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Polônia nos ensina: religião e direito ao aborto não são incompatíveis

por Debora Diniz
6 de outubro de 2016
As mulheres que marcharam de negro são também católicas, mas acreditam que a liberdade é uma forma de arrumar religiões e democracia

Aborto é tema para greve geral na Polônia. As mulheres vestiram preto, saíram às ruas, ameaçaram rejeitar o governo.

Uma proposta de mudança legislativa propunha restringir ainda mais a lei de aborto na Polônia – nem mesmo em caso de estupro ou para salvar a vida da mulher o aborto seria permitido.

Uma mulher estuprada ou em risco de vida que fizesse aborto seria presa. O parlamento conservador recuou: não há isso de iniciativa popular quando a vida e a liberdade de milhares de mulheres estão em jogo.

A verdade é que o governo voltou atrás na tentativa de modificar a lei de aborto não por convicções políticas ou éticas sobre a vida das mulheres e seus direitos, mas porque não suportou o brado furioso de milhares de mulheres pelas ruas. A imagem é poderosa: todas de preto em um dos países mais católicos do mundo.

Erra quem imagina que haveria incoerência nas crenças religiosas e no direito ao aborto: as mulheres que marcharam de negro são também católicas, mas acreditam que a liberdade é uma forma de arrumar religiões e democracia.

Há um exemplo a ser seguido pelas mulheres da Polônia. Aborto não é questão para ficar escondida pela vergonha ou medo do pecado, ou intimidada pelos gritos de homens furiosos nos corredores do Congresso Nacional no Brasil: é tema para as ruas. Como as polonesas, precisamos também ocupar as ruas, movimentar as redes como foi a Virada 24 horas sobre aborto, contar as histórias de mulheres que morreram ou se arriscaram pelo aborto inseguro. Marchar em luto é resumir esta mensagem para o mundo.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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