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Racismo no futebol, todo dia é um 7 a 1 diferente

por Paula Silva
9 de julho de 2018
Preto só é considerado útil dentro de campo quando o time está ganhando; quando ele perde, fazem questão de lembrá-lo onde é o seu lugar
Crédito: Pixabay

A Bélgica abre o placar contra o Brasil em um momento onde a bola resvala no ombro do volante Fernandinho e o goleiro Alisson não consegue impedi-la a tempo. A seleção brasileira tentou reverter o resultado até o fim, mas não deu. Os belgas se mostraram superiores naquela partida e o Brasil foi eliminado. É uma derrota para esquecer.

Mas ele, o brasileiro racista, não esquece. As redes sociais foram tomadas por ofensas racistas.

Mas a memória do brasileiro racista é bem curta e seletiva. Até uma semana atrás, os mesmos saíam em defesa de Julio Cocielo, youtuber que publicou comentário racista sobre o atacante Kylian Mbappé, um homem negro, dizendo que ele faria “uns arrastões top” com sua velocidade em campo durante a partida entre França e Argentina nas oitavas de final da Copa na Rússia. Diziam que não podemos julgá-lo por um “erro”, e que devíamos aceitar o seu pedido de desculpas.

O que rolou no jogo também foi um erro. Erro de cálculo, erro da bola que passou pelo ombro de Fernandinho, outro homem negro. Foi o suficiente pro brasileiro racista, durante o jogo mesmo, ir lá no Instagram do atleta e encher o espaço de comentários com racismo.

Cocielo é branco. Fernandinho é negro. Eu não preciso nem explicar o óbvio.

O brasileiro racista relaciona o preto ao erro. O branco pode errar, porque ele facilmente será perdoado. Afinal de contas, branco é imaculado. Branco é exemplo. Branco é bonito e não merece ser escrachado por um errinho bobo.

Agora, o preto não pode. O preto não pode errar, porque ele facilmente será linchado e amarrado nos troncos da internet. Afinal de contas, preto é impuro. Preto é a escória. Preto é feio e merece ser escrachado por qualquer erro.

O preto é um erro por viver na favela. É um erro por andar por aí com orgulho de seu crespo e suas origens. É um erro por estar ocupando lugares que nos foram negados há séculos.

O brasileiro racista não quer ver pretos fazendo história no futebol. Ele acha que o único lugar para um preto veloz ser bem sucedido é fazendo um arrastão na praia.

O brasileiro racista não chegou no Instagram do Fernandinho de cabeça quente. Ele chegou cego pelo ódio. Ódio pelo preto que, na cabeça dele, é o culpado pela derrota do Brasil na Copa. Pra ele, a culpa não é de um conjunto de fatores :  escalação, desempenho, as oportunidades que a Bélgica soube aproveitar. Não, a culpa é do preto que fez com que a bola entrasse na nossa rede.

Leia mais: Racismo e machismo de brasileiros na Rússia são problemas sistêmicos, não de indivíduos

Esse mesmo brasileiro racista fez igual com Camilo Zuñiga, jogador da Colômbia que tirou o Neymar da Copa de 2014 numa entrada violenta em campo. Ele recebeu uma enxurrada de ofensas racistas internet afora. Desde então, não conseguiu se restabelecer no futebol e anunciou sua aposentadoria aos 32 anos. Duvido que esse tivesse sido o desfecho de sua carreira se ele fosse um cara branco.

O futebol é a terra fértil do racismo. “Say no to racism” é o que está escrito nas faixas da Fifa em campo antes de cada partifa. Mas “dizer não” apenas não está resolvendo. Não só no Brasil, mas no mundo inteiro.

Destaque da seleção da Bélgica, Romelu Lukaku disse em uma entrevista que quando ganha, é visto como um belga de verdade  pela imprensa, mas quando perde, destacam sua origem congolesa.

O preto só é considerado bom e útil quando o time está ganhando. Quando ele perde, fazem questão de lembrá-lo onde é o seu lugar. E fazem isso da pior forma.

Porque o preto incomoda pra caralho. Dentro e fora dos campos.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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