logo AzMina

Como manter a luta viva após o assassinato de Marielle?

Luisa Toller conversou com artistas, militantes do movimento negro, do MTST, deputadas e ativistas
por Luisa Toller
26 de março de 2018
Crédito Gibran Mendes

Como manter a luta viva após o assassinato de Marielle Franco?

Para responder essa questão, AzMina conversou com artistas, militantes do movimento negro, do MTST, deputadas e ativistas. Essas mulheres falaram sobre genocídio da população negra, projetos de lei, frente antifascista, representatividade e resistência para os dias que virão.

 

Dani Nega

Atriz e MC

Para manter a luta de Marielle viva é preciso reconhecer que o genocídio da população negra acontece há mais de 500 anos, independente dos golpes de estado. É preciso admitir que o estado democrático de direito herdou o racismo do perídio Brasil-colônia e o perpetrou até os dias de hoje. É preciso enxergar que a nossa democracia é racista e genocida.

 

Maria do Rosário

professora e Deputada Federal pelo Rio Grande do Sul

‘Quem cala sobre teu corpo consente na tua morte’. As mulheres não pretendem calar sobre o corpo de Marielle. Essa violência grita tão alto que torna-se síntese das injustiças e opressões de raça, gênero, orientação sexual, classe e território que constituem o Brasil. Somos nós, mulheres, que mais precisamos lutar para que das periferias urbanas ou do interior do país, meninas negras afirmem seu protagonismo. Os movimentos de mulheres e feministas, as organizações populares e mandatos conquistados com estes compromissos, devem selar um pacto com este objetivo, sob direção das mulheres negras. Mas centralmente precisamos de uma frente antifascista para o Brasil. Que enfrente a propagação do ódio em todos os sentidos, a violência do estado, os procedimentos de exceção de sua parte, a perseguição política e os fundamentalismos de qualquer espécie. Uma frente antifascista pelos direitos humanos e democracia.

 

Claudia Garcez

Coordenadora do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)

Acredito que a única forma da luta da Marielle continuar viva é fazermos o enfrentamento com muita coragem da forma com que ela fazia. Buscar conhecimento como ela buscou, buscar o espaço na política. Ela ousou, foi além, rompeu com essa barreira, esse muro que torna a periferia e os morros do Rio invisíveis e sem voz para a nossa sociedade. Ela denunciou os abusos e fez tudo com muita coragem. Embora exista o medo, a gente ganha força! Nos sentimos afetados com a morte dela, parece que a gente perdeu alguém da nossa família. Perdeu uma irmã de luta que nos representava, que representava o povo pobre e preto de periferia. Era uma mulher que ganhou seu espaço na política e usava dele com toda legitimidade, então acredito que a coragem de fazer o enfrentamento como ela fez é que vai perpetuar a luta da Marielle. Fora de série, um exemplo lindo, perdemos ela de uma forma muito triste, mas ela vive para sempre no nosso coração.

 

Stephanie Ribeiro

ativista feminista negra e estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC Campinas

Acredito que para manter vivos os ideais e a presença da Marielle politicamente e socialmente em nossas vidas de fato, é preciso realmente ter coragem de ir para a linha de frente pelos socialmente oprimidos. Você está disposto?

E se sim, para mim é necessário usar de fato as ferramentas da interseccionalidade. Quando a gente diz “Marielle, presente”, e ignora a interseccionalidade como uma ferramenta que temos que usar em nossa sociedade, para de fato rompermos as estruturas opressoras para todos, não estamos mantendo a memória de Marielle e de tantas mulheres negras que morreram pelo que eram e pelos seus ideias. Na atual conjuntura não é possível mais nos negarmos a ir fundo pelo fim do racismo, sexismo, transfobia, classismo, que são pilares fundadores dessa sociedade e que atuam conjuntamente para a manutenção dela da forma como está. Como eu disse, falar sobre isso e até mesmo constatar esse fato me parece algo já dado, a questão é: quem está disposto a colocar a mão na massa para romper com tudo isso e construir um mundo onde é possível, por exemplo, que uma mulher negra assuma um cargo como o de vereadora e não seja executada de forma brutal para ser silenciada?

Vejo que atualmente, apenas aqueles que também sofrem as opressões literalmente na pele estão caminhando na linha de frente dessa luta. E isso não faz sentido, já somos mais vulneráveis e continuamos tendo nossa vulnerabilidade como escudo enquanto os que detêm privilégios se confortam com eles.

 

Keka Bagno

Integrante do Diretório Nacional do PSOL

A dor que não se cura. A dor da resistência. A dor coletiva. A dor que se transforma em luta. As dores que levaram milhares de pessoas as ruas na última quinta-feira (15/03) após a execução de Marielle. Uma semana após o 8 de Março e durante os 21 dias de Ativismo Contra o Racismo.

A brutalidade na execução é a resposta à luta por liberdade. Mas não sabiam que somos muitas. Não sabiam que a Marielle era porta vez de tantas mulheres negras, lésbicas e faveladas como ela. Suas identidades constituíram uma mulher poderosa. Inspiração de tantas outras. De sorriso encantador, de fala firme, Marielle mostrou que é possível transformar. É possível ocuparmos espaços hegemonicamente brancos, de homens e elitistas. Marielle incomoda, pois luta para que nós estejamos nesses espaços excludentes. E estaremos!

Seu assassinato por aqueles que matam nossa carne e nossos sonhos, se propaga em resistência. Nós resistiremos pela sua existência. Não deixaremos o medo tomar de conta dos espaços que tantas mulheres negras, que Marielle conquistou. Nosso luto se transforma em luta. Não arredaremos o pé. Eles não sabiam, mas nós sabemos que somos muitas.

 

Luciana Boiteux

Professora da UFRJ filiada ao PSOL

Pra mim não tem outro mecanismo senão fortalecer a luta das mulheres, das mulheres negras, das mulheres negras da favela, no sentido da política da ocupação de todos os espaços. Ela foi alvejada porque ocupou um espaço que a ordem não considera que seria dela, o espaço do poder instituído. Mas ela era só uma. A gente tem que ter muitas Marielles na política ocupando os espaços, muitas mulheres. Então acho que a curto prazo seria apoiar e tocar, exigir que tantos projetos que ela fez aqui no Rio de Janeiro tão importantes, que se consiga aprovar esses projetos de lei lá na câmara. E a médio prazo construir e fortalecer candidaturas de mulheres como ela. Ou a gente vai fazer isso ou não vai mudar. Enquanto nós não tivermos as mulheres negras ocupando esse poder não haverá condições de ser transformador.

 

Elisa Lucinda

Poetisa, jornalista, cantora e atriz

Marielle era uma mulher tribo. E como ela era síntese de uma multidão, ela acordou a multidão. Sua execução acordou a multidão.

Apoie AzMina

AzMina alcança cada vez mais gente e já ganhou mais prêmios do que poderíamos sonhar em tão pouco tempo. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo da Revista AzMina. Mas o jornalismo investigativo que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e independente para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

AzMina é uma resposta feminista à desigualdade e ao preconceito