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“São homens comuns”, diz pesquisadora indiana que entrevistou 100 estupradores

Tentando entender o que se passa pela cabeça de um estuprador, Madhumita Pandey entrevistou 100 detentos em Nova Delhi
por Veronica Deviá
2 de abril de 2018
Foto: Helena Wolfenson

Movida pela vontade de entender o que se passa pela cabeça de um estuprador, a pesquisadora indiana Madhumita Pandey entrevistou 100 detentos no Presídio Central Tihar em Nova Delhi, na Índia, no ano passado. Como parte da pesquisa para seu doutorado na Universidade Anglia Ruskin, na Inglaterra, ouviu histórias de vida e conversou com cada um sobre suas acusações de violência contra a mulher.

“Os entrevistados não conseguiam entender a gravidade dos seus atos e passaram grande parte do tempo justificando o que aconteceu”, conta. Ela chegou a uma conclusão que vai contra o senso comum: “Continuamos afirmando que esse tipo de criminoso é doentio, mas as minhas entrevistas mostram justamente o contrário: são homens comuns”. Em conversa com a Revista AzMina, ela detalhou os seus resultados de pesquisa e comentou sobre a situação das mulheres indianas.

Revista AzMina: Como surgiu a ideia de ir falar com criminosos que cumpriam pena por estupro?

Madhumita Pandey: Eu fazia mestrado em psicologia na Inglaterra e voltei de férias para Nova Delhi, minha cidade natal, logo após o caso do estupro coletivo em 2012. A atmosfera estava diferente, todos estavam preocupados e enfurecidos. Meus pais pediam para que eu não saísse na rua sozinha e evitasse encontrar os meus amigos à noite. De repente, a violência contra a mulher se tornou parte das conversas e do debate nacional, mas não é que antes a Índia não tivesse esse problema, apenas ninguém falava sobre isso. A atenção dada ao tema me impulsionou a começar a pesquisar para o meu doutorado na área de criminologia. Inicialmente eu queria pesquisar a saúde mental dos prisioneiros, mas depois do caso eu quis entender a perspectiva dos criminosos.

E como foi estar dentro da prisão frente a frente com esses homens?

A visão que nós, que estamos de fora, temos de uma prisão é muito diferente do ambiente social que estamos acostumados. É difícil dizer se as pessoas ali estão agindo de forma natural ou não, quanto daquilo é real ou por causa daquele ambiente. Eu não conhecia aqueles homens então tudo que me restava era ouvi-los. Além disso, eu não tinha como verificar as histórias que eles me contavam ou saber se eram verdade, eu não sabia se eles diziam o que achavam que eu queria ouvir e, principalmente, se eram versões que eles davam para parecer diferentes. Também era impossível saber se tudo isso se dava ao fato de eu ser mulher.

 

Qual foi sua reação às histórias dos criminosos?

Muitas coisas têm que estar sob controle numa situação como essa. Toda vez que eu entrava para uma entrevista eu dizia para mim mesma “Esses são homens que cometeram crimes contra mulheres — mulheres como eu, como as mulheres que eu conheço –, e foram condenados. Então não tem como eu saber se eles realmente cometeram, mas eu não sou o juiz que irá julgá-los e decidir se são culpados. São histórias de homens que cometeram violações”. Mas a cada vez eu ficava muito surpresa com a calma com a qual eles davam todos os detalhes dos crimes.

 

Teve algum caso em especial que chamou sua atenção?

O participante 49 estava preso sob a acusação de ter estuprado uma menina de cinco anos. A sua fala não tinha remorso pelo ato, mas por saber que por sua culpa ela não seria capaz de encontrar um marido. Ele chegou até a oferecer à família se casar, pedindo desculpas por tê-la “sujado”. Mas ele não conseguia perceber a gravidade do que tinha feito. Ele se perguntava porque ela não o tinha impedido já que o que ele cometeu era supostamente ruim. Nem de longe passou pela cabeça desse homem que ela tinha que consentir — além do fato, claro, de ela ser uma criança. Eu sentia a dor dessa menina e ficava imaginando que eu era sortuda por não estar no lugar dela, sabendo que estou numa cidade em que tantas mulheres já passaram pela mesma coisa.

 

O que isso diz sobre a nossa sociedade?

Além de ser muito difícil ouvir essas histórias, eu ficava pensando como é normal para tantos homens pensarem que o que eles fizeram não tem problema, como eles consideravam seus atos corriqueiros. Nas entrevistas, o mais intrigante é que eles sempre encontravam uma forma de se colocar no papel de vítimas da situação: as mulheres tinham sido mau caráter, elas tinham dado alguma brecha. Eles passavam a maior parte do tempo justificando suas ações.

O mais revelador é que esses homens adultos não conseguem entender que o que eles fizeram é profundamente errado.

Continuamos afirmando que esse tipo de criminoso está à margem da sociedade, que são casos isolados de pessoas doentias com comportamentos extremos. Mas as minhas entrevistas mostram justamente o contrário. Conhecendo a fundo suas histórias — da infância até a vida adulta — pude perceber como todos eram pessoas médias: tinham família, frequentaram a escola, enfrentaram problemas comuns do dia-a-dia… Nada em suas vidas poderia indicar que eles seriam criminosos. Até o momento em que eles foram pegos cometendo o crime. Mas quem tem que conviver com essa vergonha e esse trauma é a vítima porque a nossa sociedade a culpa.

 

Como você acredita que a sua pesquisa possa mudar alguma coisa?

Isso é um problema no mundo inteiro, não apenas na Índia. É difícil aceitarmos que nossa própria sociedade está fazendo com que isso aconteça, que crianças sejam estupradas. Mas um trabalho como o meu cria consciência sobre a questão, acende o debate na sociedade e sobre suas leis. Mas só a existência de leis também não quer dizer que elas sejam efetivamente aplicadas. Atuar para que elas sejam cumpridas é a verdadeira dificuldade, criando políticas públicas para reforçá-las.

No caso da Índia, depois de 2012 no caso do estupro coletivo, um comitê foi formado para a investigação, culminando na revisão das leis e na recomendação de novas práticas. Mas sabemos que esse tipo de crime ainda não é denunciado o suficiente, que as estatísticas existentes estão longe de ser representativas. Por que? Porque as mulheres têm vergonha de ir à polícia, as autoridades não acreditam nos depoimentos, a justiça não é eficiente na punição. Tudo conspira contra esses casos.

 

O mesmo poderia ser dito para países como o Brasil?

O mundo inteiro enfrenta esses problemas, apesar de termos culturas e leis diferentes. Felizmente o debate sobre a violência contra a mulher foi iniciado e casos como o do estupro coletivo de 2012 atraem atenção internacional para o tema. Como a gente pretendia resolver essa questão se nem admitimos que isso era um problema? E agora percebemos que ele é enorme. Nossas mulheres e meninas não estão seguras e precisamos criar ambientes em que elas sejam livres da violência, não só nas cidades, mas em todos os lugares. Quanto mais gente falar sobre o assunto, melhor. Eu sentia que algo devia ser começado, assim mais pessoas podem fazer alguma coisa, colaborar, influenciar o governo, outras pesquisadoras podem fazer entrevistas em outros presídios, cidades, países. O mais importante é falar mais sobre isso. Mas precisa que seja muito mais para que algo positivo saia disso.

 

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