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Me chamam para trabalhos só para preencher a “cota vaginal”

por Divã d'AzMina
19 de janeiro de 2018
"Antes uma cota vaginal do que sem cota, sendo esse o doce amargo da 'coxota': a gente (quase) precisa agradecer por poder reclamar."
Arte: Larissa Ribeiro / Estúdio Rebimboca

Quem senta no Divã de hoje é a Hell Ravani.

“Coxota é uma palavra que inventei com uma amiga, enquanto tentávamos rir daquela situação meio legal + meio incômoda  —  cada vez mais comum, amém  —  quando alguém te chama pra um trabalho ou evento por conta da sua buceta, não necessariamente pela sua experiência ou por querer trabalhar contigo. Basicamente quando você é a cota vaginal da parada. É quase uma honra, só que não.

O contato geralmente se dá assim:

— Poxa, tenho um projeto assim-assado, a gente tava precisando de uma mulher que encaixe com esse perfil, ‘cê taria interessada?

Atenta! É comum nesses casos, não ter nenhuma outra fêmea na equipe fora você. Uma coxota ‘to rule them all’.

Veja bem, não tô cagando regra no projeto assim-assado, a preocupação é atual e relevante. Ter pelo menos uma vagina num time  —  seja de criação, ou de outra coisa — e pensar nisso na hora de montá-lo é essencial pras coisas mudarem. Hoje em dia, UFA, já pega super mal ter uma sala de roteiro, bancada de palestrantes, mesa redonda, corpo de júri, ou que quer que seja, regido apenas por pessoas do sexo masculino, diga-se de passagem branquelas e com experiências xoxamente iguais.

O que me incomoda é quando começamos a olhar pelo viés ‘pega mal’ e não pelo lado ‘é muito melhor ter uma equipe diversa com pessoas fodas’.

Nem sequer é necessário levantar a bandeira diversidade, se você pensar em seres humanos com trajetórias, habilidades e personalidades diferentes das suas, provavelmente você já vai ter um grupo cheios dessas caixinhas aí de cotas ou coxotas.

Tudo mudou muito rápido em questão de ‘incômodo’, a troca de valores e humores tá sendo bem louca atualmente, talvez, a ‘coxota’ seja uma fase temporária e um sinal de que coisas vão mudar ainda mais, até o ponto que ‘ser mulher’ não tenha peso e três comerciais da Boticário pra perfumar a data própria.

Antes uma cota vaginal do que sem cota, sendo esse o doce amargo da ‘coxota’: a gente (quase) precisa agradecer por poder reclamar.

Neste clima de bunda molhada, encerrarei com a Oração da Coxota:

ó grande vulva do universo,
Bendito seja o fruto da nossa xereca,
Rega minha sabedoria no ambiente de trabalho
dai-me forças pra não responder os comentários machistas em vão,
não me deixes cair na tentação de mandar aquele ‘vai tomar no cu’ pra geral
orienta minha luz divina pros boleto pago
que meu vibrador esteja sempre convosco, agora e na hora da morte, Amém.”

 


Também tem um desabafo para fazer ou uma história para contar? Então senta que o divã é seu! Envie seu relato para liane.thedim@azmina.com.br 

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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