150 anos depois da lei, mães negras ainda lutam para libertar seus filhos

MULHERES NEGRAS

Ventre Livre

 "Os filhos de mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei serão considerados de condição livre"

Artigo 1.º da Lei do Ventre Livre, assinada pela Princesa Isabel em 1871.

A Lei Áurea foi a primeira legislação que trazia a palavra liberdade para a população negra.

Somente depois de 17 anos, a lei "pôs fim" à escravidão no Brasil.

O Brasil ainda é um país que mata um jovem negro a cada 23 minutos, segundo o Mapa da Violência

Na prática, nem mesmo 15 décadas não foram suficientes para que a liberdade se tornasse realidade.

Basta ver os números:

A proporção de negros no sistema carcerário cresceu 14% em 15 anos, enquanto a de brancos diminuiu 19%.

Fonte: 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2019)

Mães negras ainda hoje usam estratégias ancestrais que pessoas escravizadas tiveram que construir para que seus filhos sejam livres de verdade.

“O extermínio do meu filho mudou completamente a minha vida. Mário não teve liberdade nem sequer para brincar"

Joelma Lima, que teve um filho de 14 anos assassinado brutalmente por um policial militar em Pernambuco.

Joelma fundou em Recife o Centro Comunitário Mário Andrade, em memória do filho.

"Se a gente for esperar pelo estado, que nunca fez nada todos esses anos, não vamos para lugar nenhum"

Perto de Joelma, na periferia de Olinda (PE), Elisângela Maranhão também acolhe física e emocionalmente muitas mulheres com o grupo Mães da Saudade - de filhos mortos pelo tráfico ou pela polícia.

"Basta olhar para uma comunidade pobre para entender o tamanho do desafio para que ventres negros sejam livres"

Elisângela Maranhão, conhecida como Anjinha na comunidade.

Em 2014, quando Akins Samuel nasceu, Juliana Gonçalves teve ao seu lado mulheres que a ajudaram a começar a caminhada da maternidade.

"Minha perspectiva de liberdade é que ele tenha opções, saiba se defender, se afirmar como pessoa e conhecer sua história. 

Esse é um lugar de potência"

"São 150 anos da lei, mas são mais de 150 anos que as mulheres negras estão firmes para que seus ventres sejam efetivamente livres"

Martha Rosa Figueira Queiroz, historiadora baiana.