logo AzMina

Por que estupros e abusos nas telas são um problema real?

O estupro real em "O Último Tango em Paris" e o beijinho roubado em Malhação têm muito a ver: eles armam a cama para os relacionamentos abusivos deitarem e rolarem
por Helena Bertho
9 de dezembro de 2016

Demorou pr’AzMina ter uma seção sobre filmes e séries, né?

A gente passa tanto tempo na frente das telas! E sabemos também que até mesmo o entretenimento mais bobão passa ideias e influencia, de uma forma ou de outra, nossa visão de mundo. Assim como a gente sabe que o mercado audiovisual é machista que só. Por isso, sejam todas e todos bem vindos ao “tElas”, onde falaremos de filmes e séries sem preconceito, pra problematizar o que merece ser problematizado e elogiar o que merece ser elogiado.

E pra começar, vamos de problematização.

Essa semana um dos temas dos debates voláteis das redes sociais foi que Bertolucci, diretor de “O Último Tango em Paris”, admitiu que a famosa cena “da manteiga” não foi consensual, foi  gravada sem aviso à atriz Maria Schneider do que aconteceria – traduzindo: um estupro.

Uma história que traz um monte de temas pra discussão: o fato de que a atriz já havia denunciado isso há anos, mas só agora (que um homem falou) o negócio ganhou voz; um olhar sobre como o estupro é usado e mostrado nas narrativas, muitas vezes de maneira desnecessária, e também histórias sobre como atrizes são abusadas de várias formas em gravações.

Mas sabe um negócio que me chamou muito a atenção? É que tem muita gente que ainda não sabe reconhecer um estupro quando ele aparece nas telas e nem o tamanho do problema que isso representa.

Teve site de crítica de cinema dizendo que Bertolucci admitiu que só a parte da manteiga na tal cena é que não foi avisado à atriz, portanto, não teria sido um estupro. Dá vontade de ser irônica ou fazer piada com esse tipo de comentário. Mas vamos respirar fundo: não é só esse tal site que pensa assim. Vamos então explicar direitinho o que é estupro.

Estupro é o que acontece sempre que não existe consenso, ou seja, sempre que uma das pessoas não topou  a brincadeira.

Então, meter manteiga no cu de alguém para transar sem sua autorização, é sim estupro. E um monte de outras coisas, que vira e mexe aparecem feito romance nos filmes, séries e novelas.

Na minissérie Ligações Perigosas, uma cena de estupro gerou polêmica pelo romantismo que trazia.

Sabe qual é a mais comum? O beijo não autorizado. Ele é tão comum, que muita gente acha que um beijo roubado é sinal de amor, de paixão incontrolável.

Que lindo, ele beijou sem pedir! NÃO É LINDO!
Beijo roubado em Malhação. Spoiler: eles são o par romântico e ficou tudo bem depois disso.
Beijar a princesa desacordada. TÁ SERTINHO, seu princípe!

E indo além do estupro, existem muitos outros comportamentos abusivos, que envolvem um desrespeito à vontade da mulher, que são frequentemente mostrados como românticos ou divertidos em filmes, séries e novelas.

Cena da série How I Met Your Mother, em episódio no qual os personagens usam a estratégia do “Homem Pelado” para transar com mulheres: eles as surpreendem sem roupa e, teoricamente, elas gostariam disso.

E qual o problema disso? Oras, é apenas ficção e pode mostrar qualquer coisa, não? Bem, em tese pode mesmo. Mas vale pensar sobre a mensagem que isso está passando.

Enquanto os meninos crescem achando que forçar a barra pode levar a conquistar uma mulher, meninas crescem achando que beijo roubado ou abuso podem ser, na verdade, demonstrações de afeto.

Homens acabam sendo educados para abusar, enquanto mulheres acabam sendo educadas para aceitar o abuso. E mais do que isso: se aquele beijo que eu não queria era amor, então o amor é feito de coisas que eu não quero. Se aquele sexo que me machucou era prova de amor, então o amor dói.

Pronto, assim preparamos as mulheres para aceitarem relacionamentos abusivos e violentos. 

Essa tal da cultura do estupro, ela aparece o tempo todo não é mesmo?

Apoie AzMina

AzMina alcança cada vez mais gente e já ganhou mais prêmios do que poderíamos sonhar em tão pouco tempo. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo da Revista AzMina. Mas o jornalismo investigativo que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e independente para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

AzMina é uma resposta feminista à desigualdade e ao preconceito