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Parei com a pílula anticoncepcional e reencontrei meu desejo

por Helena Bertho
9 de março de 2016
Descobri, depois de 10 anos, que passei toda a minha vida sexual sem conhecer meu tesão

F oi praticamente automático: eu perdi a virgindade e uma semana depois estava na ginecologista pedindo indicação de pílula. Um raciocínio que me parecia 100% lógico: sou sexualmente ativa, não quero engravidar, logo, preciso tomar pílula. E, aos meus olhos, aquelas drágeas cor-de-rosa  que eu devia ingerir diariamente eram sinônimo de libertação. Graças a elas, eu poderia transar o quanto quisesse, sem que o fantasma da gravidez indesejada me perseguisse após cada trepada.

Minha relação com a pílula era linda, a gente se amava, eu tomava sem medo de ser feliz e ainda, de brinde, minha menstruação ficou regulada – algo bem raro antes. Eu não podia ser mais feliz!

Mas daí veio o feminismo na moda, as mulheres falando de tudo por aí e muita gente começou a comentar que o anticoncepcional pode ter um efeito de cortar a libido, além de estar ligado a problemas circulatórios. Opa! Disparou um alarme dentro de mim  Bem, eu tinha pavor de engravidar, já que não pretendo ser mãe, mas convenhamos que existem muitas outras formas de prevenir bebês, então resolvi arriscar parar para comprovar essa história.

Quando parei a pílula meu mundo se abriu: eu havia passado dez anos da minha vida sendo quimicamente castrada. Toda a minha vida sexual quimicamente castrada.

Eu achava que sentia tesão, que tinha libido, que tava tudo normal, até experimentar o normal. Sério, gente, como eu perdi isso por tanto tempo? Claro, minha vida não mudou da água para o vinho, mas eu finalmente entendi o que é sentir desejo. E tal história de ovular, menina! Tem um ou dois dias por ciclo, em que eu simplesmente fico possuída por uma energia sexual maior que eu, é até desesperador – mas ótimo!

É claro que passar por isso me fez pensar sobre a pílula. Por muito tempo ela foi considerada a heroína, o símbolo da libertação das mulheres. De repente, está virando a vilã, a castradora que causa problemas circulatórios. E, tendo vivendo o que vivi, eu tenderia para a demonização da dita cuja. Mas não peso para tanto.

Cada pessoa vive uma situação única. Têm mulheres que tomam a pílula para tratar cistos no ovário, por exemplo. Outras, são alérgicas ao material da camisinha.

Mas a verdade é que a maioria das mulheres usa pílula pelo motivo que eu usava: quando você está em um relacionamento estável, usar a camisinha é muito trabalhoso. É mesmo? Olha, tem seis meses que eu só transo com camisinha e, sei lá, tá bem mais legal do que era antes.

Será que essa crença não é, na verdade, mais um pedacinho do machismo nosso de cada dia? Afinal, a camisinha é um método contraceptivo que, quase sempre (já que a feminina é tão rara), cabe ao homem usar e, todos sabemos, em geral quem é treinada para evitar a gravidez é a mulher. Nem vou falar de DSTs, porque não é o assunto agora – mas fica a dica de que camisinha previne DST, então ela é o método contraceptivo mais seguro em diversos quesitos (notem que eu disse que não ia falar e falei).

Homens vivem dizendo que a camisinha incomoda, os mais idiotas tentam enganar as meninas para transar sem… Sempre que a situação permite, querem desencapar o pau. Então, para evitar esse incômodo tão horrendo dos rapazes, nós mulheres nos submetemos a tomar um remédio que pode causar doenças e corta nossa libido, ou enfiamos chips no nosso corpo, adesivos na nossa pele, dispositivos no nosso útero… Será mesmo que a camisinha é tão ruim assim? Tudo bem que existe a feminina, se a gente conseguir achar para comprar, mas sem desespero, porque a responsabilidade pela contracepção não é só da mulher, não!

E já que estou falando da pílula, vamos a um fato: é muito mais fácil manter as mulheres quietas, calmas e controláveis dentro dos relacionamentos se elas estão castradas, se sua libido está apagada.

Para a sociedade machista, quanto mais pílulas tomarmos e menos tesão sentirmos, melhor.

Ficamos quietinhas assim.

Ah! Mas antes que qualquer mulher decida parar com a pílula: é importante falar com o médico, entender as alternativas e, se está em um relacionamento hétero, deixar tudo bem conversado com o parceiro. Cada uma tem um corpo e uma história e é preciso respeitar isso, mas se der para cortar o anticoncepcional, eu recomendo! Nada de ficar quietinha e castradinha mais não!

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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