logo AzMina

Contra autoritarismo, mulheres relatam torturas sofridas na ditadura

Para Glenda Mezarobba, da Comissão Nacional da Verdade, as violações contra mulheres durante o regime militar são “o aspecto menos conhecido e mais negado da ditadura militar”.
por Maria Martha Bruno
22 de abril de 2018

Nunca imaginei que a gente estaria conversando sobre isso em 2018”, diz Marcia Bassetto, doutoranda de História Social da USP, presa e torturada durante quatro meses em São Paulo, em 1977, durante a ditadura militar. “Nunca imaginei que veria gente batendo panela e dizendo que tem saudade dos militares. E isso não quer dizer que eu seja a favor da corrupção. Mas a onda conservadora no mundo e no Brasil está pegando pesado”, completa. Marcia carrega em sua própria história as consequências de práticas defendidas pelo ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro, líder nas pesquisas presidenciais após a prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Marcia afirma que chegou a temer um novo golpe após mensagem do comandante do Exército Brasileiro, General Eduardo Villas Boas, publicada na véspera do julgamento do habeas corpus de Lula, no início de abril. No post, ele se dizia “atento às suas missões institucionais” e compartilhava “com cidadãos de bem” o “repúdio à impunidade”. Interpretadas por alguns como intimidação ao Supremo Tribunal Federal, as palavras foram aplaudidas por outros militares e por juristas como o juiz Marcelo Brêtas, responsável pela Lava-Jato no Rio de Janeiro. “Essa ameaça de golpe militar ainda está em pauta. O medo continua. O que houve em 1964 também não foi de uma hora para outra. A democracia brasileira é muito entre aspas”, alerta Marcia Bassetto, que também é pesquisadora da Comissão da Verdade da USP.

Para Eleonora Menicucci, presa entre 1971 e 1974, “a direita fascista não está brincando”. Ela e sua filha, ainda de fraldas, foram torturadas na sede do Exército, em São Paulo. A feminista de 73 anos, ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres no governo de Dilma Rousseff, afirma que se sente atingida pelo autoritarismo junto com a ex-presidenta e com políticas mais jovens, como Marielle Franco: “Mais do que nunca, mexeu com uma, mexeu com todas. Fomos todas executadas com a Marielle e todas sofremos o golpe com a Dilma, porque ele foi misógino também”.

Segurança pública e o discurso autoritário

Professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul  e membro do Laboratório de Usos Políticos do Passado, Caroline Bauer acredita que o país vive um “exacerbação do discurso autoritário, que ganha muita legitimidade frente à proliferação das narrativas de ódio”. Ela identifica o autoritarismo como um problema histórico no Brasil: “Tivemos períodos muito curtos de democracia, insuficientes para a conformação de uma cultura efetivamente democrática”.

A simplificação do debate sobre a segurança pública é um dos fatores que ajudam o discurso autoritário a ganhar força junto à sociedade civil, em sua opinião: “São necessárias medidas urgentes para a segurança. No entanto, é preciso entender que o debate extrapola a questão da repressão. Se não houver outras iniciativas conjuntas, como políticas educacionais, de habitação, de pleno emprego, e de descriminalização das drogas, a população, de forma geral, continuará pensando que a solução é o encarceramento ou o extermínio do outro”.

No último 31 março, no aniversário de golpe militar, cerca de 500 pessoas interditaram a Avenida Paulista, em São Paulo, por mais de 4 horas para exaltar o regime ditatorial e cobrar nova intervenção das forças armadas. Vestido de verde, amarelo e fardas, o grupo comemorava os 54 anos do início da ditadura. “Não devemos tolerar eleições nesse país. As urnas são fraudáveis, existe uma corja de políticos e não devemos acreditar neles!”, esbravejava no microfone um dos homens.

Mulheres com Bolsonaro

No Brasil de 2018, não é difícil encontrar apoiadoras de Bolsonaro e defensoras de uma nova intervenção militar. Para Glenda Mezarobba, coordenadora do grupo de trabalho “Ditadura e Gênero” da Comissão Nacional da Verdade, as violações contra mulheres durante o regime são “o aspecto menos conhecido e mais negado da ditadura militar”. A pesquisa ajudou a revelar a névoa que ainda encobre a questão dos direitos das mulheres do país: “Muitas vítimas não tinham clareza de que foram alvo de violência sexual. Há um desconhecimento dos direitos humanos na sociedade brasileira. Ficou evidente nos relatos e debates que muitas não sabiam que qualquer manipulação do corpo sem consentimento é uma violência sexual”.

O desconhecimento ou a falta de compreensão do significado daquelas violações podem ajudar a explicar o apoio feminino às pautas autoritárias, na opinião de Karen Keilt, americana presa e torturada em 1976 em São Paulo, aos 23 anos. “Mulheres que prestam este tipo de apoio só podem ser muito jovens para entender o impacto terrível que suas vidas sofreriam. Seria um retrocesso imenso para nós. Atualmente, com a tecnologia, nossa privacidade também seria invadida, bem como nossos movimentos controlados”, alerta.

Assim como Marcia Bassetto e Eleonora Menicucci, Karen foi ouvida pela Comissão Nacional da Verdade. No duro reencontro com o passado do Brasil, descobriu que seu pai trabalhava para a CIA e estava envolvido com os militares brasileiros durante o regime. Karen acredita que ele inclusive possa ter treinado alguns deles nos mecanismos de tortura dos quais ela própria foi vítima. Hoje, ela vive no estado americano do Arizona e só teve coragem de voltar a visitar o Brasil em novembro do ano passado.

O lugar do feminismo e dos militares

Glenda Mezarobba conduziu parte do diálogo com as Forças Armadas durante os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. Ela acredita que os militares têm um papel relevante a desempenhar na construção de um país melhor, mas somente em um governo eleito pelo povo, que respeita a Constituição e o Estado de Direito. “Candidatos que defendem a tortura e fazem apologia ao estupro não reconhecem a dignidade da pessoa humana como valor universal, são incapazes de observar as regras do jogo democrático e, portanto, de governar de acordo com elas”. Segundo levantamento realizado pelo site Poder 360, há 49 pré-candidatos militares para as eleições de 2018 em todo o país.

Em tempos de incerteza para as forças progressistas do país, Eleonora Menicucci enxerga o feminismo como a principal força contra o avanço do autoritarismo. “Nossa agenda hoje unifica as esquerdas e os movimentos sociais. Não se faz mais política sem o combate incessante a todas as formas de violência contra as mulheres, sejam hétero, trans, lésbicas e de qualquer raça”. Aos 73 anos, ela se diz otimista diante do futuro. “Se eu fosse pessimista já estaria descansando ou viajando por aí. Mas eu tô na rua, eu tô na luta”.

(Com informações da Ponte)

Apoie AzMina

AzMina alcança cada vez mais gente e já ganhou mais prêmios do que poderíamos sonhar em tão pouco tempo. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo da Revista AzMina. Mas o jornalismo investigativo que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e independente para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

AzMina é uma resposta feminista à desigualdade e ao preconceito