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O fim da violência contra a criança também é uma pauta feminista

por Tayná Leite
8 de maio de 2018
Tayná Leite é contra o tapa, a palmada e o puxão de orelha: “nós mulheres também estamos sendo opressoras quando violentamos física, verbal ou moralmente uma criança”

Imagine um grupo de homens no Facebook. Nesse grupo eles trocam mensagens, artigos, textos, de vez em quando uma piada ou outra e, quase sempre, palavras de apoio sobre as dificuldades do homem moderno. Pelo menos um deles por dia desabafa sobre como tem sido difícil não perder a paciência com a sua mulher.

“Ela parece que está me desafiando a todo momento. Eu também sou humano”. Outro vai além e confessa que dessa vez não deu para resistir e acabou dando “uns tapas na bunda para ver se aprende a não desarrumar mais o que ele acabou de arrumar”. Entre um ou outro comentário de revolta, a maioria parece compreender que de fato é muito difícil a vida de um homem hoje em dia. São muitas responsabilidades. Não é fácil atender a todas as expectativas internas e externas e ainda ter que lidar com as birras da mulher, com a falta de compreensão dela e ser o adulto da relação sempre.

Palavras como “fraternidade” e “empatia” aparecem frequentemente. Sempre com o homem. Com a mulher nunca! Afinal de contas, quem está ao lado dos homens hoje em dia?! Tudo é o direito das mulheres. Nenhuma mulher morreu (sic) por conta de uns tapinhas. E “falando assim” parece até que ele está espancando a pobre, o que não é evidentemente o caso.

Chocante?

Pois, imagine essa cena com diferentes personagens e a mesma violência. Troque a palavra mulher por filhos ou crianças e substitua os maridos por mães, inclusive as feministas. É o que vemos em uma série de grupos de mães, quando estamos falando de agressão contra crianças.

Não importa que agredir uma criança seja crime, ou que a criança seja o elo mais frágil da relação, sendo absolutamente vulnerável não apenas fisicamente, mas emocionalmente dependente de seus cuidadores. Não importa que as crianças sequer tenham maturidade neurológica para lidar com seus sentimentos. O que parece importar é somente uma falsa empatia que busca tentar justificar o injustificável. Por que digo falsa empatia? Porque no fundo empatia com opressão é ausência de empatia com vítimas.

E sim, nós mulheres também estamos sendo opressoras quando violentamos física, verbal ou moralmente uma criança, por pior que seja a nossa realidade enquanto mães e mulheres

Proteger crianças (especialmente meninas, que são o grupo mais abusado e violentado da pirâmide) também é uma pauta feminista que muitas vezes parecemos esquecer! Passar a mão na cabeça justificando violência NÃO AJUDA as vítimas, não ajuda as mães culpadas, sobrecarregadas e sem rede de apoio. Ajuda unicamente a perpetuar o padrão de violência ao qual estamos tão acostumadas e que faz com que logo essas vítimas estejam por aí usando frases como “eu apanhei e isso me fez uma pessoa melhor!” (não, amiga, isso fez de você apenas alguém que acha ok bater em crianças indefesas!) ou entrando em relacionamentos abusivos que elas logo cedo aprenderam a confundir com amor.

Negar o impacto, justificar e racionalizar a violência contra quem quer que seja é um desserviço a todas as causas feministas já que acaba reforçando padrões tóxicos de relacionamento que se perpetuam na vida adulta de homens e mulheres.

Sobre formas de educar sem violência, indico fortemente o blog, podcasts e canal do Youtube do Paizinho Vírgula e da Elisama Santos, dentre outros que escrevem (quase desenham) sobre o porquê que não se deve bater em uma criança. Não apenas porque não funciona (até porque, embora existam inúmeros estudos que comprovem que em longo prazo a violência seja ineficaz, ela pode parecer funcionar individualmente e em curto prazo sim), mas porque crianças (pasmem!) são SERES HUMANOS que, como quaisquer outros, têm o DIREITO de não serem agredidas.

A reflexão que trago aqui, especialmente para nós feministas, é que socialmente a violência contra crianças ainda é largamente aceita, inclusive quando realizada por mulheres

Pais e mães se sentem à vontade para baterem e agredirem seus filhos em público sem que ninguém faça nada a respeito (e se fizer pouca coisa acontecerá, já que a polícia é capaz de te levar presa por mau uso dos recursos públicos se você ousar chamá-la por um puxão de orelha ou um tapa na bunda). Aliás, todo mundo se sente à vontade para dizer que é a favor de palmadas mesmo que não se trate de uma opinião e sim de um crime. Inclusive essa forma de violência é tão normal e aceita que até pessoas famosas se sentem confortáveis para usarem seus espaços na mídia e assumirem publicamente que batem ou batiam em seus filhos.

A questão maior é acreditar que a violência seja uma ferramenta de disciplina válida. NÃO É! NUNCA É! Só que se você for em um grupo desabafar sobre isso é muito provável que ao invés de ajuda para sair do ciclo de violência você encontrará tapinhas nas costas de #quemnunca e confissões pessoais de momentos em que “foi o último recurso, mas foi!”.

O mesmo já não ocorre (graças à deusa!) em relação à violência contra a mulher. Anos e anos de campanhas conscientizando sobre a relacionamento abusivo, violência e direitos das mulheres, se não serviram ainda para reduzir drasticamente os números de abusos e feminicidios, serviram para colocar o bode na sala. Aumentaram consideravelmente o número de denúncias e fizeram com que a violência doméstica contra a mulher finalmente deixasse de ser um assunto da esfera particular das famílias para se tornar um assunto de interesse público (#meteacolher).

E por que o mesmo não ocorre em relação às crianças? Por que achamos razoável bater, gritar, humilhar, puxar orelha ou pegar pelo braço sob a alegação de “educar”? Por que achamos chocante o relato fictício do início deste texto, mas essas não?

E enquanto esse último teve mais de OITO MIL COMPARTILHAMENTOS majoritariamente de mulheres, esta semana mais uma menina de 5 anos morreu aparentemente de tanto ser espancada (reiteradamente) por seus pais. Apenas mais um caso no Brasil de Isabella Nardoni e do menino Bernardo (cuja morte originou a “Lei da Palmada” que teve resistência enorme no Congresso até finalmente ser aprovada em 2016.

Críticos da Lei da Palmada (que nada mais é do que a inserção de um artigo no Estatuto da Criança e do Adolescente, proibindo o uso de qualquer castigo físico ou outra forma de punição cruel ou degradante) alegam que ela é uma “interferência indevida do Estado na educação dos filhos por seus pais” em um país em que uma criança é agredida POR HORA.

Você pode estar pensando que também não é justo trazer mais culpa para mães que sabemos são um grupo extremamente sobrecarregado, levado constantemente ao limite da exaustão, do desespero e da penúria. E eu concordo! Não é sobre culpa que estou falando. É sobre responsabilidade! Culpa não leva à transformação!

Responsabilidade é escolher fazer diferente e se libertar da culpa pelo que já foi. Culpa traz vitimização e paralisa. Responsabilidade traz protagonismo e acolhimento

Então, não, não é sobre acrescentar culpa às mães, e sim sobre refletirmos a respeito da normalização da violência. Apenas tirar essa culpa das mães para que sigamos agredindo crianças — agora sem culpa — não irá nos levar a um lugar melhor enquanto sociedade, inclusive nas questões de divisão de tarefas, acolhimento do outro, rede de apoio e etc.

Vamos discutir rede de apoio, vamos discutir sobrecarga e exaustão maternas e divisão de tarefas domésticas. Vamos combater um mercado de trabalho precarizado e excludente e lutar por um mais justo e inclusivo. Mas não, não vamos fazer isso às custas da integridade física e emocional de bebês e crianças. E para isso precisamos de tolerância zero quanto a isso, assim como com relação a homens abusadores.

Diga NÃO À VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS!

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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