Fotos: Julia Rodrigues

 

Gosto de olhar para as fotos e montagens que a Julia Rodrigues fez para o projeto #mamilolivre. Quando percorro aquelas fileiras de mamas, tudo que pensei e escrevi sobre nosso projeto se acende. Os argumentos esquentam e se transformam em uma certeza visceral: não há vergonha em ter mamas, não há porque escondê-las ou criminalizá-las. Se os homens têm direito de exibir o peito nu, nós também devemos ter. Fico imaginando estranh@s lendo o manifesto do projeto em alemão, francês, italiano, espanhol, japonês e todos os idiomas para os quais dermos conta de traduzir, explorando as fotos com calma e, quem sabe, imprimindo as imagens para criar mais um painel de mamilos libertos em algum canto de mundo, como eu e a Julia torcemos para que aconteça. Será que essas pessoas sentem o mesmo que eu?

 

FOTO: Julia Rodrigues

 

A partir de amanhã,  12 de setembro, as fotos da Julia estarão espalhadas por pelo menos 20 painéis de lambe-lambe em São Paulo e, diante deles, passará gente, gente, gente. Será que estarão reparando como são diversos os mamilos? Será que sentem vergonha, tesão, pudor? Será que acham graça? Quem se demora na frente das fotos é obrigad@ a perceber que todas as sensações passam, até o ponto em que se está apenas diante de fotografias de uma parte do corpo que estamos menos acostumad@s a ver. Pode levar tempo – pode levar séculos – mas a vergonha, o tesão, o pudor: todos eles passam. E quando expira o prazo de validade, o que sobra é só o corpo.

Dá pra acreditar que em muitos cantos do mundo uma mulher tirar a camiseta por conta do calor é crime? No Brasil, o ato pode ser enquadrado no Artigo 233 do Código Penal: “praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público: pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa”. Não vou nem entrar no mérito do que é ou não obsceno – claramente isso é tão mutável quanto os costumes – mas a Constituição Federal, nossa lei maior, já resolve o assunto quando determina a igualdade entre mulheres e homens perante a lei. Por essa razão, as prisões de mulheres que protestam nuas, das que amamentam em público ou das que querem bronzear os mamilos acabam nunca resultando em condenação. Ou seja, juridicamente, até que a situação não é de todo mal em nosso país. Mas se você nasceu com vagina (ou se proclamou mulher), sabe bem que todo esse juridiquês não vai te proteger caso resolva sair de casa com os seios à mostra. É que a regra da rua é clara: da cintura pra cima, corpo de mulher é pecado.

O projeto #mamilolivre foi meio filho da raiva que esse quadro me provoca. Me chegou no susto, e era esse mesmo susto produtivo que eu queria causar nas pessoas quando imaginei espalhar imagens de peitos nus pela cidade. Pouco depois, a internet fez sua mágica, me apresentando a Julia, que tinha um projeto fotográfico incrível, o Pode Não Pode. Ela vinha publicando imagens de torsos nus de homens e mulheres, chegando à conclusão que o Facebook censura apenas os mamilos femininos. Procurei a moça para propor a parceria e foi pá-pum. Ficou decidido que ela cuidaria da parte visual e eu me encarregaria dos textos, do conteúdo e da linha argumentativa do projeto.

 

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Tudo parecia encaminhado. Era só botar o plano em prática, eu pensava. Mas eu estava errada. Eu ainda precisaria sentir o projeto, tirá-lo do campo racional e ser eu mesma a cobaia de meus argumentos. Poucos dias antes da inauguração do projeto, um banho de cachoeira com um punhado de amig@s me colocou à prova. Eu sabia que, por carregar uma vagina, fora condenada a esconder meus mamilos a partir da puberdade, mas ali não se tratava de saber. Diante da possibilidade – e do desejo, e do medo – de mostrar os seios e fazer do meu corpo o cenário para a prática das minhas convicções, não era do cérebro, mas das vísceras que eu precisava.

Repassei mentalmente o manifesto, repeti o Artigo 5⁰, Inciso IX da Constituição – “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações” – mas a hora era de deixar sair o impulso represado, de canalizar a raiva e transformá-la em “não! não!, eu não vou cruzar as pernas! Não vou mais ter vergonha se a menstruação vazar, e não há nada no meu torso de mulher que precise ser escondido!”. Se eu estivesse em um filme americano, esse seria o momento de arrancar o top do biquini e gritar palavras de ordem, torcendo pra que algum canalha compartilhasse a foto nas redes sociais. Mas ali eu não era ativista, mas uma mulher ávida por um banho de cachoeira do meu jeito, uma pequena ilha de liberdade. Não para os outros, mas pra mim.    

Pouca gente deve ter percebido quando eu tirei a parte de cima, e o que se sucedeu não foi nada hollywoodiano, mas morno como eu desejava que fosse. Pouco a pouco @s amig@s foram se aproximando, e dá-lhe banho de rio, papo furado, sol e mexerica. E meus seios de fora não eram mais uma questão, como nunca haviam sido minhas mãos, minhas orelhas ou os mamilos dos meus amigos. Experimentei ali uma liberdade pacífica, embora eu saiba que, muitas vezes, é necessária uma dose de violência para romper as prisões. Algumas vezes é um grito interno, outras, é derrubar bastilhas. Mas, em geral, a liberdade não é efetiva sem acontecer tanto na cabeça, quando a gente pensa e elabora, quanto no coração, quando a gente se põe em movimento pra que ela nos habite. Depois é hora de abrir as portas de si para que ela transborde para o mundo.  

Nós acreditamos, Julia e eu, que talvez umas fotos bonitas de gente com os mamilos à mostra possam proporcionar uma pequena experiência de violência, um pequeno choque naquel@ que antes achava inadmissível uma mulher não esconder os mamilos, e que talvez – porque sonhar não custa – possa romper esse paradigma e dizer: “Por que não? Por que as mulheres não podem?”. E então, cada vez mais, nós poderemos.

 

FOTO: Julia Rodrigues

Como levar o Projeto #mamilolivre para a sua cidade:

Antes de mais nada, verifique a legislação da sua cidade relacionada ao uso de comunicação impressa aplicada ao espaço urbano. Se você optar por infringir as leis do lugar onde mora, esteja ciente das possíveis consequências.
Baixe as fotos do projeto aqui. Se preferir, tire suas próprias fotos, mas tenha certeza de que as pessoas que posarem pra você concordam em ter sua imagem exposta.
Imprima as fotografias em impressora a laser (a tinta de impressoras jato de tinta borra com a cola). É possível imprimir as fotos em duas (ou mais) folhas de tamanho A4 e emendar depois para formar uma imagem grande.
Faça sua cola com 2 partes de água e 1 parte de cola branca. Com 3 litros dessa mistura você consegue colar cerca de 200 cartazes A3.
Escolha seu muro e cole suas fotos com amor e uma generosa camada de cola por cima.
Fotografe seu lambe e compartilhe no Tumblr do projeto – e onde mais você quiser! – usando as hashtags #mamilolivre e #mamilolivre[sua cidade].