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Descendentes de rainhas: uma marca para as negras

Mulher forte da realeza angolana, Nzinga serve de inspiração pra uma marca que não quer só vestir, quer empoderar
por Ana Paula Lisboa
26 de abril de 2016
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Foto: Divulgação

Luana, 22 anos, filha de pai angolano e mãe brasileira, viveu três anos na África e trouxe na bagagem as questões da mulher preta contemporânea. Rosana, 24 anos, daquelas mulheres pretas que sempre precisaram trabalhar, mas largou tudo pra finalmente trabalhar com o que gostava. As duas se juntaram para, através de peças de roupas, falarem de empoderamento, ancestralidade e potência feminina.

Em 20 de novembro de 2015, essas duas minas pretas moradoras de São Gonçalo, cidade da região metropolitana do Rio com mais de 300 mil habitantes, lançaram a marca de roupas Nzinga. O tombamento foi instantâneo! Em bate-papo com AzMina, elas falam sobre moda, raça e poder. Confira!

AzMina: O que quer dizer Nzinga e porque vocês escolheram esse nome?

Luana: Nzinga foi uma rainha angolana, guerreira, que conseguiu evitar a ocupação do território dela pelos portugueses por mais de 40 anos, usando uma série de estratégias. Ela é um símbolo de luta nacional em Angola.

Quando a gente resolveu criar a marca, queríamos algo que representasse tudo que a gente pensava: a figura feminina, a força, a potência, a ligação com a África.

Nzinga inverteu a lógica de submissão que seu povo e ela passavam e é essa a lógica que a gente quer reverter com a marca, de que não é fácil ser mulher negra, mas é possível!

AzMina: Vocês já eram duas minas do mundo: uma produtora e uma maquiadora. Por que investir num afro empreendimento? Existiu algum desejo de partida?

Lu: É um momento em que não consigo me pensar gastando energia em algo que não fale do meu contexto: mulher, negra, de periferia. A Nzinga conseguiu materializar o que eu sou subjetivamente, e trazer outras questões, que falam a todas as mulheres.

Quando você empreende você coloca um pouco do que você é e do que você quer ver. E o que eu queria ver eram outras mulheres negras representadas num lugar de criadoras.

Rosana: Já eu tinha muita vontade de empreender, desde larguei o emprego para me tornar maquiadora. Não tenho mais vontade voltar pro mercado de trabalho formal e como já sou ligada a moda e beleza, meu maior desejo era empreender em um negócio feminino.

Aí sondei a Lu sobre a possibilidade da gente entrar nisso juntas. Por que não fazer roupas? Já possuía uma rede próxima, a tia da Lu era costureira… Na hora, a gente ficou muito animada, depois bateu umas “bads”, a gente viu que não seria tão fácil assim, que era complexo produzir e montar uma marca do zero. Até agora a gente está experimentando, mas tem certeza de que é isso que a gente quer: uma marca feita por mulheres negras, para mulheres negras.                                                                             

AzMina: Pra começar qualquer coisa, às vezes, as redes são ainda mais importantes que o dinheiro: as redes de afeto, as pessoas com habilidades que a gente não tem. Quais foram essas primeiras redes de vocês?

Rosana: A gente achou que tinha analisado bem todo o trabalho que teríamos, o que seria terceirizado, o que a gente daria conta de fazer. Aí vimos que o trabalho seria ainda muito maior! Todo o processo de criação, modelagem, corte, acabamento. Depois viria o marketing, a rede pra divulgar. Ficamos muito perdidas, mas uma coisa sabíamos:

a gente queria envolver mulheres negras em todos os processos, desde a criação até o marketing. Fora as modelos, que claro, teriam que ser negras.

Então, começamos a mapear nas nossas redes quem poderia ajudar, quem já trabalhava com moda, quem poderia modelar, quem já fazia gestão de redes, marketing. Depois a gente foi conversar com as pessoas, apresentar o projeto, e todo mundo ficou apaixonado, conseguimos muita coisa num preço baratíssimo ou no amor. E a maioria dos membros dessa rede era mulher e negra.

AzMina: Existe um mito machista da competição feminina, como se a gente estivesse o tempo inteiro tentando derrubar uma à outra. Como é pra vocês ser sócia e ser amiga e como isso influência na produção da Nzinga?

Luana: A gente está aqui uma do lado da outra, não dá nem pra falar mal… (risos). É muito difícil, mas não pelo fato dela ser mulher, mas porque nós somos muito diferentes uma da outra. Entendemos que essa diferença não é um problema e sim uma complementação. O que eu tenho faltando, a Rô tem sobrando e vice e versa. Eu sou pisciana e ela é aquariana, esse é o melhor exemplo que eu consigo dar (risos).

Antes da Nzinga existir a gente já era amiga. E temos um acordo de que a Nzinga nunca vai ser maior que isso, se não, não tem sentido.

Somos duas filhas únicas, que num momento da vida se encontraram e viraram irmãs. Não é discurso bonito, é real, eu conto com a Rô em vários momentos da minha vida, mesmo com toda a “cavalice” dela. (muitos risos)

AzMina: Quando a gente cria um projeto, seja lá do que for, tem que pensar o que quer ser quando crescer, né? Então, onde vocês querem chegar?

Luana: O nosso slogan é:

“A moda como uma ferramenta de empoderamento.”

Então, hoje, apesar da Nzinga ser uma marca de roupa, a gente não quer só isso, a gente não quer impactar a vida da mulher negra tendo ela só como clientes. A gente quer que ela esteja dentro do processo e se identifique. Que a Nzinga impacte a vida da minha tia, que é costureira da marca, por exemplo, exercendo a potência dela.

Rosana: A gente quer atingir mulheres em muitas dimensões, dar acessibilidade a essa moda afro que tanto se fala, que tanto se mostra, mas que ainda é inalcançável.

A gente vê marcas “afros” com valores absurdos. Queremos então chegar nessas outras mulheres porque moda também é informação, empoderamento.

A longo prazo, a gente quer ser referência como uma marca de beleza e moda afro. Tanto na representatividade quanto no pensar essas mulheres negras, porque nada da gente é produzido sem pensar essa mulher: o corpo dela, a cor, o que cai bem… Queremos que quando se pensar em vestir uma mulher negra, se pense em Nzinga! Quando se pensar em alguma marca que represente a mulher negra, se pense em Nzinga!

Conheça mais sobre a Nzinga aqui:

https://www.facebook.com/nzingamodaafro/?fref=ts

ou aqui:

http://www.voudenzinga.com.br/

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