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Quem são as mulheres citadas no escândalo da JBS

As mulheres citadas nas delações da JBS não são apenas as esposas ou familiares de homens acusados de protagonizar os escândalos
por Samanta Dias
29 de maio de 2017
A esposa do ex-governador Sergio Cabral, Adriana Ancelmo, deixa a 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro após depoimento à Justiça Federal (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Um dos maiores conglomerados do mundo no ramo de carnes, a JBS foi a empresa que teve o maior faturamento do país no ano passado, contando, inclusive, com dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. O faturamento do grupo perdeu apenas para outra grande protagonista em escândalos políticos de corrupção no nosso país, a Petrobras.

Diante da recente trama de escândalos envolvendo as colaborações premiadas da empresa, homologadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, e que tem ganhado destaque na mídia desde o dia 17 deste mês, a Revista AzMina resolveu fazer um levantamento das principais figuras femininas que apareceram até o momento ao longo das investigações.

Não é novidade a disparidade quantitativa da nossa presença no cenário político, ocupado majoritariamente por homens brancos, com ensino superior completo e heteronormativos. Por isso, o recorte é no intuito de lançar uma lupa sobre as apurações e também de entender sob qual viés se dá o possível protagonismo feminino nos desdobramentos deste escândalo.

A JBS começou como um pequeno açougue na cidade goiana de Anápolis e hoje serve de pano de fundo do escândalo que envolve o cenário político dos últimos anos. Nas palavras do próprio diretor de Relações Institucionais e de Governo, Ricardo Saud, em uma das gravações divulgadas pela Procuradoria-Geral da República sobre a distribuição de propinas, “a princípio, nós (JBS) participamos de quase todas as eleições de 2010 pra cá”.

Destacamos algumas das mulheres que aparecem nas delações de Saud e dos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, e o que foi dito sobre cada uma delas:

Andrea Neves foi a primeira a ganhar as manchetes do escândalo, com sua prisão preventiva pela Polícia Federal no dia seguinte à divulgação do material da JBS pelo jornal O Globo. Irmã do senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG), Andrea tem importante valor simbólico para a dinastia Neves, influente no estado de Minas Gerais desde a época de seu avô, o ex-presidente da República Tancredo Neves.

A “Primeira Irmã da República das Gerais” é jornalista e esteve à frente do Grupo Técnico de Comunicação do Governo durante os oito anos do governo estadual de seu irmão. Foi ela a responsável por manejar verbas durante o governo de Aécio em Minas e de construir, junto à mídia, uma imagem imaculada do seu irmão. A influência na imprensa teria resultado, inclusive, em demissões de jornalistas contrários ao seu governo.

Segundo Joesley, ele conheceu Andrea em fevereiro de 2017, quando ela o procurou para pedir R$ 2 milhões, recebidos por um primo deles, Frederico Pacheco de Medeiros, que seriam destinados ao pagamento de advogados. Semanas depois, Andrea teria pedido a Joesley R$ 40 milhões para a compra de um apartamento no Rio de Janeiro, como forma de maquiar o repasse que ela havia solicitado também em nome de seu irmão.

Segundo os delatores, os valores seriam referentes ao pagamento de propina, em 2014, em torno de R$ 63 milhões, ao senador Aécio Neves, em troca de atuação favorável aos interesses do grupo J&F, holding detentora da JBS, dentre eles a liberação de crédito do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços, o ICMS. Outros R$ 2 milhões foram pagos já em 2017, em razão da aprovação da Lei de Abuso de Autoridade e pela expectativa da aprovação da anistia ao caixa dois. A PGR pediu a abertura de investigação contra Andrea por corrupção passiva.

 

Outra relação fraternal aparece nas citações, a de Roberta Funaro, irmã do doleiro Lúcio Funaro, preso desde julho do ano passado pela Operação Sepsis, da PF, como operador do ex-deputado e ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Segundo Joesley, era Funaro quem recebia a mesada para que Cunha permanecesse calado e não fizesse delação premiada.

Assim como Andrea Neves, Roberta também foi presa preventivamente no dia 18 de maio pela PF. Segundo Saud, após a prisão de Cunha e Lúcio Funaro, os repasses de dinheiro para a família continuaram sendo feitos por meio dos irmãos de Lúcio, Dante e Roberta. Durante a investigação, a Polícia Federal filmou Roberta Funaro, acompanhada da filha de quatro anos, na sede da JBS, em 20 de abril, recebendo uma maleta com R$ 400 mil em espécie.

 

A ex-presidenta Dilma Rousseff também é citada nas delações dos irmãos Batista e de Saud, principalmente no tocante à chapa Dilma-Temer, por repasse de verbas nas eleições de 2010 e de 2014. Sobre esse aspecto, Saud ressalta que as negociações com o Partido dos Trabalhadores se davam por meio do ex-tesoureiro de campanha do PT e atual prefeito de Araraquara (SP), Edinho Silva (PT), que negociava a destinação de verbas de “doações dissimuladas”, ou seja, de dinheiro ilícito. Na gravação, Saud diz que “Temer participava de tudo e a Dilma ficava ‘um pouco distante'”.

 

Em suas delações, Joesley Batista e Ricardo Saud indicaram a destinação de U$ 30 milhões em uma conta no exterior em benefício de Dilma Rousseff por intermédio do ex-ministro da Fazenda de seu governo Guido Mantega em razão de esquema criminoso no BNDES e em fundos de pensão (Petros e Funcef) para beneficiar a JBS. Joesley indica, no entanto, que a conta estava em seu próprio nome e era movimentada por ele.

 

O empresário afirma, ainda, que Guido Mantega teria confirmado que Dilma sabia da existência da conta. Na campanha de 2014, Joesley diz ter se encontrado com a presidenta Dilma e relatado todo o histórico das contas para ela. Ele afirma que, nesse encontro, Dilma demonstrou ter conhecimento do esquema envolvendo o BNDES que beneficiou a JBS e confirmou que R$ 30 milhões oriundos desse esquema deveriam ser repassado à campanha do candidato ao governo de Minas pelo PT, Fernando Pimentel.

 

No acordo de colaboração premiada, o Ministério Público Federal relata que os pagamentos haviam sido de US$ 50 milhões para Lula e US$ 30 milhões para Dilma. Mas, no depoimento, Joesley Batista, aponta cifras ainda mais altas: “Na fase do presidente Lula, chegou acho que em uns US$ 80 milhões e depois, na Dilma, chegou em uns US$ 70. Ou o contrário, 70 na do Lula e 80 na da Dilma”. Os valores foram pagos, conforme o delator, em uma conta no exterior. Em 2014, a conta teria um saldo de cerca de US$ 150 milhões.

 

O repasse de propinas a partidos é o ponto em comum a todas as outras mulheres que foram citadas nas investigações até então. Quatro senadoras também tiveram os nomes citados: Marta Suplicy (PMDB-SP), Gleisi Hoffmann (PT-PR), Fátima Bezerra (PT-RN) e Ângela Portela (PDT-RR).

 

Segundo Joesley Batista, houve destinação de R$ 1 milhão para a campanha eleitoral de Marta em 2010, metade em doação oficial e a outra metade “em dinheiro”. Outros R$ 3 milhões teriam sido repassados em troca de possíveis negócios, caso ela fosse eleita prefeita de São Paulo, em 2014. Em nota, Marta Suplicy diz que diante da delação “há verdades e mentiras”. “Confirmo a doação oficial, e única, feita para minha campanha ao Senado, que presumo tenha saído da contabilidade regular da empresa dele, porque ele sabia que esse dinheiro seria declarado ao TSE, como efetivamente foi. Desminto, enfaticamente, qualquer outra doação. É absurda a afirmação de que suas empresas tivessem me doado qualquer valor mensal para a campanha à prefeitura de São Paulo em 2016”. Ela finaliza dizendo que tomará as providências cabíveis para esclarecer legalmente as afirmações que considera falsas.

 

A senadora Ângela Portela, que trocou o PT pelo PDT em abril deste ano, também é citada na delação de Joesley e teria recebido R$ 1 milhão. Primeiro, ele diz que liberou o dinheiro quando ela era candidata ao Senado, em 2010, mas, em seguida, diz que foi para a eleição de 2014, ano em que ela concorreu ao governo de Roraima. A assessoria da senadora afirmou que as informações não são verdadeiras e que todas as doações foram feitas por vias legais.

 

Segundo acusações, a senadora Fátima Bezerra declarou gastos de cerca de R$ 3,4 milhões em 2014, dos quais R$ 1,165 milhão teriam vindo dos cofres da empresa dos irmãos Batista. Em nota, ela reafirma que não fez contato e que sequer conhece os proprietários do grupo JBS. “Quem recebeu da empresa foi o PSD e não nossa campanha (…) Há uma confusão, não sabemos se por desconhecimento ou se de forma proposital, acerca das doações privadas das campanhas passadas no Rio Grande do Norte e no país. A população precisa ser informada sim, mais do que nunca! Mas é necessário responsabilidade com a verdade. Eu jamais esconderia o nome de qualquer empresário que contribuísse com o financiamento de minhas campanhas, até porque eu faço política com honradez, não a utilizo como moeda de troca”.

 

Em declaração de Saud, a empresa teria repassado R$ 5 milhões em propina para a campanha da senadora Gleisi Hoffmann (PT/PR) quando candidata à governadora, em 2014. Em nota, a senadora afirmou que “todas as doações recebidas na campanha eleitoral da senadora Gleisi Hoffmann em 2014 foram devidamente registradas em sua prestação de contas eleitoral e observaram todas as normas pertinentes”.

 

Apenas as senadoras Marta Suplicy e Gleisi Hoffmann são alvos de inquéritos anteriores junto à PGR. No caso das outras senadoras citadas, ainda não houve qualquer pedido de abertura de inquérito contra elas envolvendo as citações em delações de empresários da JBS.

 

Na Câmara dos Deputados, a deputada federal Alice Portugal (PCdoB-BA) afirmou que recebeu a doação legal de R$ 400 mil do partido, assim como outros candidatos da legenda. “Eu sei que a direção nacional fez até um agradecimento público na época, foi uma doação legal com toda a estrutura e rigor da lei. Não tive qualquer tipo de contato com a JBS”, afirma em nota.

 

Já a Professora Marlei (PT-PR), candidata não eleita em 2014, teria recebido R$ 95 mil para sua campanha. Ela não está em exercício no momento e não se pronunciou até agora sobre o assunto.

 

No âmbito estadual, até o momento aparece apenas a deputada gaúcha Larissa Rosado (PSB), que teria recebido R$ 200 mil para sua campanha de 2014. Em nota, a parlamentar diz que a doação foi realizada ao Diretório do PMDB, que contribuiu com as candidaturas da coligação formada, entre outros, pelo PSB, partido ao qual se filiou em 2005. “Isso, de maneira lícita, transparente e com a aprovação dos auditores e juízes do Tribunal Regional Eleitoral”.

 

Da mesma forma que as senadoras, ainda não houve por parte da PGR ou do Ministério Público Estadual pedido de abertura de inquérito contra elas em decorrência das delações da JBS.

 

por Raquel Monteath e Samanta Dias, de Brasília

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