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Por que tantas mulheres odeiam suas bucetas?

Se você acha sua genitália feia, estranha ou nojenta, saiba que o problema não está nela e sim na sociedade
por Helena Bertho
13 de agosto de 2018
Fonte: The Vulva Gallery/ @hildeatalanta

Sabe quando você acha algo tão repugnante que prefere nem olhar? Essa é a relação de muitas mulheres com as suas bucetas na maior parte de suas vidas – incluindo esta repórter que vos fala. A maioria das bucetas não tem nada a ver com a da Barbie: desde sua cor, que pode ser escura, até o formato cheio de dobras e peles, passando pelo cheiro, que fez muitas não aceitarem sexo oral.

Se você for uma mulher cisgênero, um homem transexual ou qualquer outro ser provido de uma xoxota lendo esse texto, provavelmente pensou: “grande coisa, eu também me sinto ou senti assim”. Mas apesar de parecer uma questão muito da pessoal, ela é na verdade social.

“O sexo feminino é definido pela ausência dos órgãos que o masculino tem. E enquanto se define a mulher pela ausência, acaba não se conhecendo esse órgão sexual. Como se não tivesse nada para conhecer ali além da função reprodutora”, explica a antropóloga Bruna Kloppel, que estuda a relação entre ciência, gênero e sexualidade na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “E isso é uma forma de controle social, no sentido de que você poda a sexualidade feminina, a invisibiliza. Ou quando não tira a parte da sexualidade feminina e deixa só a reprodutora.”

Os lábios (nem pequenos nem grandes)

Uma aula de anatomia nos ajuda a começar a entender esse assunto. Bruna Wunderlich, uma das ginecologistas por trás da página Ginecologista Sincera, explica que um órgão genital feminino normal (anatomicamente falando) é composto pela parte externa (a vulva, com clitóris, lábios externos e lábios internos) e pela vagina (o canal que liga essa parte ao colo do útero). E sim, vulva e vagina são duas coisas diferentes – e o fato de muitas mulheres não saberem disso só prova como a aula de anatomia na escola é falha com as meninas.

Reparou que escrevi, a pedido da médica, lábios internos e externos e não pequenos e grandes lábios? É que ao dizer “pequenos lábios” damos a entender que eles são menores que os “grandes lábios”. Mas não é bem assim. “Cada mulher tem um tamanho que é seu próprio”, diz a ginecologista.

A terapeuta Mariana Stock demorou para entender que o normal, quando se fala em vulva, é diverso. “Um dos meus pequenos lábios é maior que o outro e eles são bem proeminentes, ficam para fora. Descobri isso na adolescência e achava que era problemática”, conta ela, que chegou a procurar um médico, achando que deveria operar. Seu médico, porém, disse que não era necessário – mas questões na hora do sexo, por achar sua vulva estranha, perduraram por anos.

Já a designer Madalena (nome fictício) encontrou médicos diferentes. Ela também tinha os lábios internos grandes. “Eu não sentia dor, nem marcava na roupa. Mas era uma coisa que me incomodava e, por isso, não conseguia ter relação sexual porque achava que ia ser julgada”, conta. Para poder ter uma vida sexual, ela decidiu fazer uma cirurgia plástica de redução de lábios, chamada de ninfoplastia, aos 19 anos. “Eu gostei muito do resultado e, sem dúvida, faria de novo”, afirma.

Campeões de plástica na xoxota

Madalena não está só. O Brasil é o país que mais faz cirurgias plásticas íntimas em mulheres no mundo, segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica e Estética (ISAPS). Em 2016, foram 25 mil procedimentos. O segundo colocado da lista, os Estados Unidos, fizeram quase metade, 13 mil. No mesmo ano, no mundo todo, um total de 138 mil mulheres reduziram o tamanho dos seus lábios internos e 55 mil “rejuvenesceram” suas vulvas – procedimento a laser que diminui a flacidez da pele e deixa o canal mais apertado. O que mostra que, aparentemente, a insatisfação com a aparência das vulvas é uma questão mundial.

O cirurgião plástico Rodrigo Itocazo Rocha, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, conta que um terço da procura pela ninfoplastia é por motivos estéticos, um terço por motivo funcional, como incômodo físico ( “pegar” nas roupas ou doer ao pedalar, para ciclistas) e um terço é pela combinação das duas razões. Ele conta que a razão estética é mais comum entre mulheres jovens.

Como médico, Rocha tem um critério para dizer se a cirurgia é necessária ou não, já que se trata de uma questão muito subjetiva: “a paciente de pé, se você vê que os pequenos lábios se projetam para baixo, maior que os grandes, isso é um critério para ver que precisa reduzir. E a redução não é para reduzir ao máximo, mas sim para que não apareça nessa posição”.

Existem várias técnicas para realizar o procedimento, algumas que envolvem ressecção (retirada de parte de um órgão, no jargão médico) da borda dos lábios e outras que trabalham com a retirada de outras regiões dos lábios. Um dos efeitos colaterais possíveis da cirurgia é que a cicatrização reduza a sensibilidade da região.

O médico explica que essa “é uma área que tem grande umidade e uma flora bacteriana diferente da pele, além do sistema excretor urinário e digestivo próximos, o que aumenta os riscos de complicações”. As mais comuns são: abertura dos pontos; infecção, sangramento e hematoma (riscos comuns de qualquer cirurgia); redução exagerada, levando à amputação dos lábios internos; e diminuição da sensibilidade e do prazer.

Além disso, Rodrigo diz que sempre alerta as pacientes de que não é possível prever por completo o resultado. “Elas não têm noção do quanto pode variar o resultado pela cicatrização ou por coisas particulares da mulher, sem falar nas complicações. Eu, como médico, devo passar isso para ela compreender e assumir a responsabilidade pelos riscos.”

A taxa de satisfação com o resultado, segundo ele, é de praticamente 100%. Ou seja, quem topa o risco da cirurgia para ter os lábios menores, fica feliz com os lábios menores. Mas a questão que fica é: por que queremos tanto lábios menores, se naturalmente eles podem ser de muitos tamanhos?

Seriam os homens tão insatisfeitos com seu órgão sexual quanto as mulheres? Ainda segundo a ISAPS, nenhum homem reduziu seu pênis em 2016. Na verdade, apenas 8 mil, no mundo todo, entraram na faca por questões ligadas à genitália e foi para aumentar, não diminuir.

Como chegamos até aqui?

No livro “A origem do mundo: uma história cultural da vagina ou A vulva vs. o patriarcado” (Quadrinhos na Cia), a quadrinista Liv Stromquist foi investigar exatamente porque temos essa relação complicada com as nossas vulvas.

Ela pesquisou como a genitália feminina foi vista ao longo da história. Uma de suas descobertas é que, por muitos séculos, a vulva era adorada e retratada em tamanho grande em diversas obras de arte. No entanto, pensadores e cientistas – que Liv chama de “homens que se interessaram um pouco demais por aquilo que se costuma chamar de ‘genitália feminina’” – foram construindo ideias e “saber científico” que passaram a colocar a vagina e a vulva na situação que conhecemos.

Como bem resume a educadora sexual Julieta Jacob: “em 1969 o homem pisou na lua; em 1982 foi inventada a internet; em 1996 o Viagra foi patenteado e só em 1998 foi descoberta a anatomia completa do clitóris. Isso diz muita coisa sobre como encaramos e legitimamos a sexualidade feminina”.

A vulva ideal não existe

A forma como nos referimos à genital já diz muito sobre como ela é encarada. “Até na literatura médica, o próprio fato de a gente falar da vagina quando quer falar da vulva diz muito. A vagina é só o canal que vai do hímen até o colo do útero. Então essa fala favorece a ideia do órgão sexual feminino como um receptáculo”, explica a antropóloga Bruna Kloppel.

Isso vem de uma longa cultura que enxerga a sexualidade feminina basicamente de duas formas: meramente focada na reprodução, ignorando o prazer, e como a falta do pênis, o buraco que deve ser preenchido por ele. “Essa ideia das mulheres acharem feio, estranho, nojento, tem a ver com a falta de falar sobre, a ausência”, diz a antropóloga. Segundo ela, qualquer coisa que fizesse com que o órgão sexual aparecesse e deixasse de ser falta, seja por meio do cheiro ou do tamanho, seria um problema. “A vulva tem que ser o mais discreta possível.”

Essa ideia foi construída com ajuda de muitos fatores. Desde a ciência, que por anos ignorou a existência do clitóris, até a pornografia tradicional, que foca em retratar vulvas infantis, sem pelo e sem volume, passando inclusive pela Barbie, que não tem nada além de um risquinho entre as pernas.

Resultado: da falta de prazer a doenças

O resultado da idealização de uma vulva perfeita não é apenas as milhares de cirurgias plásticas íntimas. A ginecologista Bruna Wunderlich conta que uma das coisas mais comuns em seus consultórios são pacientes que nunca olharam para suas genitais. “Muitas pacientes aparecem com lesões que não sabem que têm. E se eu não sei como meu corpo é, eu também não sei como ele sente. Como eu vou exercer plenamente minha sexualidade?”

Segundo ela, a principal consequência desse desconhecimento é a vulnerabilidade em que as mulheres se colocam. “A gente acha que o nosso natural é errado e isso é um problema grave, porque significa que você vai ter que mudar o tempo todo, se adaptar o tempo todo”, afirma.

E isso é desenvolvido desde a infância, quando as meninas são desestimuladas a explorar o próprio corpo (ao contrário dos meninos, que são encorajados). “Muitos estereótipos de fragilidade e pudor são transferidos às meninas desde a infância, quando elas são impedidas, por exemplo, de explorar a própria vulva, etapa que faz parte do desenvolvimento psico-social-sexual típico de qualquer criança”, diz a educadora sexual Julieta Jacob.

E não é só a vida sexual que é afetada nesta equação, mas também a autoestima. Isso gera problemas emocionais e disfunções sexuais, que se refletem até no exercício dos direitos sexuais e reprodutivos.

Fechar as pernas? Muito pelo contrário

Julieta Jacob criou com sua sócia o projeto Clitóri-se, para ajudar mulheres a conhecerem seu órgão sexual. Na foto, ela segura um modelo de clitóris em tamanho real. | Foto: divulgação

Quantas vezes você ouviu na sua vida a interjeição “fecha as pernas, menina”? Ainda que essa frase seja bastante comum, um movimento contrário vem crescendo para que as mulheres conheçam e se apropriem cada vez mais de suas vulvas e vaginas. “Desde os anos 70, pelo menos, tem vários movimentos das mulheres pegarem espelhos e espéculos para conhecerem suas vaginas, o colo do útero”, lembra a antropóloga Bruna Kloppel.

Recentemente, esse movimento vem ganhando novas formas no Brasil, com as mais variadas iniciativas. A educadora Julieta Jacob com a sua sócia Caroline Arcari têm o projeto Clitóri-se. O foco é desmistificar o órgão, trazendo informação sobre a sua anatomia e funcionamento. Além do site, repleto de conteúdo, elas oferecem um curso para que mulheres conheçam melhor seu prazer e um modelo 3D do clitóris para todo mundo entender que ele é muito mais do que se vê.

A terapeuta Mariana Stock, lá do começo da reportagem, depois de anos de conflito com sua genitália, um dia teve uma experiência transformadora com uma massagem tântrica e resolveu passar isso adiante. Ela fundou a Prazerela, uma casa onde oferece cursos de empoderamento sexual. “O principal objetivo do meu curso é fazer um mergulho nessa história de porque é tão difícil sentir prazer”, conta. Mais do que anatomia, as aulas abordam toda a construção social por trás da sexualidade feminina.

Além delas, diversas outras iniciativas de empoderamento sexual para mulheres tem surgido no Brasil. Tem curso para a mulher aprender a se masturbar e até aula de ejaculação feminina. Para quem não quer fazer um curso, ou não se sente confortável, um bom começo é comprar um espelho e começar a encarar a sua buceta com mais frequência. Aproveite!

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