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Nunca é racismo. É sempre uma ‘brincadeira’ ou um ‘mal-entendido’

por Paula Silva
1 de agosto de 2018
Paula Silva conta das "pequenas" violências diárias que jogam as pretas e pretos ainda mais nos escanteios sociais - quando não nos matam de uma vez
Crédito: Pixabay

Lembro-me da primeira vez em que me senti um lixo com um comentário racista logo após eu ter assumido meu cabelo natural. Foi de uma colega de um emprego antigo. Ela tinha visto algumas fotos antigas minhas no Instagram, em que eu ainda ostentava fios alisados com guanidina e chapinha, e comentou que preferia meu cabelo “de antes”.

Eu quis saber o motivo, já esperando alguma resposta bem desagradável. E ela mandou um: “Ah, porque acho que ficava melhor em você. Esse seu cabelo aí pode estar na moda, mas acho que não combina muito com você.”

Óbvio que me ofendeu. Machucou demais. Me deixou mal durante aquele dia inteiro. Desabafei com uma outra colega sobre o comentário e logo depois me arrependi de tê-lo feito.

“Ai Paula, você tá exagerando. É só a opinião dela. Foi só um mal entendido!”

É sempre assim. As porradas diárias que a gente leva das pessoas e do racismo institucional são irrelevantes. É sempre um equívoco, um mal entendido, um “mimimi”, um vitimismo.

E não importa sua classe social. Rico ou pobre, o povo preto sempre se vê diante de discussões infrutíferas com colegas de trabalho, amigos, família e arrobas (fakes ou não) do Twitter e do Facebook.

O ator e cantor Jaden Smith, filho do ator Will Smith, foi chamado de “pedinte” por um cara que acha que faz humor – e pra ele foi só uma “brincadeira”. Um influencer achou que Kylian Mbappé faria “uns arrastões top” na praia por correr tanto em campo – e pra ele foi só um “mal entendido”. Há poucos dias um menino negro de 16 anos foi morto por um PM porque estava fazendo “muito barulho”. Um motivo tão torpe que não sei como colocar em palavras.

Leia também: Precisamos falar sobre racismo com as crianças 

Mas para os racistas e pessoas que não se importam com as vidas negras existem palavras: “vitimismo”, “exagero”, “mas tinha cara de bandidinho mesmo!”. Parece mentira, mas não é. Essa porrada diária que a gente toma parece surreal, mas só estando na nossa pele para saber – como se alguém quisesse realmente estar em nossa pele…

No ideário comum, nossas características denotam a degradação de uma sociedade: miséria, violência, o “outro”. Crianças negras são expulsas de cafeterias chiques e praças de alimentação de shoppings porque “incomodam os clientes” e seguranças estão sempre à nossa espreita quando entramos em lojas. Quando confrontados, dizem que tudo não passou, de novo, de um “mal entendido”.

Todo dia essas “pequenas” violências nos despedaçam e nos jogam ainda mais nos escanteios sociais – isso quando não nos encurralam nos becos da vida e nos matam de uma vez.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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