logo AzMina

Vaginas têm cheiro e não é de flor

por Helena Bertho
22 de abril de 2019
Se você já se incomodou com o cheiro da sua ppk, não está sozinha. Mas fique calma, é provável que ele seja completamente normal
Lavar demais pode fazer mais mal do que bem à vagina. Foto: Flickr Commons

Por muito tempo, eu achava que minha vagina tinha algum problema por causa do cheiro. Passei em várias ginecologistas tentando descobrir o que estava errado, mas sempre estava tudo dentro dos conformes. Como assim? Tinha aquele cheiro que eu odiava, ao ponto de não querer receber sexo oral porque tinha vergonha.

Mas, Helena, que cheiro era esse? Bem, era um cheiro. O simples fato de existir um odor ali me incomodava, porque eu achava que vaginas eram inodoras. Para piorar, esse cheiro não parecia nada com o de flores. Eu esperava alguma semelhança com os aromas dos sabonetes íntimos ou dos lencinhos umedecidos.

Alguma coisa tinha que estar errada para ser assim, né?

Não sou só eu eu que piro com esse cheiro

Antes de falar do cheiro certo da vagina, quero falar dos porquês desse incômodo que eu tinha e sei que não é só coisa minha. Bati um papo com a médica Bruna Wunderlich, que me contou que sempre recebe em seu consultório pacientes que acham que o cheiro das ppks ou a secreção vaginal estão com problemas, quando nada está errado.

“É uma construção cultural. A gente aprendeu que a vagina e a vulva são sujas. E é muito difícil desconstruir esse padrão”, explica, contando que além do desconforto, isso pode levar a doenças. “Informação é muito importante e a gente precisa falar sobre isso e falar de novo e de novo”.

Então vamos falar.

Como é o cheiro normal da vagina?

“É um cheio que algumas pessoas descrevem como ácido, ou picante, e tem a ver com as bactérias que habitam a vagina”, diz Bruna. Ela conta que esse odor varia de pessoa para pessoa e também em diferentes momentos para uma mesma mulher.

Leia mais: Por que tantas mulheres odeiam suas bucetas?

É que as responsáveis pelo cheiro são as bactérias naturais da flora vaginal. E essa flora é diferente em cada uma e também muda de acordo com o que comemos e ao longo do nosso ciclo menstrual, porque os hormônios também mudam.

Então assim, o que dá para saber é que a ppk não é inodora, mas esse cheiro não vai ser padronizado.

Além disso, é preciso levar em conta o suor da região. Se você passa muito tempo usando roupas que abafam a área, outras bactérias vão se proliferar na virilha e causar odor. Isso também é normal e nada que um banho não resolva.

Mas como saber que algo está errado?

“Bem, a primeira coisa é identificar qual é o cheiro normal”, afirma Bruna. “As mulheres não sabem como é seu cheiro, elas têm vergonha, ou medo, ou nojo. Então se você não sabe qual é seu caso, faça um estudo de caso: põe o dedo limpo na vagina, de manhã cedo de preferência, onde tem um acúmulo maior da secreção, e cheira para ver como é.”

Ela diz para fazer isso várias vezes ao longo do ciclo, para conhecer também a variação ao longo do tempo.  

Leia mais: Vagina ou vulva? Bora conhecer seu órgão sexual!

Assim dá para entender qual é o normal, para poder identificar o anormal.

Bruna ressalta que é um odor leve, que ninguém vai sentir só de conversar com você.

O alerta deve vir quando você notar alguns odores mais fortes e diferentes, principalmente de “peixe podre”, porque é típico de algumas infecções vaginais e vaginoses.

“É um cheiro bem intenso, diferente do normal, e em alguns casos se acentua depois da relação sexual. Ele pode ser muito intenso e isso é sinal de que alguma coisa pode estar errada e daí o é ideal procurar auxílio médico para identificar”, diz Bruna.

Não gosto do meu cheiro, o que faço?

Não fique usando sabonetes, lenços e perfumes, para começar. Eles vão mascarar infecções que você possa ter e pode até piorar. Na verdade, mesmo se estiver tudo bem, eles podem fazer mal.

“A vagina é autolimpante, ela não é suja. As bactérias que existem ali são muito importantes para manter o ambiente como deve ser”, explica a especialista. São esses lactobacilos que mantêm o PH da vagina, que é ácido, e evitam que bactérias ruins se proliferem ali. Quando você usa esses produtos, você mata as bactérias boas e abre espaço para que as ruins se desenvolvam, levando às infecções vaginais.

Lei mais: Ginecologia natural – mais do que ervas, é sobre autoconhecimento e autonomia

Bruna contou que muitas mulheres começam a tomar vários banhos, usar lencinhos várias vezes ao dia e absorventes diários, alterando a flora vaginal e provocando doenças.

O jeito certo de lavar

A dica número um é não pecar pelo excesso nem pela falta. Ou seja, não lavar demais, nem de menos. Uma vez por dia está de bom tamanho. Além disso, sabonete tem que ser neutro, sem cheiro e líquido. Segundo a Bruna, para fazer o sabonete em barra é usada uma substância que faz mal para a flora vaginal.

Se tomar dois banhos por dia, no segundo use apenas água.

Outra coisa importante: o que você lava é a vulva, ou seja, a parte de fora da ppk, e não a vagina (o canal). Mesmo depois do sexo, mesmo que esteja com cheiro, não jogue água lá, muito menos sabonete, ok? Esse canal se limpa sozinho!

Já os lencinhos umedecidos, só vale usar em situações de emergência e não como hábito.

Assim a ppk vai ficar com o cheirinho não floral que é característico dela e com a saúde que deve ter!


* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente e já ganhou mais prêmios do que poderíamos sonhar em tão pouco tempo. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo investigativo que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e independente para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

Apoie o jornalismo em defesa da mulher