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O meu privilégio é o medo

por Equipe AzMina
15 de junho de 2016
O ataque à boate Pulse nos lembra que este é o único privilégio dos gays e lésbicas. E nós o recusamos, queremos direitos como os de qualquer outra pessoa!

O Divã de hoje é da Mayara Rauen.

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49 mortes, 53 feridos. Esse foi o saldo do ataque mais violento nos Estados Unidos – ataque este, feito a uma boate gay. Não há como analisar o fato sem se apegar a este detalhe (que de detalhe não tem nada), vejam, o atirador descarregou todo o seu ódio justamente em uma casa frequentada por homossexuais. E o que isso significa?

Como lésbica assumida há 12 anos, nunca vi mudanças significativas no Brasil em prol de homossexuais. Os opinadores de plantão e detentores do conhecimento supremo falam com propriedade: “os gays querem privilégios, se querem tanto a igualdade devem aceitar que todos estão submetidos às mesmas leis, nós e eles”.  Então vamos falar sobre o tal do privilégio que nós, homossexuais, temos.

Em 2002, um grupo de lésbicas foi agredido em uma casa noturna de Guarulhos porque, segundo o proprietário, era pra “descer o cacete em quem fosse ‘do babado’”. Em 2014, um casal de lésbicas apanhou quando saía de uma casa noturna em Rio Preto enquanto ouvia “sapatão tem que morrer˜. No mesmo ano, um casal gay foi espancado no interior de um trem em São Paulo, e o filho de um casal homossexual foi espancado até entrar em coma. Em 2016, uma garota de 14 anos, lésbica, foi abusada pelo próprio pai que, segundo ele, queria faze-la “virar mulher” – o chamado estupro corretivo.

No Brasil não se costuma ter esse tipo de ataque frequentemente, mas os números nos puxam de volta para a realidade dolorida que vivemos, que parece de longe, aos olhos dos outros, ser privilegiada. O nosso privilégio homossexual no Brasil nos rendeu, em 2015, um total de 318 mortes por homofobia/lesbofobia/transfobia, segundo relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB). Em 2014, foram 326. Isso nos deixa com uma estatística de um assassinato a cada 22 horas. Praticamente uma morte por dia.

Não consigo deixar de pensar que o mundo todo vive sob olhares sentenciadores, que nos condenam ao inferno apenas por gostarmos de pessoas do mesmo sexo que nós. O inferno é aqui. E o nosso privilégio é o medo.

Nossas mãos se entrelaçam em nós de nervoso, damos beijos com gosto de inquietação e fazemos carinho com uma sensação constante de estarmos sendo observados. Somos reduzidos a nossas orientações sexuais e somos mortos por amar, aprendemos a vida toda que o que sentimos é errado, que não deveríamos nos expor na rua porque ninguém é obrigado a “ver isso”. Não sei vocês, mas eu gostaria de ver o mundo mais cheio de amor. Ao contrário disso, só vejo o ódio desenfreado e sem sentido, cada dia se enraizando mais em nossa sociedade, o preconceito contra homossexuais intrínseco no nosso convívio. Nós, homossexuais, existimos e resistimos. Recusamos esse privilégio que nos enfiam goela abaixo e lutamos por causas que são direitos nossos, tanto quanto de qualquer outra pessoa. E assim seguimos em frente, cabeça erguida e sensação de alvo constante.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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