logo AzMina

O Oscar respondeu às acusações de racismo – mas continua machista como sempre

Hoje saiu a lista de indicados ao maior prêmio do cinema mundial e, adivinhem, os maiores prêmios são praticamente só masculinos
por Helena Bertho
24 de janeiro de 2017
Indicados ao prêmio de melhor direção: nenhuma mulher.

Chega essa época do ano e todo fã de cinema fica naquela expectativa pela lista dos indicados ao Oscar, pra poder conferir os filmes que provavelmente levarão a estatueta em que, infelizmente, ainda é a maior premiação da sétima arte. E depois das grandes polêmicas do Oscar So White (Oscar tão branco) e de toda visibilidade no feminismo ano passado, é claro que estávamos ansiosas para ver uma lista cheia de negros e mulheres. Ah, inocente!

A premiação até tentou dar uma compensada nas acusações de racismo. Temos três filmes protagonizados por negr@s concorrendo ao prêmio máximo, um diretor negro na corrida por melhor diretor, seis atores e atrizes negros (pela primeira vez, três negras concorrendo a melhor atriz coadjuvante!) e quatro indicados não brancos (um árabe e três negros, uma delas mulher)  concorrendo a melhor documentário. Ainda é pouco, bem pouco, mas comparado com mulheres…  

Nenhum dos indicados a melhor filme foi dirigido por mulher.

Um deles (“Estrelas além do tempo”) é co-escrito por uma mulher branca, Allison Schroeder. E somente esse é 100% protagonizado por mulheres.

Na categoria de direção, nenhuma mulher.

Melhor roteiro? Somente “Estrelas Além do Tempo” com a roteirista.

Melhor filme estrangeiro, também somente um dirigido por uma mulher, o alemão “Toni Erdman”, de Maren Ade.

E melhor documentário, temos apenas “13th”, da diretora Ava DuVernay. Ah! E “Fire at Sea” que, apesar de dirigido e escrito por um homem, foi idealizado por Carla Cattani (inclusive vale contar que mulheres que tentam trilhar o caminho no cinema, muitas vezes precisam ceder suas ideias para homens as executarem somente pelo sonho de poderem vê-las saírem do papel).

Isso porque eu só chequei os créditos dos indicados nessas categorias, não consegui olhar todas as categorias técnicas, de animação e curta-metragem.

E lembrando que essa lista sai logo depois de um estudo do Centro de Estudo das Mulheres na Televisão e Cinema divulgar que em 2016, somente 7% dos 250 maiores filmes de 2016 foram assinados por mulheres, 2% a menos que no ano anterior .

Mas, ah! Helena, pare de ser chata! O Oscar premia os melhores trabalhos. Que culpa eles têm se não tiveram bons trabalhos de mulheres concorrendo? A função da premiação não é ter uma ideologia. – vocês me diriam. Bem, e eu venho contar que este é um desses pensamentos fáceis que se alimenta por aí e que dá base para que o machismo continue existindo.

Mas vamos começar pelo começo.

Por que é importante ter filmes sobre mulheres e feitos por mulheres?

Representatividade. Essa é a palavrinha chave aqui. Se fala muito dela por aí, mas pelo visto ainda é preciso falar mais né? O cinema – e toda a cultura –  tem um poder enorme de construir o nosso imaginário. Ele cria estereótipos, reforça comportamentos, dita modas e difunde ideias. Quando uma menina cresce vendo em filmes que as esposas ficam em casa fazendo o jantar e sonhando com o grande amor, enquanto os maridos salvam o mundo ou vivem grandes questões profissionais ou políticas, essa menina pode crescer com a ideia de que seu lugar é dentro de casa, enquanto o do seu irmão ou o do seu futuro parceiro pode ser em muitos outros lugares.

Além disso, é muito importante poder se ver nas histórias que você ouve/assiste. Imagine como é para uma criança negra, que raramente se vê nos filmes e, quando isso acontece, está no papel de empregada doméstica. O que ela vai acreditar que pode ser na vida?

Octavia Spencer, Viola Davis e Naomie Harris: pela primeira vez, três indicadas negras na mesma categoria da premiação.

O cinema também tem um papel importante em reforçar a tão falada cultura do estupro.

Ao mostrar com muita frequência as personagens femininas como objetos de desejo, exercendo unicamente a função de excitar os homens, dentro e fora do filme, as produções reforçam para o público a tal ideia de que a mulher é um objeto cuja função é satisfazer o homem, sem papel ativo nisso tudo (isso você pode entender melhor nesse texto aqui).

É sim muito importante que a cultura de massa, e portanto o cinema, mostre que existem  diferentes tipos de mulheres (negras, gordas, trans, cis, cegas, latinas, o que for) e mostre-as ocupando os diferentes papéis que podem ocupar na sociedade. Que essas mulheres podem ser mais do que empregadas domésticas, esposas, namoradas ou sensuais.

Por isso, é importante que existam filmes sobre mulheres e que não sejam apenas comédias românticas.

Mas aí é que vem outro pulo do gato. Um outro estudo do Centro de Estudos da Mulher em Filmes e Televisão mostrou que filmes com mulheres roteiristas ou diretoras, têm 50% mais chances de ter uma protagonista feminina. E é claro que se a pessoa que conta a história for uma mulher, é muito mais provável que ela não coloque as personagens em papel de objeto.

Sem falar que, como qualquer outra área profissional, o cinema ainda é muito desigual e precisa que exista uma equiparação da quantidade de mulheres nos cargos e também nos salários.

Ok. Mas e o que o Oscar tem a ver com isso?

Helena, até aqui eu entendi e até concordo. Mas o que o Oscar tem a ver com isso? Ele é apenas uma premiação. A indústria é ruim e desigual, a gente sabe, mas ele premia essa indústria, fazer o quê? E o foco desse prêmio é a qualidade dos filmes e não a composição das equipes, ou respeito a direitos humanos nas produções. Não é um prêmio ideológico.

Primeiro de tudo, vamos questionar: o que é qualidade? Quem diz o que é qualidade? Existe uma grande academia de profissionais e críticos de cinema, os jurados do prêmio, que dão suas opiniões, baseadas em muito estudo e experiência, e que votam para definir os vencedores. Por mais técnica que seja a decisão, por mais que eles entendam do assunto, é inevitável que suas opiniões e valores acabem refletindo nas escolhas. E quem são esses jurados?

Os membros da academia, que são na sua maioria homens brancos (27% da academia são mulheres e 11% pessoas não brancas). No ano passado, a Academia ouviu as críticas e convidou mais de 600 novos membros, chegando a essas porcentagens, mas ainda não chegou ao ideal.

É claro que se poucos filmes são feitos por mulheres e protagonizados por mulheres, mesmo que a Academia seja perfeita, vai ser difícil que esses filmes preencham todas as categorias. Mas daí fica uma questão: será que a instituição da Academia, considerando toda sua importância em ratificar e fomentar essa indústria, não deveria estimular a igualdade de gênero no mercado e nas produções? Estou falando sim de cotas ou de categorias específicas para isso.

Afinal, premiando como premia hoje, ela está estimulando que a indústria do cinema continue exatamente como é: machista. E isso também é uma ideologia.

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente e já ganhou mais prêmios do que poderíamos sonhar em tão pouco tempo. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo investigativo que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e independente para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

AzMina é uma resposta feminista à desigualdade e ao preconceito