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As três faces da prostituição

Modelos que se afastam dos extremos têm ganhado cada vez mais espaço. Conheça como funciona a prostituição ao redor do mundo
Reportagem Nana Queiroz
    20 de março de 2017

    A prostituição deveria ser ilegal ou regulamentada? Talvez nenhum dos dois…

     

    Profissional do sexo caminha para manifestação na Holanda. Foto: PROUD/Reprodução

    –Mapô, vou ali fazer essa maricona carcomida que ele topou pagar R$ 40 por uma chupetinha. Sério, agora na crise, ninguém topa pagar isso! Me espere aí que sou rápida!

    Minha guia travesti corre para o carro do coroa metido a machão e desaparece na escuridão das ruas do centro de Guarulhos, São Paulo. Meu estômago fica leve e sobe – e eu tenho certeza de que nunca senti tanto medo na minha vida.

    Estou num ponto apenas para prostitutas travestis e ela fez questão de me fazer parecer uma antes de sair de casa, traçando meus lábios vermelhos, sobrancelhas arqueadas, bochechas e pálpebras de tons gritantes. Para ser repórter, minha missão ali é passar por puta – e fazer ponto sem ser descoberta.

    Em menos de cinco minutos, um motoqueiro começa a me rodear. Tira o capacete, me diz que sou linda, tesão escorrendo dos lábios. Pergunta o preço do programa. Eu sabia a estratégia, já que minha intenção não era, de fato, fazer programa algum, apenas ficar imersa, invisível, naquele mundo: cobrar alto, bem acima do preço de mercado local, para que os próprios clientes me descartassem.

    — Duzentos, querido.

    Os olhos dele se arregalam. Para meu desespero, ele abre a carteira e começa a contar as notas na cabeça.

    — É caro e agora não tenho, mas você vale a pena. É tão lindinha e feminina! Vou fazer essa grana e voltar no fim da noite pra gastar tudo com você.

    — Ô, amor, mas eu já estou fechando a noite, trabalhei demais hoje.

    Ele encara minha frase quase como uma rejeição. E me olha de um jeito tão lascivo, tão sôfrego, que eu começo a planejar como correr quando ele tentar me estuprar. “Meu Deus, ele vai fazer o primeiro movimento”, temo. A tensão dura alguns minutos, enquanto nos encaramos em silêncio, eu de sorriso falso congelado nos lábios, e a coragem que não sei de onde veio fincada na vista. Por fim, ele desiste e vai, prometendo voltar mais cedo outro dia.

    Quando minha colega volta, vinte minutos depois, com os quarentinha felizes no bolso (que vão garantir o café da manhã da semana toda), eu conto a ela o ocorrido. Ela escuta como se fosse nada e diz:

    – Bafônica, a algumas quadras daqui, um dia eu estava conversando com uma travesti fazendo ponto, num banquinho que vou te mostrar já já, e um cara parou soltando tiro. Só vi a menina cair do meu lado, bala direto na testa. E o nóia nem conhecia ela.

    “Só é a favor de criminalizar bordel quem nunca fez ponto na rua!”, arrebata.

    Seguimos nossa peregrinação noite adentro. Estamos entre quatro bocas de tráfico de drogas. Enquanto andamos, ela me leva por seus contos de mil e uma noites por ali. Contos que ela presenciou e as outras confirmam em relatos consistentes com sua história.

    Na esquina em que fui abordada, é comum que moleques passem jogando pedras nas prostitutas. Nenhuma razão senão o ódio. Enquanto andamos pela rua, as pessoas nos apontam, riem, xingam. Não é porque parecemos putas, mas porque nos veem trans – e, talvez, porque tantos presumem que as duas coisas sejam uma e a mesma.

    Adiante, naquele bequinho, Luisa Marilac, que fez ponto ali por anos antes de virar Youtuber e colunista da Revista AzMina, foi estuprada com uma arma na cabeça quando voltava do trabalho. Pra não correr o risco do cara apertar o gatilho sem querer enquanto gozava, fez que estava gostando, desviou o cano frio devagarinho e deixou ele terminar enquanto fingia gemidos.

    Ali, uma travesti matou a outra descarregando todas as balas que tinha e a polícia mal perguntou quem foi, só levou o corpo pro Instituto Médico Legal. Ninguém nunca mais falou do assunto. Mais à frente, uma travesti teve a sorte de sobreviver a sete facadas. E atrás da gente ficava o ponto da cafetina que mandou matar, por dívida, uma mocinha que já tinha chamado de “querida”.

    Sim, cafetina na rua. Em Guarulhos, segundo dezenas de prostitutas e prostitutos, é preciso pagar cerca de R$ 30 a diária para fazer ponto na rua – os valores flutuam um pouco se você for mulher, travesti ou homem e estiver mais ou menos dentro dos padrões de beleza. Como o programa varia de R$ 5 a R$ 50, é preciso trabalhar duro só pra cobrir esse custoQuem não paga, apanha ou morre. Uma cafetina assume o poder quando se impõe pela força.

    E não é possível esquecer o investimento no próprio corpo: ali, quem não pode assumir um cirurgião plástico com CRM desregularizado paga a cafetina, que também é “bombadeira”, para injetar produto de limpar carros ou lubrificantes de avião nos seios e nos quadris. Devagarinho, que é pra não morrer.

    Marilac conta que a bombadeira atual, certa vez, enfiou a agulha fundo demais e acertou o “silicone caseiro”, como elas chamam, direto no coração de sua amiga Maria, uma travesti bem humorada de vozinha fina, que não sobreviveu para mostrar os novos seios aos clientes.

    Em uma noite já se entende porque tantas delas morrem tão jovens – puxando a expectativa de vida de travestis e transexuais brasileiras para os 30 anos, conforme estima o grupo de ativismo carioca Transrevolução. Não há dados do IBGE sobre a questão.

    Thalia, Jesse, Micaela, Maria. Todas mortas pela rua. E mais. E mais. E mais.

    Por meio de nota, a Polícia Civil de Guarulhos afirmou que todos os casos de homicídios são “investigados com o mesmo empenho e rigor, independentemente de gênero, orientação sexual, atividade exercida ou condição social da vítima”. Acrescentou que, nos últimos quatro anos, só duas mortes de travestis foram investigadas, mas apenas uma resultou em prisão.

    A polêmica

    Foto de cartaz de protesto do Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado Para (GEMPAC). Reprodução

    No mundo do feminismo e dos direitos humanos, todo mundo se sensibiliza com o drama dessas mulheres. Das 40 milhões de pessoas que se prostituem no mundo, 90% estão ligadas a cafetões, segundo a Fundação Scelles, um centro de pesquisa internacional que combate a prostituição. Enquanto a realidade mostra que nem sempre cafetões são exploradores – muitas profissionais do sexo os enxergam como agentes ou parceiros comerciais – se a atividade ocorre nas margens do sistema, as chances de constituição de relações trabalhistas exploratórias ou abusos físicos se multiplicam.

    Mas há muita discordância sobre a melhor maneira de oferecer às profissionais do sexo segurança e dignidade. Em alguns cantos do mundo, resolveu-se por criminalizar para coibir (uma parte do mercado ou todas); em outros, legalizar; em outros ainda, descriminalizar apenas.

    O tema gera paixões em escala mundial – e quando a Anistia Internacional soltou um relatório, no ano passado, recomendando a descriminalização como o melhor cenário para a defesa dos direitos humanos das prostitutas, feministas trocaram gritos e ofensas em conferências.

    De um lado, defensoras do fim da prostituição, conhecidas como abolicionistas, afirmam que a prostituição se trata de uma mercantilização indigna do corpo e da sexualidade da mulher que deveria ser combatida pela sociedade. E que não podemos autorizar que mulheres em situação de desespero econômico (que são a maioria das prostitutas) sejam usadas por homens e cafetões.

    “Esse argumento (pró legalização) está baseado em uma visão liberal, centrada no indivíduo e suas escolhas no mercado, sem levar em consideração as relações políticas e de poder envolvidas”, escreveu à AzMina, a psicóloga Nalu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres.

    De outro, defensoras da legalização afirmam que tentativas de coibir a prostituição só têm deixado essas mulheres mais às margens da sociedade e que é preciso trazê-las para a legalidade para que elas encontrem mais segurança e portas de saída. E afirmam que qualificar a venda de serviços sexuais como degradante é, no mínimo, equivocado em um contexto capitalista em que todo mundo tem que vender alguma habilidade para sobreviver.

    “Essa repetição exaustiva sobre mercantilização dos corpos não encontra muito eco entre nós, trabalhadoras sexuais”, defende a Monique Prada, presidenta da CUTS (Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais).

    “Para nós é bastante claro que vendemos serviços – nossa força de trabalho tornada mercadoria, e nunca nossos corpos.”

    Entendeu os argumentos centrais dos dois lados? Agora preste atenção aos entraves à discussão – para que a gente os supere e possa ir adiante sem desonestidade com nenhum deles.

     

    No Brasil, as principais organizações de prostitutas se opõem a qualquer forma de criminalização, seja ela de clientes ou de pessoas que obtêm ganho do trabalho de profissionais do sexo. Amara Moira, prostituta, travesti e autora do livro “E Se Eu Fosse Puta”, explica que, se a lei criminaliza o trabalho em clubes e bordéis, sobra para as prostitutas apenas a vulnerabilidade das ruas ou das casas ilegais.

    “Claro que também existem abusos nas casas, mas esses abusos se dão sobretudo porque a atividade é exercida à margem da lei, com a participação, inclusive, das forças policiais e do crime, abusos que poderiam ser evitados caso a atividade pudesse ser exercida com amparo da lei e garantias trabalhistas para as profissionais do sexo.”

    Ilegalidade e legalidade

    O entusiasmo inicial que a prostituição tinha proporcionado para Rachel havia se convertido em tráfico sexual, dor e vício. Seu explorador a tinha bem amarrada em dívidas e manipulação psicológica. Jamais a deixaria ir. A saída só viria por meio de uma bala na cabeça, que ela comprou naquela manhã, com a facilidade só possível nos Estados Unidos, e acolheu como amiga. O filho estaria melhor sem ela. O mundo se livraria de mais um lixo humano.

    Tirou o dia para se preparar para a morte.

    Amortecer a dor com drogas, viver a rotina e sentir que era mesmo inescapável. Já não se reconhecia, não tinha mais alma. Então, Débora* entrou pelas portas do clube com um folderzinho na mão e ofereceu pra ela uma bolsa em uma clínica de recuperação para vítimas de tráfico sexual.

    Instalação artística ‘The Journey Against Sex Trafficking’, em Londres. Foto: Reprodução

    “É um milagre que eu tenha sobrevivido”, reflete Rachel. “Sabe, no começo tinha algo de muito empoderador em ser desejada daquela forma. Mulheres, principalmente mulheres em frangalhos como eu, vivem em busca de aprovação. Eu me sentia poderosa: podia fazer os homens fazerem o que eu quisesse só por ter uma vagina, era como um superpoder.”

    A sensação não durou. Richard, seu cafetão explorador, foi chegando aos poucos, junto com as drogas. Queria que ela saísse de um cliente e entrasse no próximo, num ritmo exaustivo. Ela tomava “multas” por deslizes irrelevantes, como tropeçar no poledance. A dívida foi crescendo, junto com a manipulação psicológica. Atendia até cinco clientes por noite, cobrando US$ 1.500 cada. Mas conhecia meninas que atendiam até 15.

    “Usava tantas drogas que era estuprada e só me dava conta na manhã seguinte. Meu cabelo começou a cair e eu já não estava fazendo dinheiro nenhum quando fui encontrada pela Débora”, lamenta.

    Rachel trabalhava em Atlanta e sua história é a razão pela qual, atualmente, a maioria das instituições de direitos humanos não apoia a criminalização completa da prostituição vigente nos EUA. Com medo da polícia e do Estado, prostitutas são presas fáceis de traficantes sexuais. Um dia são livres, no próximo, escravas sexuais.

    Por isso, abolicionistas têm defendido o modelo sueco, que aposta na criminalização dos clientes e cafetões, como uma alternativa. A PhD americana Melissa Farley é uma delas. Depois de investigar o tema em nove países, entrevistar 854 pessoas (entre clientes e prostitutas) em cinco continentes, ela estima que cerca de 95% das prostitutas gostariam de sair deste ramo.

    “Se elas conseguissem casa, comida e dinheiro sem isso, não fariam isso”, atesta, confiante.

    Nadia van der Linde, coordenadora do fundo holandês Red Umbrella de Apoio a Trabalhadoras do Sexo, tem uma posição diametralmente oposta e defende a descriminalização como a melhor saída, para que prostitutas tenham direitos trabalhistas, além de poder processar quem tirar proveito de sua mão de obra. Com uma vida dedicada ao tema, Nadia não considera ideal nem mesmo o modelo holandês implantado no ano 2000, de regulamentação, que considera burocrático e excludente.

    “A regulamentação na Holanda é tão exigente que quase ninguém consegue obter um alvará”, conta. “Apesar dos bordéis e vitrines oferecerem mais segurança, com a existência de botões do pânico e outros artifícios, na prática, toda a implementação da lei tem caminhado na direção de se livrar das trabalhadoras do sexo e não de melhorar as suas vidas.”

    De fato, só 17% das prostitutas que publicam anúncios na internet ou em jornais trabalham em bordéis com alvará de funcionamento regularizado pela Câmara de Comércio, segundo um relatório publicado em 2o10 pelo RIEC Noord-Holland, um organismo do governo holandês.

    Yvette Luhrs, atriz pornô e presidente do PROUD (Sindicato de Profissionais do Sexo da Holanda), acrescenta que mesmo as prostitutas legalizadas só conseguem trabalhar em bordéis pertencentes a outras pessoas, e não de forma autônoma. “Funciona assim: mesmo trabalhando em um bordel licenciado, você precisa provar que falou com alguma autoridade municipal. Nas vitrines, precisa de um registro na Câmara do Comércio”, explica.

    “E como, pela lei, elas apenas usam o espaço das casas e não são funcionárias, não têm direitos trabalhistas. Ou seja: caem em um limbo social”, lamenta.

    Prostitutas holandesas protestam pela descriminalização na manifestação “Dia do Amor Pago”. Foto: Cortesia de wijzijnproud.nl

    Desamor pelos extremos

    Entrevistadas das duas vertentes, no entanto, concordam que em um mundo sem machismo o número de prostitutas cairia vertiginosamente. “Se houvesse justiça e equidade social, não haveria prostituição como a conhecemos hoje”, diz Melissa, de um lado. “Trabalho sexual não é pra todo mundo, como ser médico não é pra todo mundo. É uma profissão que exige qualificação e vocação”, afirma Nadia, de outro.

    O dado mais curioso das duas opiniões é observar como, internacionalmente, a discussão tem se afastado dos dois extremos de regulamentação estrita ou criminalização completa. Para sindicatos e organizações internacionais de prostitutas, um modelo tem despontado como interessante: o neozelandês.

    Ali, simplesmente não há leis sobre prostituição. Ou seja, prostitutas e donos de bordéis podem manter relações empregatícias como em qualquer outra carreira. A Justiça do Trabalho cuida das controvérsias e a polícia, dos crimes. “Na Holanda, nós dos sindicatos de profissionais do sexo temos lutado para que este sistema seja implantado por aqui também”, diz Yvette.

    O calcanhar de Aquiles do modelo, contudo, está nas imigrantes, que não gozam dos mesmos direitos e acabam vulneráveis à violência e exploração.

    Mesmo assim, o sistema tem atraído mulheres como a carioca Iracema, que desde as Olimpíadas do Rio tem juntado dinheiro para migrar e prostituir-se por lá. “Duas de minhas colegas já foram e eu vou em seguida”, conta. “País sem desigualdade, né? É mais seguro.”

    Clientes na cadeia

    Analisar o contexto do modelo sueco é desafiador, já que os dois lados se acusam de manipular estatísticas. A criminalização dos clientes passou a valer em 1999 e, em 2010, o governo publicou um extenso relatório com os resultados obtidos na primeira década.

    Segundo ele, no período, o número de mulheres trabalhando como prostitutas caiu pela metade. A proporção de homens que admitem pagar por sexo caiu de 13,6%, em 1996, a 7,8%, em 2008. Por outro lado, a venda de serviços sexuais via internet cresceu. “Na verdade, a prostituição não diminuiu, as prostitutas apenas migraram para a internet ou se esconderam do governo para não colocar seus clientes em perigo”, contesta Nadia. “Há também relatos de prostitutas perdendo a guarda de seus filhos por um verdadeiro moralismo do governo.”

    Defensoras do modelo, no entanto, desafiam as afirmações de Nadia: “Se os clientes conseguem encontrar as prostitutas, a polícia e o serviço social também conseguem chegar até elas”, registrou, em um relatório, a organização Lobby das Mulheres Europeias. E acrescentam que o número de prostitutas que negociam seus serviços pela internet “é muito maior em países vizinhos, como a Dinamarca e a Noruega.”

    O filho caçula dos modelos legais

    Clube de striptease nos EUA. Foto: Divulgação

    Capitu* não suportava ver os pais naquela penúria. Eles tinham se apaixonado nos corredores do restaurante gaúcho em que trabalham, trocando olhares entre espetos de picanha. Mais tarde, ele acabou assumindo a profissão de encanador industrial. Ela, costureira – até se aposentar por invalidez. Aos 17 anos, a filha única do casal tomou para si a responsabilidade de resolver os problemas financeiros da família.

    No prostíbulo em que se apresentou para trabalhar ou nos motéis em que foi com os clientes, ninguém nunca nem sequer perguntou a sua idade. “O meu primeiro cliente era um professor universitário que começou o sexo anal sem camisinha ou lubrificação”, lembra. “Eles gostavam dessa coisa de ‘ninfeta’ que eu tinha. Mas eu sempre saía do programa quase chorando, me sentia suja.”

    Foi para evitar que meninas como Capitu (elas são 2 milhões no mundo) entrassem no mercado do sexo, entre outras violências, que a Suíça resolveu, em agosto de 2013, criar seus drive-ins. A ideia é que fossem estabelecimentos seguros, geridos pelo governo, em que prostitutas pudessem pagar um pequeno aluguel e atender ali seus clientes, sob os olhares atentos do Estado.

    A grande sacada foi centralizar até 50 profissionais do sexo no mesmo local para fornecer camisinhas, atendimento médico, proteção policial e consultoria de assistentes sociais.

    Os drive-ins ficam abertos todos os dias – de domingo a quarta, de 7h da noite às 3h da manhã, e de quinta a sábado, quando o movimento é maior, de 7h às 5h. Um ano depois, tanto o governo como o serviço social já avaliavam a experiência como um sucesso.

    Quando conto sobre este modelo para a holandesa Yvette e pergunto o que acha dele, ela retruca, em uma ironia bem humorada:

    — Por um acaso tem um lugar desses pra jornalistas?! Não! Precisamos começar a ver trabalho sexual como trabalho. Claro que existem profissionais desta área que vêm de situações de vulnerabilidade e é muito bom que o governo crie um ambiente em que elas possam trabalhar de forma segura, mas este não pode ser o padrão.

    “Não podemos cair na falsa ideia de que toda prostituta, por definição, precisa de assistência social. Não queremos ser sempre vistas como vítimas.”

    Michês e “gays for pay”

    Ele ainda nem fez 22 anos. É negro, ingênuo, fala rápido e tem ideias desorganizadas (seriam drogas?). Tão mirrado que os outros michês duvidam que tenha clientela. Mesmo assim, afirma conseguir cobrar até R$ 100 o programa na Praça da República.

    — 100?!

    — Claro, 100! É República, mulher, centro de São Paulo, centro do Brasil! E se quiser me comer eu cobro é 200.

    Atração sente mesmo é pela figura feminina, pode ser em corpo de mulher cis ou travesti, não importa. Homem só topa por dinheiro.

    Nas boates dos EUA, chamam seu tipo de “gay for pay” (gay por dinheiro), e travestis me contam que eles conseguem melhores valores pelo programa que as meninas – até na prostituição, a diferença salarial!

    São duas da manhã e mais três michês de aparência viril se aproximam. Bêbados e com garrafas de vinho barato na mão. Dizem que não aguentam a noite sem isso ou cocaína.

    — Depende o dia, tem gente que faz programa por uma carreirinha ou uma pedra de crack – balbucia um rapaz bonito, de boné estilo Charlie Brown Jr.

    Correndo, mais cedo, tinha vindo em nossa direção uma gay que parecia uma boneca. Ficava entre a zona dos michês e das travestis – não sabia onde pertencia. A maquiagem escondia a barba da pele branquinha e lisa e os lábios em formato de maçã eram contornados com um gloss clarinho. O corte de cabelo, curto e desfiado, complementava a beleza andrógina.

    — Quero juntar três meses de aluguel para sair de casa e começar a me montar – a fala, na velocidade da cocaína. – Eu preciso começar a ser quem eu sou, mas não tenho coragem de ferir a minha mãe. Ela me aceita gay, mas travesti não vai aceitar.

    Mas eu preciso ser quem eu sou.

    Outra mocinha a interrompeu para contar que, na semana passada, foi presa na casa de um cliente que se recusava a pagar o programa. Pra fugir, teve que arrombar o portão com tanta força que estourou a prótese de silicone no peito. Levantou a blusa pra gente conferir com as próprias mãos.

    Mas, na maior parte da noite, o tédio.

    Vida fácil, não há – e quem inventou o bordão popular com certeza nunca soube de verdade do que se tratava a prostituição. Os carros passam e xingam, atiram lixo, os clientes negociam descontos desdenhando delas e deles. Às vezes, surgem policiais corruptos extorquindo ainda mais dinheiro delas. As pernas doem equilibradas nos saltos; o frio e a chuva, intransigentes. Uma senhora resiliente de não menos de 60 anos, com cara sofrida de avó, espera fazer programa por esmolas até as quatro da manhã em becos escuros. A maioria delas nem sabe se vai comer bem naquela semana.

    E eu que morri de medo do homem na moto.

    Do fetiche ao medo: minha viagem pelo mundo do sexo pago

    Stripclub Camelot, em Washington D.C., EUA. Foto: Reprodução

    Ser desejada me excita. Naturalmente, não estou falando de cantadas baratas na rua, que são mais expressão de poder do que de desejo, mas de apetite sexual legítimo, complexo. O desejo que gera uma conexão um a um, que pode ser apenas física, mas nunca superficial. Não é linha de produção, é algo que te individualiza aos olhos do outro: te torna a única ou o único capaz de satisfazê-lo.

    Talvez por isso, eu fetichizasse um pouco, secretamente, as mulheres que vendem sua sensualidade – ao final de oito meses de apuração, tenho até vergonha de admitir isso.Mas a primeira vez em que fui a um prostíbulo, na baixa Augusta, em São Paulo, senti um medo enorme. Fiquei achando que, ao entrar ali com meu punhadinho de parceiros sexuais na cabeça, as prostitutas me fariam sentir menos mulher.

    Fiquei achando que elas olhariam com pena para meu andar pouco sensual e minha incapacidade de sedução intencional. Que ririam baixinho de minha beleza e juventude desperdiçadas.

    Tive até medo de encará-las. Fiquei foi olhando os homens, alcoolizados, de corpos deselegantes, de papo desinteressante e aparência pobre. Pareciam mais querer conversar com as jovens do que correr para os fundos e se meter entre suas pernas. Parecia que eles ansiavam por um arremedo de conquista – cuja prova seria um sorriso ou um desconto generoso.

    As mulheres que eles cortejavam estavam massacradas pelo tédio. Não eram as deusas da luxúria que eu havia imaginado.

    Uma senhora desdentada aproximou-se do meu grupo de amigas e sugeriu que arrecadássemos R$10 de cada para pagar por um strip-tease que seria “uma coisa linda que até poderíamos fotografar”. Com dez a mais ela permitiria registro em close up das partes íntimas da moça. Rimos com vergonha de não termos explorado tanto assim nossa sexualidade e recusamos gentilmente a oferta.

    Os homens continuavam a papear com as mulheres e, pela uma hora que fiquei ali, não vi ninguém sair para o fundinho escuro. Um deles, inclusive, foi embora satisfeito após ganhar a atenção de uma das mulheres por uma hora inteira. (Teria financiado o papo ou a casa levaria o lucro na venda das bebidas que ele pagava pra ela?)

    Desde então, fiquei achando os homens uns pobres coitados cujo gozo no flerte era tão simplório, rápido e pouco exigente quanto o gozo na cama. Passei a ver as prostitutas como um tipo de freiras do submundo, caridosas dessa gente desajustada que não sabe se amar ou amar ao outro. Que mal sabe dialogar, quem diria cortejar. Que não sabe que lindo é ser desejado antes do sexo.

    Um ano mais tarde, morando em Washington D.C., nos Estados Unidos, eu resolvi me candidatar a uma vaga no strip club de elite da cidade.

    Meu objetivo era ser stripper por algum período para poder fazer observações em primeira pessoa para esta reportagem. Ser uma espécie de jornalista infiltrada. Queria simular um cenário ideal: um “clube de cavalheiros” com alvará de funcionamento, saídas de incêndio, higiene, na cidade mais poderosa do mundo. Queria entender na pele se, afinal, existe um ambiente que poderíamos almejar para todas as mulheres que decidissem trabalhar com o sexo.

    Fiz meses de dietas e exercícios e mandei minhas fotos sensuais para a seleção. E fui rejeitada. Sim: o melhor que eu podia fazer não era o suficiente pra ser stripper.

    E eu me senti muito, muito feia. Imagino a rejeição que strippers e prostitutas sentem todos os dias quando um cliente recusa sua abordagem. Todos. Os. Dias.

    Sob a luz de neon do “Camelot Showbar”, autodenominado um “clube da cavalheiros que oferece um ambiente de classe, mas descontraído”, eu descobri o tamanho do meu papelão. Eu jamais poderia ser uma stripper ali. Havia um verdadeiro mercado para admirar o corpo feminino na capital americana e a clientela exigia padrões de capa de revista – igualando-se, inclusive, aos corpos que eu imaginei só serem possíveis com Photoshop.

    As garçonetes, no entanto, tinham tipos físicos similares ao meu – e as barriguinhas salientes bem controladas por espartilhos apertadíssimos que dariam inveja na corte de Maria Antonieta. Elas também vendiam sua sensualidade, não se engane. Anotavam pedidos com decotes enfiados no rosto dos clientes na expectativa de gorjetas mais generosas. Às vezes, em suas lingeries, até roubavam a atenção das dançarinas de nu completo e vaginas ostentosas.

    As strippers se revezavam no palco com a velocidade de uma linha de produção, em turnos de três músicas em que sutiã e calcinha tinham que sair, as vaginas bem depiladas tinham que ser escancaradas e a bunda rebolada no rosto dos clientes por gorjetas.

    Eram muito boas no que faziam – às vezes eu até via uma faísca nos olhos delas, uma satisfação por perceberem que nós, da audiência, reconhecíamos o seu talento. Seduzir é, sim, um saber, como defende Amara Moira, uma profissional do sexo que eu admiro muito por sua inteligência afiada. Um que eu não tenho, por exemplo. Mas, na maioria delas, a expressão era mesmo de indiferença.

    Os homens também desempenhavam seus papéis. Eles se dirigiam aos amigos para fazer demonstrações de uma suposta masculinidade que envolvia desprezar o objeto sexual em sua frente. Enquanto elas escancaravam as pernas, eles jogavam notas de um dólar para o ar, com o desprezo e a potência de uma ejaculação de filme pornô de mau gosto.

    Um deles teve a audácia de apalpar a stripper e, depois dela dizer que toques não eram permitidos, enfiou uma nota de um dólar em seu cu. Cu mesmo, não ânus, porque ele claramente a via como algo escatológico e lascivo. Algo menos humano.

    O segurança reagiu apenas com uma bronquinha educada, depois da qual os rapazes se retiraram. E a moça seguiu fazendo o que fazia até o fim de suas músicas, como se aquilo fosse algo corriqueiro.

    Seriam aqueles maus clientes ou ser cliente sexual era mau em si? A sociedade devia buscar educar os clientes para serem melhores, menos machistas, ou educar os homens para não pagarem por sexo?

    A mulher que estava ali importava tão pouco que o gerente ou a gerente do negócio percebeu que a alta rotatividade era a única forma de manter o interesse dos clientes vivoNada daquilo era sobre desejo, era sobre poder. O que interessava ali, na verdade, era o próprio arquétipo de masculinidade.

    Era um templo de adoração ao macho alfa, por outros machos alfas, de que as mulheres participavam para supostamente lembrá-los de sua “superioridade”.

    Mais tarde, uma linda stripper negra de olhos verdes me segredou, os dedinhos brincando no copo do bourbon caríssimo pago por um dos clientes regulares: “A verdade é que, às vezes, eles acham que tiram vantagem da gente. Mas eu faço até dois mil dólares numa noite. Daqui de onde estou observando a situação, quem está usando alguém sou eu.”

    Na nossa mesa, dois sul africanos brancos de meia idade, alianças enfiadas nos dedos, balbuciam em vozes alcoolizadas o que acreditam ser elogios. Um deles, acreditando que eu fosse uma stripper em dia de folga, propõe:

    — Essa mulher está com seios expostos na minha frente, mas não consigo parar de olhar os seus, tentando imaginar como são por trás da sua blusa fina – e olha para eles de um jeito que me faz encolher o peito e cruzar os braços. Arrebata: Vem pra casa comigo e vou te fazer gozar mais vezes do que já gozou na vida!

    — Fico me perguntando o que sua esposa acharia de tal proposta…

    — Minha esposa não acha nada do que não sabe.

    E o amigo, ainda mais tomado pelo álcool que o outro, nos interrompe:

    — Aí embaixo, você é depiladinha assim como ela? – termina a frase com um arroto e, com ele, morre meu último fetiche por ser desejada por dinheiro.

    De volta ao Brasil, fui fazer ponto com algumas travestis. Não concretizei nenhum programa – não estava confortável com isso – mas cheguei a negociar com clientes, abordá-los.

    Nunca senti tanto medo na vida. Era um mundo de violência e morte, frio e tédio.

    Eu havia entrado em curto circuito: afinal, minhas convicções feministas sempre ditaram que o corpo pertence à mulher e cabe só a ela decidir o que fazer dele. Se ela decidir alugá-lo para o prazer alheio, não caberia a mim, ou a qualquer outra pessoa, achar isso elevado ou degradante.

    Por outro lado, eu me sentia diminuída enquanto mulher por aquele espetáculo. Eu me sentia revoltada por aquelas ejaculações em forma de notas de dólar e o cu cheio de grana era também o meu.

    Era madrugada alta, mas tomei a liberdade de mandar uma mensagem para Letícia Bahia, minha colega aqui n’AzMina, mas principalmente uma amiga cujas reflexões sempre me acrescentam. Contei a ela sobre tudo que havia sentido. Na manhã seguinte, ela mandou a resposta:

    O que você sente não precisa, em absoluto, ser coerente com o que você pensa. Pelo contrário: suas convicções teóricas definem o que você vai defender para o mundo, que projetos de lei vai aprovar ou não. Se essas decisões, que valem para todo mundo, são balizadas pelas suas experiências individuais, você é uma caga-regra. Para pensar o mundo a gente olha pro todo, faz pesquisa, mede estatísticas, corre atrás da maior amostra que for possível. E, sobretudo, faz o mais difícil, que é reconhecer nossas incoerências internas.

    Sem saber, minha amiga ditara os rumos desta investigação jornalística. E decidi assim: nunca saberia se as prostitutas eram freiras do submundo ou vítimas de uma sociedade machista – desculpem minha tendência ao romantismo em ambos os extremos. No fundo, a realidade está mesmo nem aqui nem ali e não tem nada de romântica.

    Mudei de ideia umas trezentas vezes enquanto apurava esta reportagem e ainda não cheguei numa conclusão. E nem preciso. Nem você, talvez – a não ser que esteja pensando em entrar pro ramo.

    Por isso, esta série busca avaliar os impactos que cada legislação e situação têm na vida dessas mulheres e dar voz a elas. Tentei muito fazer com que ser contra ou a favor não entrasse na régua. Se falhei na missão peço perdão: como ser humano é impossível ficar totalmente desnuda de quem se é. Este é um fetiche que ainda mantenho, mas lamento ter sido rejeitada pra esse tipo de strip-tease também.

    O tráfico sexual no país mais poderoso do mundo

    Melba, à esquerda, e Sayuri visitam bordeis de Atlanta entregando panfletos de bolsas de estudos. Foto: Nana Queiroz

    Ela veste sua dor como armadura. Não é que não a sinta. Precisa respirar fundo muitas vezes antes de começar a revelar suas marcas, os olhos piscam longamente e as mãos se entrelaçam nervosas. Os olhos vão de úmidos a secos, mas brilham.

    — Sim, uma noite levei dez mil dólares para casa sem nem precisar dormir com o cara! – ela conta.

    — Mas como?! – retruco, em choque. O que faz a cunhada, ao lado, rir alto:

    — Como assim, “como”? Olha só para ela!

    Olho. Kasey McClure tem 38 anos e o passar do tempo está lhe caindo bem. Os olhos azuis claros enormes, redondos, são contornados por cílios que não parecem terminar nunca. A boca grande emoldura dentes perfeitamente alinhados e brancos. As ruguinhas no canto do sorriso são um charme.

    Ela, contudo, não vê a aparência como um presente que veio de graça. Culpa a beleza excessiva pelos abusos sexuais que ela e a irmã sofreram do pai antes dos dez anos. Contínuos. Até pegaram gonorreia. Conta da bronca que ouviram da mãe ao tentar pedir ajuda contra o pai. Lembra das evidências do kit de estupro que foram perdidas na transferência entre as polícia de Flórida e Alabama. Fala do pai que nunca foi punido, lamenta pela irmã que não se recuperou do trauma.

    Kasey, ex-stripper e acompanhante que fundou grupo de resgate em Atlanta. Foto: Nana Queiroz

    Mas o brilho se sobrepõe. Ela está ali, naquela madrugada fria de dezembro, em uma missão. Seu campo de batalha é Atlanta, na Geórgia, um dos maiores eixos de tráfico sexual do mundo. Uma mistura de renda centralizada e um aeroporto que conecta o mundo aos Estados Unidos e os Estados Unidos entre si explica, parcialmente, o sucesso do mercado criminoso que movimenta alguns dos 32 bilhões de dólares no mundo todo ano, segundo o FBI.

    Melba Robinson, diretora do projeto de resgate a vítimas de tráfico sexual do Exército da Salvação, explica que ali existe uma  lei que criminaliza a prostituição e isso têm feito com que muitas vítimas acabem no sistema carcerário americano.

    “Eu visito cadeias e tribunais e muitas vezes advogo em favor delas: ‘Por que estão processando essa mulher por prostituição? Ela claramente é uma vítima!’”, conta.

    Melba e Kasey fazem parte de um grupo de mulheres chamado “For Sara” que visita stripclubs e bordeis de Atlanta na esperança de identificar vítimas de exploração sexual e oferecer uma saída para elas. “Muitas dessas mulheres nem se dão conta de que são vítimas”, esclarece Melba. “Mas nós temos um questionário que as ajuda a avaliar a própria situação, com perguntas como: ‘eu já fui forçada a fazer sexo quando não queria?’, ‘algum cara já te pediu para fazer sexo para ter um lugar para ficar?’”.

    Naquela noite, Kasey, Melba e outras quatro mulheres peregrinaram por sete casas de strip-tease e prostituição entregando agradinhos de Natal e bolos empirulitados (uma das guloseimas engenhosas que só americanos poderiam criar!). Mas o verdadeiro presente estava ali dentro: um folder com as informações de um programa que oferece bolsas de estudo e acolhimento para mulheres da indústria do sexo que se enxerguem, ou não, como vítimas de tráfico.

    Reconhecer-se vítima

    Clube de Atlanta anuncia “Mundialmente famoso desde 1976 – a lenda vive”. Foto: Nana Queiroz

    Peraí: se a prostituição é totalmente criminalizada na maioria dos Estados americanos, incluindo a Geórgia, como é que essas casas continuam funcionando? Kasey explica que a maioria delas usa fachadas legais, como a de casas de massagem e stripclubs, para oferecer serviços sexuais.

    “Cafetões são extremamente criativos e entendem muito bem como burlar as leis locais e descrever algo como qualquer outro serviço não ligado à prostituição”, acrescenta Melissa Farley, pesquisadora do Centro de Estudo e Pesquisa em Prostituição da Califórnia.

    Entre as sete casas visitadas por nós naquela noite, duas tinham fachadas escuras, a entrada controlada por um interfone e pesadas portas eletrônicas. Eram claramente bordeis, mas possuíam licença de spa. “E quer saber? Eu nem sei se as moças que estão aí dentro são ou não vítimas de tráfico!”, lamenta Kasey, que não é autorizada a entrar e deixa os presentes na portaria.

    Nos strip clubs que contavam, às vezes, com mais de 60 garotas, salas vips com cortinas pesadas e escuras propiciam “lap dances” (danças sensuais no colo do cliente) privadas.

    Nas paredes, cartazes anunciam que, em alguns dias da semana, elas custam apenas US$ 5.

    Depois que entram nessas salas, a mentalidade geral é de o que acontece já não é da conta dos gerentes do estabelecimento – ou da lei. E é nesses quartinhos que algumas strippers decidem negociar seus serviços sexuais. “Em um dos clubes em que eu trabalhei”, conta Sayuri Smith, ex-stripper que participa do grupo organizado por Kasey, “os seguranças chegavam a nos revistar na saída para ter certeza que dávamos o percentual da casa para seja lá o que for que cada uma decidisse fazer.”

    A força policial de Atlanta, segundo strippers e prostitutas, raramente aparecem nesses lugares e não gasta muito tempo investigando casos de prostituição. “Às vezes, os policiais são os próprios clientes”, afirma Kasey. E uma das voluntárias complementa, enquanto Kasey balança a cabeça:

    “Uma das vítimas de tráfico que resgatamos disse que um policial foi seu melhor cliente durante um ano ou dois.”

    Kasey descreve o processo de envolvimento de mulheres americanas no tráfico sexual: as garotas entram na prostituição em busca de um dinheiro rápido para quem tem pouca formação escolar. Depois, associam-se a um cafetão ou segurança para protegê-las ou atrair clientes para ela.

    Quando se dão conta, ele está batendo nelas e forçando-as a transar com um número determinado de homens ao dia para pagar pelo hotel em que vivem e outras dívidas. “E aí ele a engravida, pra deixar ela ainda mais presa na situação”, finaliza Kasey. “Prostituição e tráfico sexual andam bem enroscados aqui em Atlanta.”

    A americana Rachel conhece essa ladainha de cor. Mãe aos 19 anos e sem nível superior, ela sempre pode contar com a ajuda e o apoio emocional de Rick, gerente do clube em que trabalhava. Certo dia, quando ela chegou para dançar, ele já havia lhe arrumado um cliente para “danças privadas” que se convertiam em serviços sexuais. Depois outro. Bastava pagar a ele um percentual dos lucros.

    Na ilegalidade, passar de prostituta a vítima de exploração sexual não foi difícil.

    O trabalho era tão exaustivo que ela passou a beber e usar drogas, “o que precisasse  para dar conta do serviço que tinha naquela noite”. Rick aproveitou-se da situação para fazê-la refém. Trabalhou com sua autoestima, disse que ela não servia para nada além daquilo. Cobrava-lhe “multas” por razões diversas, ameaçava garantir que ela não conseguisse mais empregos se não o obedecesse.

    No final, mesmo fazendo cinco programas, Rachel já não estava ganhando nenhum centavo ao final da noite. Seus cabelos estavam caindo, ela achava que o filho estaria melhor sem ela. Na noite em que havia comprado uma arma e decidido colocar uma bala na cabeça, conheceu um grupo como o de Kasey, que a acolheu até o diploma e a recuperação completa.

    “Quando as pessoas pensam em vítimas de tráfico sexual, elas imaginam essas mulheres colocadas em jaulas. Não é bem assim”, explica ela.

    “É uma técnica de lavagem cerebral que começa com a conquista de confiança.”

    Melba, no entanto, esclarece que ter um cafetão não configura, per si, tráfico sexual. É a coerção ou fraude, física ou psicológica, que torna esses homens exploradores. “Eles treinam as mulheres psicologicamente para acreditar que a polícia não vai ajudá-las e que, na verdade, elas que serão detidas se buscarem alguém.”

    “Mas sabe o mais triste? Às vezes, elas estão tão desesperadas que querem mesmo ser presas, pois na prisão ao menos estarão seguras.”

    Com a polícia em seu encalço, um crime pesando sobre suas cabeças, dívidas, filhos para sustentar e o medo da violência dos cafetões, essas mulheres não veem saída. Cabe a mulheres como Kasey abrir brechas de luz nesse poço escuro – mesmo que isso signifique cutucar memórias dolorosas madrugada adentro.

    No quartinho dos fundos

    Equipe do “For Sara”, em jornada de acolhimento pré-Natal. Foto: Nana Queiroz

    Nos bastidores das boates e bordeis que a equipe de Kasey visita, as meninas andam nuas. Têm corpos de tamanhos diversos, com celulites diversas, marcas diversas. Corpos reais. Mas a maioria, negros. Têm rostos simétricos, de assimetria exótica. Corpos esqueléticos, gordos. Jeitos sensuais, ou de um desajeito charmoso. São mulheres jovens. São mulheres.

    Uma delas, nua, pede para as “moças da igreja” fazerem uma oração com elas. Cobre seios e vagina com um cachecol, fecha os olhos, estende as duas mãos e declara: “estou pronta”. As outras se aproximam, seguram as mãos uma das outras e das voluntárias e elas pedem coisas comuns. Que Deus as proteja, que elas saibam enxergar um bom caminho.

    Kasey está feliz com isso. Nessa hora o brilho é tão forte que parece que ela esqueceu da dor.

    Quando as vítimas são crianças

    Uma em cada quatro. O número martela na cabeça de Mary Frances Bowley de novo e de novo. Trata-se da quantidade de garotas que sofrerá algum tipo de violência sexual antes de completar 18 anos, segundo estimativa do Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA.

    Uma em cada quatro.

    Fachada de clube no Fulton Industrial Boulevard, maior centro de prostituição de rua de Atlanta, onde diversas organizações denunciam exploração sexual de menores. Foto: Nana Queiroz

    Quando fundou, em 2001, o centro de acolhimento para vítimas de exploração sexual infantil Wellspring Living, Mary Frances mal sabia o que estava fazendo. Só tinha a convicção de que alguém, afinal, tinha que fazer algo a respeito dos 100 mil menores de idade que eram forçados à prostituição nos Estados Unidos.

    A idade média dessas vítimas? Onze anos. A estatística é do FBI.

    Resolveu focar em sua cidade, Atlanta, onde cerca de 100 meninas são comercializadas por sexo a cada noite. Elas enchem os bolsos de seus exploradores com até US$ 33 mil por semana, conforme revela o Urban Institute.

    “Estudos mostram que mais de 90% das crianças traficadas sexualmente nos EUA são americanas. São crianças pobres, que passam fome ou que estão no sistema de lares adotivos temporários”, explica.

    “Isso funciona com uma lógica de mercado: há homens com renda disponível e, como ‘consumidores’, demandam crianças americanas e não estrangeiras.”

    Às vezes, essas crianças são vendidas pelas próprias famílias, em estado de mais ou menos desespero econômico. Algumas são forçadas a ter relações sexuais com entre oito e dez homens por noite. Mary Frances nunca se esqueceu da garota de 13 anos que havia sidovendida para pagar as parcelas de um carro dos pais.

    As primeiras garotas que ela recebeu no Wellspring Living vieram vestidas em laranja e acorrentadas em algemas de três pontas – aquela que prendem as mãos aos pés. É que até 2011, na Georgia, menores de idade também respondiam pelo “crime de prostituição”.

    Uma brasileira que trabalha no resgate dessas vítimas em Atlanta conta que, apesar da mudança na legislação, muitas das garotas continuam vindo do sistema carcerário: elas são pegas por crimes como vadiagem (loitering), furto ou outras pequenas infrações.

    Hoje, 601 menores permanecem presas pelo mesmo motivo em outros Estados americanos, conforme informa o levantamento mais atual do departamento de Justiça.

    “Vejo todas essas moças que entram por minhas portas como garotinhas inocentes que nunca conseguiram se tornar quem deveriam ser”, lamenta Mary. “Fazer com que elas alcancem isso é o que mantêm a chama acesa pra mim.”

    Com o tempo, Mary e os demais profissionais do Wellspring Living perceberam que a maneira mais eficiente de ajudar essas meninas era criar programas individualizados e holísticos (ou seja, tratamentos que levam em consideração a pessoa como um todo, não somente como um conjunto de seus sintomas). Elas precisavam de acompanhamento psicológico, treinamento profissional, aconselhamento em mercado de trabalho, além de receber casa, comida, assistência, amizade até. No próximo ano, eles terão capacidade para acolher 200 meninas e mulheres anualmente.

    “Elas não se veem como vítimas. Pensam que isso era apenas o que precisavam fazer para sobreviver. Ou ainda: ‘ele (o explorador) me ama e vou fazer isso porque o amo’. Nosso primeiro trabalho é convencê-las de que há mais para elas na vida do que isso”, revela Mary.

    Rachel corrobora as observações dela. Lembra de certa vez em que aceitou um convite para gravar um filme pornô. Ao chegar ao local da gravação, mesmo drogada, pôde perceber que as duas meninas que deveriam contracenar com ela tinham 16 anos. E o diretor do filme era seu treinador na escola.

    “Tudo o que uma menina despedaçada procura é aprovação. Esses homens sabem disso. Aquele cara havia trabalhado essa falta de autoestima delas, convencido de que eram especiais. Assim, conseguiu que fizessem o que ele sugeria”, comenta. “Essa foi a coisa mais nojenta e triste que vi em meus anos de prostituição.”

    Formatura

    Elas não parecem jovens destroçadas. Parecem mulheres restauradas. Não são vítimas, mas sobreviventes – e se chamam pela segunda nomenclatura. São oito mulheres, uma delas branca. Todas as demais, negras. As vozes são emocionadas, sim, mas firmes.

    — A maioria de nós vem de famílias e vidas disfuncionais, mas somos fortes. Eu sinto isso agora e quero ajudar outras mulheres – depõe uma delas.

    É dia de formatura no Wellspring Living e essas mulheres, que foram vítimas de exploração sexual ou estavam em situação de vulnerabilidade para tal, passaram por um programa de 10 semanas de treinamento profissional. Agora começarão um programa de trainee remunerado de 12 semanas.

    — Elas são tão inteligentes! Pense nisso: elas sobreviveram a todas essas coisas horríveis. Você precisa ser engenhosa, ou não estaria viva. Você sabe quantas delas são mortas nesta vida? Conheço garotas que viram outras serem assassinadas na frente delas, explica Mary Frances.

    No meio tempo, mais uma moça, recém saída da adolescência, vai dar seu depoimento diante das colegas e dos profissionais envolvidos no programa:

    — Ninguém nunca me deu nada de graça na vida. Era difícil aceitar essa ajuda no começo, eu vivia me perguntando: ‘o que eles vão querer de mim por isso?’.

    Ao final do trainee, 75% terão empregos fixos, me conta Mary Frances. Não antes de cochichar em meu ouvido:

    — Está vendo essas mulheres fortes? Pois bem… não eram assim quando chegaram aqui.

    A frase de Mary é interrompida pelos solucinhos emocionados de mais uma moça que foi à frente falar:

    — Vocês não tem ideia do que significava pra mim que alguém me ouvisse sem me julgar e que realmente se importasse…

    Breve história da prostituição: da puta sagrada à devassa pecadora

    A Deusa da Serpente, adorada por sociedades de 2000 a 1800 antes de Cristo, em Creta, um dos mais importantes centros da civilização matriarcal.

    Esta história começa em um tempo distante em que as únicos deuses que existiam vestiam roupas de mulher (ou roupa nenhuma) e eram bem menos moralistas. Bem antes do mundo ser dominado por sociedades patriarcais. Antes até de existir machismo. Ela nasce no período que hoje chamamos de Pré-História – será coincidência considerarmos que a História só começa com o advento da dominação masculina? – em que o culto da Deusa era a regra entre os seres humanos.

    Quando as mulheres organizavam os clãs matriarcais e coletavam entre 65 e 80% de todo o alimento que sua sociedade consumia. Quando elas davam à luz sem que os homens soubessem que tinham qualquer participação na perpetuação da espécie. Quando esse poder era considerado uma espécie de mágica que as conectava com o sagrado e fazia delas a verdadeira representação da Deusa que havia criado toda a vida. E quando o sexo não era condenado moralmente pela religião, mas consagrado como meio de elevação do espírito.

     

    A Vênus de Willendorf, encontrada na Áustria, data do período Paleolítico e é tida como evidência da existência das sociedades matriarcais europeias. Além do mais, desafia nossos padrões de beleza contemporâneos.

    O reinado da Deusa, esquecido por nossa História ou relegado como uma coleção de “estranhos cultos de fertilidade” durou, na realidade, 25 mil anos, como conta a historiadora Nickie Roberts em “Putas na História: prostituição na sociedade ocidental”. Ou seja, ela começa em algum ponto do Paleolítico e segue até a organização do patriarcado com a ajuda dos filósofos gregos – sim, foi nosso querido Aristóteles quem cunhou em “A Política”, por exemplo, a ideia de que “uma mulher inteligente é um fato contranatural”.

    Mas antes disso, as putas foram sagradas.

    Elas foram sacerdotisas xamânicas em sociedades nômades, e organizavam rituais sexuais em que toda a comunidade participava. Mais tarde, quando a humanidade aprendeu a arte da agricultura, elas levaram essas práticas a templos. O sexo era sua forma de levar o mundo a acessar o divino. Este era seu trabalho.

    A pesquisadora americana Melissa Farley pede licença para fazer uma interrupção nesta parte da história de Nickie: “Eu estudei as sociedades matriarcais. Mas as prostitutas sagradas não recebiam dinheiro, esta é a diferença! A questão central ali era ser se divertir, ser legal com todo mundo. Quando o dinheiro entra em cena, cria-se um desequilíbrio de poder.

    De fato, naquele período a noção de dinheiro sequer existia – as coisas aconteciam na forma de escambo e o sexo com os fiéis era só uma entre tantas atribuições do ofício dessas sacerdotisas, mas não deixava de ser um trabalho. E foi a própria ideia de posse que acabou com o reinado das putas sagradas – e das mulheres em geral.

    Foi lá pelo ano 3 mil antes de Cristo que os homens das primeiras comunidades começaram a entender que participavam da gravidez e, paulatinamente ao longo dos séculos, começaram a querer garantir que o filho que criavam, de fato, era deles. Não queriam que a propriedade construída durante a vida toda fosse parar nas mãos dos filhos de outro homem.

    Não foi do dia pra noite. As deusas, primeiro, convivem com deuses… até serem derrotadas por eles. A filosofia aristotélica se instala. É então que a sociedade começa a controlar a sexualidade da mulher. Nosso corpo vira objeto.

    Somos vendidas como escravas sexuais, sim, mas também como esposas em negociações entre homens.

    Putas e esposas

    “Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

    Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

    Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

    Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

    Esta pintura de Jean-Leon Gerome retrata o que teria sido o mercado de escravos sexuais da Roma Antiga, onde se comercializava as mulheres que seriam forçadas à prostituição. Elas eram a maioria naquele período, apesar de uma pequena parcela de mulheres da elite terem optado pelo ofício após o imperador Augusto criar leis que forçavam mulheres a se casarem e terem filhos.

    As religiões

    O Deus monoteísta foi quem condenou de vez as prostitutas ao inferno – na terra e no além. Instituiu a noção de pecado, condenou a sexualidade por prazer. Não pensem, no entanto, que esta condenação era assim tão clara.

    O rei Henrique II, por exemplo, garantiu que, durante 400 anos a começar em 1161, o bispado britânico teria direito a um percentual do lucro dos bordéis – e com o suor das prostitutas foram construídas muitas das belas catedrais de Londres.

    Já o seminarista francês François Villon deixou registrado em poemas da Idade Média as “maravilhas” de seu bico extra como um cafetão nada doce: “Quando um cliente chega, eu encho potes de vinho e os trago (…) Neste bordel nós fazemos um negócio ribombante (…) Mas quando ela vem pra casa sem dinheiro (…) Não posso suportá-la e ela irá derramar sangue”.

    E até mesmo os santos chegaram a pregar que a prostituição fosse permitida para salvar a castidade das donzelas. Afinal, como disse Santo Agostinho:

    “Suprima a prostituição e luxúrias excêntricas tomarão conta da sociedade”.

    Estava declarado: aos olhos dos deuses e dos homens, às mulheres cabiam dois papéis: a puta do inferno ou a esposa dos céus.

    Esta pintura de Brunswick Monogrammist retrata um bordel europeu de 1537, onde a violência contra prostitutas já é registrada. Foto: Reprodução

    A criminalização

    No século 12, munidos da condenação cristã à prostituição, os Estados europeus começam a fazer as primeiras leis que coibiam ou criminalizavam a prostituição, a começar pela França. Em alguns casos, prostitutas eram impedidas de fazer acusações contra pessoas que lhes fizessem mal, em outros, o estupro de prostitutas chegou até a ser legalizado. Alfonso IX, de Castilha, criou um modelo, aliás, bem parecido com o que hoje chamamos de “modelo sueco” e criminalizou todos os envolvidos no comércio de sexo, exceto as prostitutas.

    Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

    No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

    Nos séculos seguintes, a fé cristã continuou a castigar prostitutas – muitas vezes literalmente. Tanto protestantes reformistas quanto católicos da contra-reforma condenaram a prostituição. Em 1566, o papa Pius soltou um decreto, por exemplo, tentou expulsar 20 mil prostitutas e seus filhos de Roma, através de um decreto, mas teve que voltar atrás quando elas simplesmente o ignoraram. Por três séculos, começando em 1484, elas também foram perseguidas junto com as ditas “bruxas”. “Casas de Correção” e punições diversas, como arcar o rosto com ferro quente, se espalharam pela Europa.

     

    O século 19 trouxe a revolução industrial e uma realidade dura para as mulheres: como se tornaram mão de obra barata nas fábricas, como salários sempre muito menores que os dos homens, muitas proletárias só conseguiam pagar as contas com a prostituição. Um mundo bem parecido com o de muitas prostitutas contemporâneas: entre a escolha e a falta dela.

    A criminalização, parcial ou completa, continuou sendo a norma durante os séculos 20 e 21 na maioria dos países. Mas existem outras formas de lei no mundo, conforme explica o vídeo abaixo:

    Sem dúvida, hoje, o ofício de prostituta não é um conto romântico. Em entrevistas com 854 prostitutas de nove países, a historiadora Milena Farley descobriu que 95% das mulheres que estão na área trocariam de emprego se pudessem.

    “Certa vez, conheci uma mulher que fazia cerca de 45 programas por dia”, conta.

    Em um relatório extenso sobre prostituição publicado no ano passado, a Anistia Internacional declarou: “Trabalhadores sexuais são um grupo diverso (…) para alguns, (a profissão) pode oferecer mais flexibilidade e controle sobre horas trabalhadas, ou melhor remuneração do que outras opções de ofícios disponíveis para eles (…) Para muitos, a decisão é resultado de limitadas escolhas de vida.” E completa: “Elas experimentam níveis altos de violações de direitos humanos em todo o globo.”

    Uma jornada triste para aquelas que, um dia, conectavam os homens com o sobrenatural.

     

    Por que os homens pagam por sexo?

    A humanidade já pensou em tantas maneiras de coibir a prostituição – da tortura à cadeia, passando pela pregação e o código moral – que cabe a pergunta: por que será que a demanda se mantém sempre tão alta e, principalmente, a demanda masculina? O que os homens buscam quando contratam uma prostituta? Afinal, analisar a prostituição sem entender os que a mantém funcionando é olhar somente metade da questão.

    Para descobrir a resposta a essa questão, AzMina entrevistou, através de um questionário aberto respondido pela internet, 191 clientes de prostitutas. Dos respondentes, 95,8% eram homens e o restante, mulheres de diversas orientações sexuais. O perfil parece uma amostra condizente com levantamentos internacionais que citam os homens como mais de 90% da clientela de profissionais do sexo. Classes sociais e frequência de uso do serviço eram diversos.

    Todos e todas foram convidados a responder à seguinte pergunta: “Por que você buscou sexo com uma prostituta?”. As respostas eram abertas e os entrevistados podiam oferecer mais de uma razão. Os resultados foram organizados em torno de temas centrais.

    A motivação vencedora? Praticidade e falta de compromisso! Ela foi citada por 81 dos entrevistados. Em seguida apareciam “fetiche, curiosidade ou quebra de tabu” (50), “insegurança, carência ou solidão” (42), “pressão do grupo” (21), “perda de virgindade” (14), “variedade de parceiras e desejo por uma prostituta específica” (11), “busca de um talento específico das profissionais do sexo e confiança no sigilo” (10), e, finalmente, quatro não sabiam ou não quiseram responder.

    Entre as respostas, chama muito a atenção as que se referem à perda de virgindade e pressão do grupo. Muitos entrevistados alegam terem sido coagidos e não terem gostado da experiência. “Fui obrigado pelos ‘amigos’ mais velhos por ter chegado aos 15 anos e não ter perdido a virgindade”, “Tinha 15 anos e fui obrigado pelo meu pai. Não foi uma experiência boa” ou “Me sentia pressionado por todos os meus ‘amigos’ por ser o único virgem do grupo.”

    Algo parecido aconteceu com Davi*. Aos 14 anos, um amigo mais velho levou ele e colegas da mesma idade para transar pela primeira vez em um puteiro de São Paulo. Davi queria que os colegas o vissem como corajoso. Quando subiu para o quarto com a prostituta, estava tão nervoso e desconfortável que nem sequer conseguiu ficar excitado. A experiência alimentou nele, por anos, uma espécie de temor de falhar com as mulheres. E ele acabou protelando seu início na vida sexual para bem mais tarde que a média de homens de sua geração.

    “Nesses casos, existe uma vitimização da masculinidade”, opina a PhD americana Melissa Farley, Diretora do Centro de Pesquisa e Educação sobre Prostituição dos Estados Unidos.

    Para ela, tanto a prostituta em situação de penúria que se vê obrigada a atender menores de idade (ou crianças) para sobreviver quanto o menino sofrem uma violência. “Nós precisamos mudar nosso conceito de masculinidade”, conclui.

    Empatia e tráfico sexual

    A entrevista acontecia no Soho, um bairro londrino. Melissa Farley entrevistava um homem jovem que alegava só ter pagado por serviços sexuais uma única vez.

    – Por que só uma? Por que nunca mais procurou uma prostituta?

    Os olhos dele marejaram. Revirou-se com a resposta, incômodo. Por fim, soltou:

    – Porque quando olhei nos olhos dela, vi o mesmo olhar que eu tive enquanto garoto… quando um padre abusou sexualmente de mim.

    A entrevistadora deixou de lado a imparcialidade de acadêmica. E chorou junto com ele. Naquele momento, ela se convenceu de que a empatia era a chave para entender porque os homens pagam por sexo – principalmente em contextos em que não têm certeza de que as envolvidas estão neste ramo de maneira voluntária, como em Soho, onde imigrantes do leste europeu são muitas vezes enganadas e se tornam escravas sexuais.

    No final do ano passado, Melissa publicou os resultados de um estudo que realizou com 202 homens, dois grupos de idade, escolaridade e classe social semelhantes. A única diferença entre eles era: um continha aqueles que pagavam por sexo; o outro, os que nunca o haviam feito.

    “O que descobrimos, principalmente, é que homens que compram sexo têm menos capacidade de empatia e são mais propensos a comportamentos agressivos”, conta ela. Isso foi medido com a seguinte questão: “Se você tivesse certeza de que não seria descoberto ou punido, estupraria uma mulher?”. Entre os que nunca foram clientes, somente 2% admitiram que sim. Entre os que são clientes, 15%.

    Apesar disso, a pesquisa mostrou que homens dos dois grupos eram machistas: ambos afirmaram acreditar em uma ideologia de culpabilização das vítimas de estupro, concordando com afirmações do tipo “mulheres que se vestem de maneira provocativa estão ‘pedindo’ para serem estupradas”.

    Outras pesquisadoras, no entanto, contestam os resultados do estudo de Farley e afirmam que ele tem limitações. “Nunca vi nenhum indicativo de que clientes de prostitutas sejam mais violentos”, afirma Nadia van der Linde, coordenadora do Fundo Red Umbrella, o primeiro fundo internacional para ajudar organizações de trabalhoras do sexo, que tem sede em Amsterdã, na Holanda, onde a prostituição é regulamentada. Segundo ela, como a criminalização ou condenação moral são a regra na maior parte do mundo, este tipo de estudo tem um certo viés.

    “O que ocorre é que em locais em que a prostituição (ou atividades em torno dela) são criminalizadas ou coibidas, você realmente vai encontrar pessoas que respeitam menos as leis e a moral dominante buscando esses serviços.”

    Nadia afirma que os resultados da enquete organizada pela Revista AzMina são muito coerentes com o que percebeu em seus anos de pesquisa no Distrito da Luz Vermelha de Amsterdã, na Holanda. “Sem dúvida, existe muito machismo no mundo, mas isso não necessariamente está mais atrelado à prostituição do que às relações não mediadas pelo dinheiro. Há muitas pessoas cujos desejos não são considerados ‘aceitáveis’ pela maioria das pessoas – como bondage, sadomasoquismo ou submissão consensuais – e profissionais do sexo ajudam essas pessoas a ficarem mais confortáveis com sua sexualidade. Pessoas são diferentes e os seus desejos também.”

    Desejos considerados “inadequados” ou “constrangedores” são bastante citados entre os brasileiros e brasileiras da pesquisa d’AzMina. É a segunda causa mais alegada para buscar a prostituição. Entre os fetiches especificados, os mais comuns são o próprio sexo pago e o ménage – e prostitutas entrevistadas incluem o sexo anal também entre as mais pedidas.

    No mundo das travestis, a questão é ainda mais crucial. Homens que se interessam por elas estão em uma linha de orientação sexual ainda incompreendida pela maioria das pessoas, entre a heterossexualidade e homossexualidade, atraídos por mulheres que se orgulham de ter pênis. O meio que muitos encontram de viver essas fantasias é através da prostituição.

    “O homem que vem atrás de travesti se vê como hétero e, em geral, quer uma de duas coisas: chupar a gente ou ser ‘comido’ por uma figura feminina”, revela Luisa Marilac, travesti que foi prostituta no Brasil e na Europa por cerca de uma década.

    O homem opressor, o homem carente, o homem humano

    Santiago* não é um desses homens que cutuca olhares por onde passa, mas tinha uma articulação inteligente e, enquanto falava, brincava charmoso com o cigarro entre os dedos. Não, ele não devia ser o tipo de cara que não consegue convencer mulheres a irem pra cama com ele – pensei nisso durante a entrevista.  Mesmo assim, tinha o hábito de pagar por sexo duas vezes por mês, durante cinco anos.

    “Pra mim, a prostituição foi um caminho para exercitar o sexo sem ligação emocional forte. Sem barreira, sem culpa, sem toda a carga emocional – boa e ruim – que vem com o sexo. E eu não queria transar com a mesma mulher, queria variedade”, confessa. “Hoje eu me arrependo.”

    No caminho, saiu com prostitutas universitárias e empoderadas, mas também com moças fragilizadas, simples, pobres. A grande mudança se deu para Santiago no dia em que chegou a um bordel soturno em que não tinha certeza se as mulheres estavam realmente ali voluntariamente. Não conseguiu transar com nenhuma delas e nunca mais voltou a pagar por sexo.

    “Não sou contra a prostituição em si, mas acho que estamos muito longe de alcançar as condições para que isso seja feito de forma digna. Até lá, não seria mais cliente”, diz, hoje.

    “Mas foi quando abri os olhos para os abusos do mundo da prostituição que comecei a analisar de forma crítica como tratava mulheres nos meus relacionamentos pessoais.”

    Para Marilac, há também um outro fator em jogo que nunca é citado pelos clientes em pesquisas como a d’AzMina: o poder.

    “Os homens pagam por sexo pra se sentirem mais dominantes. Como ele está pagando, a mulher tem que fazer o que ele quiser, ele que manda, ele é o superior. É aquela coisa de caça.”

    Já Thiago* se vê no outro lado do espectro de clientes. Com uma deficiência física de nascença, ele era um rapaz extremamente inseguro, carente e sequer conseguia se aproximar de mulheres. Ele será para sempre grato às prostitutas que o iniciaram sexualmente e o ajudaram a superar essas barreiras. Hoje, Thiago tem um relacionamento amoroso e sexual saudável e estável.

    “Eu cheguei tremendo na base”, ele recorda, rindo. “Lembro-me do nome da primeira mulher com quem transei, ela atendia como Sofia e era bem bonita. Eu queria um estilo ‘namoradinha’, ela foi bem natural, passo a passo. Fingia bem ser namorada, era carinhosa, se preocupava comigo e me senti muito à vontade com ela.”

    Dos 174 homens ouvidos para esta reportagem, alguns eram Davis, outros Thiagos, outros, Santiagos. Outros ainda homens que diziam coisas degradantes sobre as mulheres, como “minha esposa é fraca de cama” ou que mulheres não prostitutas têm muitas “frescuras”. Mas parece impossível cravar um perfil único.

    Entre os relatos mais surpreendentes está ainda o de um homem que gostava de conversar com prostitutas para saber o que outros homens gostavam de fazer na cama. Como homens são menos abertos a falar de sexo entre si sem ser um jeito de contar vantagem, essa era a única maneira que ele encontrava de acessar os segredos da sexualidade masculina. A prostituição era, para ele, um caminho para acessar a própria masculinidade.

     

     

    * Nomes fictícios são usados para proteger as fontes de retaliações

     

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