu sei que, se eu não cuidar, eu vou ficar igual a ela. Eu não escuto vozes nem nada. Mas fico nervosa”, assombra-se.

    Rosa tem uma teoria a respeito da esquizofrenia desenvolvida pela mãe após a gravidez. “Ela teve resguardo quebrado”, resume, com a simplicidade de quem conhece o horror. “Meu pai bateu nela quando ela teve a gente. Ele bebia muito na época. Crescemos em creche. Mas ela não é fácil, não. Me xinga muito. Me chama de puta. Eu tento me controlar”.

    Para Rosa, a doença em questão não pode ser catalogada pela medicina. É um problema espiritual. A maldição que ela teme ter herdado: a loucura que nasce de uma longa lista de tristezas. “Mas eu não escuto vozes”, repete.

    E repete.


    De bruxas a doentes mentais

    Em “A História da Loucura”, o filósofo francês Michel Foucault explica que a experiência do sofrimento psíquico foi encarada de diversas formas ao longo da História do mundo ocidental. A própria definição do que era loucura foi se transfigurando conforme a época histórica. Na Idade Média, por exemplo, os sintomas de alucinação foram atrelados à possessão demoníaca, gerando uma cruzada contra os hereges, aqueles com comportamento “desviante”, que eram queimados nas fogueiras. As mulheres, sobretudo quando não cumpriam os papéis sociais esperados, eram consideradas bruxas.

    Foi somente com o surgimento da psiquiatria que a racionalidade sobrepôs-se ao discurso mítico-religioso. Ao ser considerado “doente mental”, o louco foi submetido ao isolamento e ao silêncio. E a voz das mulheres, já tão emudecida, foi o principal alvo.

    “A história da psiquiatria é feita de homens falando sobre mulheres loucas”,

    conta Valeska Zanello. “A princípio, a ‘solução’ encontrada por eles foi utilizar eletrochoque e gelo na vagina. Foi só durante a primeira e segunda guerras que houve um avanço na psicoterapia, pois os homens voltaram imensamente fragilizados dos conflitos e passaram a ser os pacientes. Então houve alguma humanização do tratamento. Ou seja, somente quando os homens sofrem há melhora no quadro”.

    A psiquiatra Kyola Vale destaca, ainda, que a produção de medicamentos para ansiedade e ataques de pânico, por exemplo, só se desenvolveu em um contexto de guerra, da necessidade de manter os soldados “sãos”. “Isso prova como as mulheres não eram relevantes. A mulher pode ficar doente, porque fica em casa ou é internada. Os homens têm que ir para o front. Eles precisam melhorar”, opina.

    Lista com os motivos para admissão do hospital psiquiátrico Trans-Allegheny Lunatic Asylum, fundado em 1864 em West Virgínia, nos Estados Unidos. Entre os motivos listados para internar alguém, estão: “problemas femininos imaginários”, “mal feminino”; “abandono do marido”; “doença feminina”; “casamento do filho” ou, simplesmente, “mulheres”. Créditos: Trans-Allegheny official site

    Mulheres eram internadas em manicômios pelos mais variados motivos, como gostar de sexo, não obedecer ao marido, não querer ter filhos. No Brasil, não foi diferente. Em seu livro “Holocausto Brasileiro”, a jornalista Daniela Arbex resgata os horrores das internações compulsórias no hospício de Barbacena, interior de Minas Gerais, no começo do século 20. Nos registros narrados pela jornalista estão casos em que meninas foram internadas por terem engravidado de homens casados, homens casados que internavam as esposas que não mais desejavam e mulheres que perdiam a virgindade antes do casamento.

    O quadro das clínicas psiquiátricas, hoje, não é tão diferente. Segundo Valeska, há imenso despreparo e preconceito dos profissionais, que não só ignoram a origem do sofrimento feminino, como dão margens para todo tipo de abusos. “As clínicas não estão preparadas. E o que posso dizer é que, no caso das mulheres que estão sob surto, o risco é muito grande de abuso sexual. E mesmo se a mulher denuncia que sofreu abuso, como todo mundo tem a tendência de desqualificar a fala do louco, ela não é levada a sério e se torna muito mais vulnerável”, conta.

    “É porque você não é casada”

    Sabrina* foi diagnosticada com esquizofrenia há sete anos e já foi internada em clínicas psiquiátricas por pelo menos sete vezes. Em uma de suas internações, em uma clínica no Espírito Santo, teve as roupas arrancadas por dois enfermeiros, que a forçaram a entrar no chuveiro, a despir-se de dignidade enquanto se banhava. O episódio ficou gravado em sua memória e ainda arranca lágrimas. “Eu mordia, cuspia, gritava, mas eles eram mais fortes do que eu. Era muita vergonha de se ver nua na frente de dois homens desconhecidos”, relata.

    Hoje, Sabrina mora em Brasília e participa ativamente da luta antimanicomial junto ao Congresso. Pertencente à classe média, loira, de olhos claros, ela enxerga o enorme abismo social e racial no tratamento das doenças mentais: na maioria dos casos, os indivíduos internados na rede pública são negros e pobres. “No Hospital de Base, certa vez, um enfermeiro me disse: você é muito bonita para estar aqui. Eles são muito preconceituosos, naturalizam o racismo”, lamenta.

    Durante a busca por um tratamento para sua doença, Sabrina recebeu também explicações que a deixaram completamente boquiaberta.

    “Já me disseram que eu era esquizofrênica porque precisava de sexo. Um psiquiatra também me falou que o meu problema era que eu não era casada”, conta.

    O melhor apoio não foi encontrado nas clínicas particulares ou nos consultórios psiquiátricos particulares, e sim no Caps (Centro de Atenção Psicossocial), que fornece atendimento público multidisciplinar em saúde mental, coordenado pelo Ministério da Saúde. Hoje, é a principal porta de entrada do SUS (Serviço Único de Saúde) para tratamento das doenças mentais. Segundo o órgão, existem no Brasil 2.549 Caps. No ano passado, foram 14 milhões de atendimentos em saúde mental.

    “Se minha família soubesse da existência desse lugar, com certeza teria me levado lá antes. O tratamento ali funciona porque é baseado na liberdade. A pessoa não precisa ficar isolada. O atendimento é receptivo”, avalia Sabrina.


    “Eu não sei o que é meu”

    Daniela* tem 21 anos e é uma jovem estudante de biologia. O olhar congelado em algum ponto do horizonte denuncia uma calma que ela diz não saber se é dela ou “dos remédios”. Seus primeiros surtos depressivos ocorreram aos 16 anos. Desde então, já passou por pelo menos seis psicólogos e psiquiatras e tomou 20 medicamentos diferentes. Seu diagnóstico final foi de transtorno bipolar e depressão. No ano passado, ela tentou o suicídio.

    No começo de 2018, após um surto psicótico, foi internada em uma clínica psiquiátrica, experiência que ela não tem palavras para qualificar. “Eles acham que a gente é totalmente incapaz”, conta. A garota logo percebeu que, na clínica, havia a divisão dos pacientes em dois terrenos: um feminino e outro masculino. “Curiosamente, o terreno masculino tinha tudo. Mesa de sinuca, totó. No nosso, só havia bancos. Porque a gente só sabe conversar”, ironiza.

    Daniela, que encontrou no feminismo uma ferramenta de compreensão do mundo, consegue entender alguns dos mecanismos que contribuíram para seu sofrimento, e quais deles só existiram por ser mulher.

    Após tomar um medicamento que a fez engordar 30 kg, por exemplo, precisou lidar com transtornos alimentares.

    “Sempre tive a autoestima baixa, nunca fui magrinha e por isso sofria bullying e preconceito muito grandes. As exigências sociais para homens e mulheres são diferentes. Você precisa sair arrumada, ser bonita. Por isso teve uma época em que eu tentei negar minha feminilidade, esconder o meu corpo”, relembra.

    Mas há uma parte do sofrimento que ela prefere não partilhar. Alguma coisa quebrada, soterrada, dentro dos olhos fixos: a parte sobre relacionamentos amorosos. “Prefiro não falar sobre isso”, pede.


    O amor que enlouquece

    Para além das pressões sociais e violências diversas, a principal queixa feminina nos consultórios de psicologia ainda é, conforme Valeska Zanello, amorosa. O amor é, para grande parte das mulheres, um fator de identidade. Escolher um homem – na maioria dos casos – e ser amada por ele passa a ser uma meta de vida. Quando esse ideal é rompido ou não atingido, vem acompanhado de dor e frustração, que com frequência culminam em episódios depressivos.

    Larissa* conhece bem a natureza desse amor que enlouquece e incapacita. A eminente advogada de 34 anos, com uma brilhante trajetória em defesa dos direitos das mulheres, ficou presa em um relacionamento que hoje considera abusivo. “Namorei por quatro anos. Quando me casei, ele parecia um príncipe. Mas logo no primeiro ano de casamento tive uma crise de depressão. Ele era materialista, egoísta, me colocava para baixo. Passado um tempo, eu percebi que estava me fazendo mal. Quando ele me mandou ir embora, eu fui e nunca mais voltei”, relata.

    Após o divórcio, depois de se reerguer financeiramente e voltar ao trabalho, Larissa acabou se envolvendo com três homens casados em sequência. O último, ao qual ela amou desesperadamente, foi também o homem que a destruiu.

    “Ele fazia tudo por mim, estava comigo 24 horas por dia, passou a sair de casa nos fins de semana para ficar comigo”, relembra. O romance quase perfeito durou até o momento em que esse homem ideal contou que a mulher estava grávida e escolheu a esposa. Desolada, Larissa caiu em profunda depressão, que culminou em uma tentativa de suicídio. “Eu não queria morrer, mas queria apagar. Tomei vários comprimidos de Rivotril com uísque. Uma amiga me levou para o hospital, onde fiz lavagem estomacal. Ele não falava mais comigo”, conta.

    “Eu sentia um sofrimento absurdo, parecia que tinha arrancado algo de mim. A dor não passava. Não passava”.

    Larissa ficou internada em clínicas psiquiátricas duas vezes. Conheceu pessoas, quebrou preconceitos próprios, e continua lutando. “Não vou dizer que atribuo tudo a um relacionamento abusivo. Mas o relacionamento abusivo te ajuda a desestabilizar, te deixa a um ponto em que você nem acredita mais em você mesma. O agressor é muito astuto e fala de uma forma que você se sente sempre culpada”, define.

    Hoje, a advogada faz acompanhamento terapêutico e toma quatro tipos de medicamentos diferentes. Ela, sobretudo, não julga. “As pessoas que cometem suicídio, que se machucam, não podem ser julgadas. Ninguém sabe o que elas estão passando, e sentindo”, afirma.


    Mudanças lentas e imperceptíveis

    Conforme a professora Valeska Zanello, a perspectiva de gênero ainda não é abordada nos tratamentos psiquiátricos. O sofrimento feminino permanece desqualificado e, pior, ainda existem internações questionáveis.

    “Eu mesma vi, quando trabalhava em hospital psiquiátrico, serem internadas pelos maridos mulheres que, na verdade, não estavam doentes. Os maridos é que queriam se livrar delas. A palavra dos homens nunca é colocada em xeque”, lamenta.

    A médica Kyola Vale ressalta que, de uma forma geral, o acolhimento às diferenças de gênero exige uma formação mais ampliada do que nossa psiquiatria tem hoje. “Historicamente, a psiquiatria se afastou de disciplinas como a história, a sociologia e a antropologia, e deu as mãos apenas à neurociência, à farmacologia”, lamenta.

    Phyllis Chesler, que recentemente lançou uma versão atualizada de seu livro nos Estados Unidos, vê alguns progressos. “Existem, agora, terapeutas feministas e um grande entendimento no campo de saúde mental de que a violência sexual e a discriminação constituem um sério trauma. Porém, as mulheres ainda são mais rapidamente consideradas ‘loucas’, ou têm menos credibilidade em entrevistas de emprego. Nós fizemos progressos. Mas não o suficiente”, avalia.

    Reduzida a um jargão para desqualificar atitudes femininas, a loucura permanece como uma sombra de gênero. E as mulheres que erguem a voz, com seus úteros fixos no abdômen, ganham logo a definição, agora pela força do adjetivo: continuam histéricas.


    ‘Loucas’ de desobediência

    Algumas tinham doenças mentais, outras só cometeram a ‘loucura’ de questionar padrões machistas – mas todas mudaram a história.

    Joana, a Louca (de amor)

    Filha de reis católicos espanhóis, Joana de Castela entrou para a história da coroa espanhola como A Louca. Casada com Felipe, o Belo – para firmar aliança política com a Áustria, no século 16 – sofreu com as crises constantes de infidelidade do marido. Por ciúmes, tinha verdadeiros acessos. Recusava-se a comer, a ir à missa e a comungar, dormia no chão, perseguia as concubinas de Felipe (reza a lenda que chegou a retalhar o rosto de uma delas). Acabou afastada do trono e enclausurada no castelo de Tordesilhas pelo resto da vida.

     

    D. Maria, outra rainha louca

    A mãe do rei português regente D. João VI (aquele que veio ao Brasil fugindo das invasões napoleónicas) teve uma vida de sofrimentos que, lentamente, afetaram seu estado mental. D. Maria era descrita como uma mulher de “rosto delicado, propensa à melancolia”. Seu governo foi marcado por crises, tanto pessoais quanto políticas: a morte do marido, de seu primeiro filho e a queda do absolutismo na França contribuíram particularmente para uma “profunda tristeza” que acabou por afastá-la do trono em 1792.

     

    Joana d’Arc

    Heroína da França, guerreira, santa, louca ou tudo isso? Joana d’Arc ainda é um mistério para a psiquiatria e mesmo para historiadores. Nascida em 1412, a camponesa começou a ouvir vozes aos 13 anos. Mais tarde, essas vozes a mandariam ao campo de batalha, para coroar o príncipe Carlos e salvar a França da dominação inglesa. Liderando um exército, conseguiu importantes vitórias, mas foi capturada pela Inglaterra e queimada na fogueira em 1432, acusada de bruxaria e de se vestir de homem. Mais tarde, no século XIX, foi canonizada e virou uma das santas padroeiras da França.

     

    Maura Lopes Cançado

    Poucos conhecem a história da escritora mineira Maura Lopes Cançado. Esquizofrênica na mesma medida em que talentosa, escreveu dois livros nos anos 1960, período em que esteve internada em manicômios: “Hospício é Deus” e “O sofredor do ver”. Sua primeira internação, aliás, foi voluntária: pediu para entrar aos 18, com delírios de grandeza e tendências suicidas. Em “Hospício é Deus” fez uma espécie de autobiografia de sua vida dramática, que chocou a sociedade à época – aos 14, Maura era casada. Aos 15, divorciada e com um filho. Ela relata em seus livros os abusos sexuais sofridos na infância por empregados da família e a brutalidade do tratamento psiquiátrico da época. Somente agora sua obra começa a ser alvo de estudos pelo Brasil.

     

    Dilma Rousseff

    Alvo de um longo e desgastante processo de impeachment em 2016, a ex-presidente Dilma Rousseff teve seu estado mental esmiuçado em uma longa reportagem de capa da “Revista Istoé”. A reportagem destacava as explosões nervosas de Dilma no período e atestava que, fora de si, a ex-presidente não tinha  “condições de governar”. A revista chegou a comparar Dilma com “D. Maria I”, mostrando que, séculos depois, o estado mental das mulheres no poder ainda é colocado em xeque.

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