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Fazer cocô: um tabu feminino

As estimativas são de que, no mundo ocidental, a cada cinco mulheres, três têm prisão de ventre. “Os hábitos de higiene e a vivência da sexualidade, de modo geral, sempre foram mais rigorosos com as mulheres”, diz a psicanalista Beth Mori.
por Carolina Vicentin
26 de fevereiro de 2018
Foto: Gabor Monori/ Unsplash

Fim de tarde na repartição. O sujeito tira da mochila uma sacolinha de supermercado e, gentil, oferece uma das frutas às colegas. “É ameixa. Tá docinha. E faz bem pra vocês”, diz ele. Diante de um certo clima de timidez, ele emenda: “Mulheres têm problemas para ir ao banheiro, não?”

Médicos gastroenterologistas, que cuidam da saúde do aparelho digestivo, e coloproctologistas, especializados em doenças do intestino, colo e ânus, dizem que sim. As estimativas são de que, no mundo ocidental, a cada cinco mulheres, três têm prisão de ventre.

Em 2012, uma pesquisa da Federação Brasileira de Gastroenterologia trouxe mais detalhes sobre o problema em território nacional. Das 3.029 entrevistadas em nove capitais e no Distrito Federal, 66% (ou 2 mil) declararam ter problemas intestinais, entre eles, gases, inchaço, sensação de peso e prisão de ventre. É uma multidão, literalmente, enfezada.

A constipação – o termo técnico para prisão de ventre – se caracteriza por sintomas como dificuldade para fazer cocô, sensação de evacuação incompleta e fezes endurecidas ou ressecadas em, ao menos, 25% das idas ao banheiro durante um período de seis meses. “A frequência das evacuações, em si, pode ser muito variável, de três vezes ao dia a três vezes na semana”, explica o gastroenterologista Eduardo Usuy.

“Às vezes, a pessoa vai ao banheiro a cada dois ou três dias, mas evacua com rapidez e se sente aliviada. As fezes saem inteiras, sem nenhum desconforto. Isso é muito mais saudável do que alguém que vai ao banheiro todo dia, mas sempre com dificuldades”, detalha.

Mulheres são vítimas preferenciais da constipação devido à ação dos hormônios femininos – em especial a progesterona, que age mensalmente no corpo para prepara-lo para receber o óvulo fecundado. “Os mecanismos ainda não são muito compreendidos, mas o fato de a prisão de ventre ser uma queixa comum nos dias que antecedem a menstruação, quando os níveis de progesterona são maiores, sustenta a hipótese de que esse hormônio é o grande vilão da história”, afirma o ginecologista Bruno Ramalho.

“Na TPM, chego a ficar uma semana sem ir ao banheiro. Quando a menstruação chega, porém, meu organismo dá uma ‘limpada’, consigo fazer até duas vezes ao dia”, relata a secretária Lia*, 39 anos.

É por conta dos efeitos da progesterona que cerca de 30% das grávidas sofrem com a prisão de ventre. Na gestação, os níveis desse hormônio sobem muito, para garantir que o embrião permaneça fixado ao útero. Há também o aparecimento da relaxina, hormônio produzido pela placenta, que também contribui para a vagareza do intestino nessa fase.

“Eu fazia cocô duas vezes ao dia antes de engravidar e não conseguia entender como as minhas amigas tinham prisão de ventre. Depois da minha primeira gestação, nunca mais fui a mesma”, lamenta a jornalista Daniela*, 32 anos. “Hoje, eu tento usar algumas estratégias, como tomar suco de couve ou comer mamão, mas, ainda assim, é uma luta”, conta.

Mente travada, corpo travado

As causas da constipação, contudo, vão muito além da fisiologia do corpo feminino e, em grande parte dos casos, têm raízes psicológicas e emocionais. “Meu intestino é doméstico. Só funciona na minha casa”, afirma a servidora pública Elena*, 28 anos, que tem dificuldade para fazer cocô até mesmo no banheiro do hotel, em viagens. “Na primeira vez em que viajei com meu marido, ainda como namorado, depois de quatro dias, ele perguntou: você não caga, não?”, lembra ela, aos risos.

Fazer as necessidades fora de casa é praticamente um tabu entre as mulheres. Das seis entrevistadas para esta reportagem, todas se declararam desconfortáveis em evacuar em banheiros alheios – por mais limpos que sejam – e três disseram que só fazem no conforto do lar.

“Quando eu me casei, fiquei mais de um mês voltando à casa da minha mãe sempre que queria fazer cocô, até me adaptar ao meu novo ambiente”, lembra Lia. A secretária também já perdeu a conta de quantas vezes saiu no meio do expediente para ir se aliviar em casa – por sorte, mora relativamente perto do trabalho.

Mas, afinal, qual é o problema, se todo mundo caga?

“Tenho medo de feder. De acabar o papel”, diz a empresária Joana*, 36 anos. “A nossa cultura coloca a evacuação como algo sujo, repulsivo, que deve ser escondido dentro de casa. Esse tipo de preconceito é uma das causas da constipação”, afirma o gastroenterologista Eduardo.

A psicanalista Beth Mori lembra que esse tipo de bloqueio tem relação, inclusive, com o machismo enraizado na sociedade. “A menina é estimulada, desde sempre, a não expor publicamente seu corpo, a cuidar da sua área genital de maneira muito mais reservada do que o menino”, contextualiza. “Os hábitos de higiene e a vivência da sexualidade, de modo geral, sempre foram mais rigorosos com as mulheres”, acrescenta ela, membro da Sociedade de Psicanálise de Brasília.

O efeito da bomba

No desespero e depois de muitos dias sem ir ao banheiro, muitas mulheres acabam recorrendo ao uso de laxantes. A prática, sem acompanhamento médico, é arriscada: pode fazer com que o organismo “se vicie” no medicamento ou, até mesmo, com que a pessoa passe por situações ainda mais desconfortáveis.

Que o diga a servidora pública Dora*, 58 anos. Em 1997, ela sobreviveu a um acidente grave, que deixou sequelas psicológicas. Ainda em choque, ela tinha pesadelos e crises de insônia.

“Nos dias seguintes, eu simplesmente parei de prestar atenção ao meu corpo e, quando me dei conta, devia estar há quase uma semana sem ir ao banheiro”, lembra ela. Decidida a resolver a questão, a servidora pública tomou um laxante. “O problema foi que, quando aquilo veio, foi como uma bomba, rasgando tudo e deixando um rastro enorme de sangue na privada. Nem para parir foi tão sofrido”, conta ela, hoje com bom humor.

Dora teve o que os especialistas chamam de fecaloma, quando a fezes endurecem de tal forma que é preciso fazer uma lavagem intestinal para desobstruir o canal.

O que fazer, então, para não chegar a esse ponto?

Os especialistas enumeram três aspectos que contribuem para o melhor funcionamento do intestino: ingestão de alimentos ricos em fibras, atividade física e consumo de água. “Infelizmente, não há uma solução definitiva para a prisão de ventre. Quem tem o problema precisa estar sempre vigilante”, diz Eduardo Usuy.

“É um saco ter que ficar colocando farelo de trigo na comida”, desabafa a servidora pública Elena. O farelo de trigo é rico em fibras e muito indicado por nutricionistas para quem sofre com o problema. Elena também reclama das restrições alimentares. “Eu adoro banana, mas, se comer demais, certeza que ficarei quatro ou cinco dias sem fazer cocô”, diz.

Além dos cuidados com a alimentação, o consumo de água e a prática de exercícios físicos, Eduardo recomenda que todos, mulheres e homens, prestem mais atenção ao cocô. O formato, a consistência e a cor (veja quadro) podem indicar problemas mais sérios.

“Acho que todo mundo com um comportamento ‘anormal’ do intestino deve procurar ajuda médica”, defende a jornalista Aline Teles, 35 anos, que sofre com a prisão de ventre desde que era menina. De uma hora para a outra, ela passou a ter diarreias intensas e, ao investigar a causa, descobriu que tinha retocolite ulcerativa, uma doença inflamatória na região do intestino e do cólon.

Finalmente, o “não cocô” também pode dizer muito sobre nós mesmas. “A moral, a vergonha, o nojo são aspectos que se constituem no processo educativo, de formação”, lembra a psicanalista Beth Mori. Pensar analiticamente sobre isso pode ser uma forma de autoconhecimento e também de lidar com muitas questões do dia-a-dia.

*nomes fictícios a pedido das entrevistadas.

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