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Nunca é demais falar de Gilka Machado

por Bruna Escaleira
14 de março de 2018
"Buscar um companheiro e encontrar um senhor", escreve Gilka Machado no poema Ser Mulher. Ela lançou o primeiro livro de poemas eróticos publicado por uma mulher no Brasil

 

No mês da mulher, celebramos uma das pioneiras da poesia brasileira

“Desde os tempos de Poesia fora da estante – livro que apresenta poemas para crianças – sou uma ávida leitora de versos. Nas aulas de literatura da escola, do cursinho e da faculdade, fui apresentada repetidas vezes aos nossos mestres Augustos dos Anjos, Manuel Bandeira, Olavo Bilac, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros homens, interrompidos raras vezes pela solitária voz de Cecília Meireles. Essa voz me comovia profundamente, mas era muito bem comportada para tocar temas mais materiais, como o corpo e a sexualidade.

Esse desejo de identificação com uma escrita do corpo feminino foi se realizando conforme fui descobrindo os versos de Hilda Hilst, Olga Savary, Alice Ruiz, Ana Cristina César, Adélia Prado e muitas outras poetas mais atuais. A força das suas vozes parecia fluir crescendo de raízes ancestrais que, no entanto, eu desconhecia. Seria possível essa potência certamente latente em mulheres de todos os tempos históricos ter passado despercebida por décadas e décadas sem deixar rastros?

Foi então que, numa aula de pós-graduação com a professora Mônica Rodrigues da Costa, finalmente confirmei minhas suspeitas de que há muito mais escritoras escondidas debaixo de tantas camadas de história patriarcal do que imaginamos. Em 1928, a carioca Gilka Machado lançava o primeiro livro de poemas eróticos publicado por uma mulher no Brasil, Meu glorioso pecado. Sua ousadia transcendia os temas e moldes da poesia “feminina” bela e recatada escrita por suas contemporâneas que, não por acaso, ficaram mais conhecidas.

Não se trata de desmerecer a grandeza de poetas como Cecília Meireles – jamais! A questão é que, num panorama literário extremamente machista, as pouquíssimas escritoras escolhidas para integrar o cânone nunca seriam as rebeldes, como Gilka. Não há outra explicação para o apagamento de uma poeta tão influente em sua época na história da literatura passada às gerações seguintes. Afinal, não estamos falando de uma autora eventual, mas de uma escritora com uma obra substancial, extensa e de qualidade reconhecida – sem mais delongas, vamos a ela!

 

Ser Mulher…

 

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada

para os gozos da vida; a liberdade e o amor;

tentar da glória a etérea e altívola escalada,

na eterna aspiração de um sonho superior…

 

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada

para poder, com ela, o infinito transpor;

sentir a vida triste, insípida, isolada,

buscar um companheiro e encontrar um senhor…

Ser mulher, calcular todo o infinito curto

para a larga expansão do desejado surto,

no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…

 

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!

ficar na vida qual uma águia inerte, presa

nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

 

Gilka Machado, Cristais Partidos (1915)

 

Gilka da Costa de Mello Machado nasceu em 12 de março de 1893 no Rio de Janeiro. Filha da atriz Thereza da Costa, neta da cantora Cândida e do violinista Francisco Pereira da Costa, bisneta do repentista baiano Francisco Moniz Barreto e sobrinha neta do poeta Rosendo Moniz Barreto, mostrou sua inclinação à criação artística ainda na infância. Aos treze anos, venceu os três primeiros lugares de um concurso de poesia do jornal A Imprensa. Continuou a publicar em jornais e, em 1915, lançou seu primeiro livro, Cristais Partidos.

Embora de estética mais próxima ao sincretismo literário da transição entre os séculos XIX e XX no Brasil, que misturou correntes como o Parnasianismo e o Simbolismo, do que às nascentes vanguardas modernistas, sua obra foi considerada extremamente ousada para a época por abordar a temática erótica e denunciar a opressão sofrida pelas mulheres. O furor despertado pelas duras críticas moralizantes que recebeu tornou-a amplamente conhecida no meio literário nacional, mas prejudicou até sua vida pessoal.

Casada desde 1910 com o também poeta, jornalista e crítico de arte Rodolpho Machado, com quem teve dois filhos, Heros e Hélios, ficou viúva ainda jovem, em 1923. A partir de então, encontrou grande dificuldade para conseguir emprego devido a sua fama de “imoral”. Criou os filhos sozinha, administrando uma pensão e cozinhando para fora, além de participar ativamente da luta pelo voto para as mulheres e da criação do Partido Republicano Feminino, junto a percursoras do feminismo brasileiro como Bertha Lutz.

 

Minha voz

 

Minha voz

leva lampejos de lâminas

aos teus silêncios.

Sou a suprema tentadora,

em minha forma inatingível

materializo o pensamento.

Passarei por tua vida

como a ideia por um cérebro:

dando-me toda sem que me possuas.

Guardo

os sentidos da tua formosura,

tenho-te em mim em radiosidades,

amo-te porque me olhas,

das tuas sombras,

com a fisionomia

dos meus sentimentos.

 

Talvez outros braços enlacem teu busto,

talvez outros lábios murmurem

palavras líricas

aos teus ouvidos,

talvez outros olhos se abismem nos teus…

Agora e sempre,

serás, apenas,

o mundo por mim descoberto,

o tesouro por mim desvendado,

o homem

que meu amor acordou

na imobilidade da tua inconsciência.

 

Por que não vens

meu estatutário da volúpia,

– há em mim linhas imprecisas

de desejo

que teu carinho deveria modelar,

tuas mãos milagrosas,

emprestariam expressões inéditas

ao meu corpo maleável…

Por que não vens?!…

 

Longe de mim,

és a Beleza sem arte,

a Poesia sem a palavra;

longe de mim sei que te não encontras,

sei que procuras inutilmente

defrontar o teu eu

no cristal de outras almas,

porque te falta o fiel espelho

da minha estranha sensibilidade.

Por que não vens?!

– À tua vinda

fechar-se-iam meus lábios,

meus braços

e minhas asas;

ficarias em mim entimesmado,

no aconchego de meu ser

que é tua sombra;

ficarias em mim

como a visualidade,

em minhas pálpebras cerradas para o sonho…

 

Gilka Machado, Meu Glorioso Pecado (1928)

 

Influenciada pelo Simbolismo, sua poesia traz uma sinestesia vertiginosa. Essa experimentação artística das fronteiras entre os sentidos, é, em si, um ato libertário, pois evidencia as sensações do corpo feminino, colocando a mulher como ativa no amor, no sexo ou, simplesmente, diante do mundo, em uma sociedade que a impelia à passividade tanto física como intelectual.

Muito além da estética, os versos evidenciam que a modernidade de Gilka se dá no próprio processo criativo, por meio de uma escrita do corpo que se apropria, não apenas da linguagem, mas do prazer, antes privilégio do homem. Em Meu Glorioso Pecado, a autora amplia a sensualidade e o erotismo de sua poesia com uma linguagem madura e segura. Em versos como, “Minha voz”, “dando-me toda sem que me possuas” e “meu estatutário da volúpia”, afirma uma identidade feminina independente e consciente na sexualidade e na vida.

Mesmo diante da discriminação sofrida ao longo da vida, Gilka foi eleita a maior poetisa do Brasil em um concurso organizado pela revista O Malho em 1933, que teve como jurados os duzentos principais intelectuais brasileiros da época. Participou do grupo de dissidentes do modernismo caracterizado pelo espiritualismo publicando poemas e crônicas na revista Festa. Em 1977, Jorge Amado liderou o lançamento de sua candidatura para se tornar a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – mas ela declinou o convite.

A poeta faleceu em 1980 no Rio. Doze anos depois, a editora Léo Christiano lançava a penúltima edição de suas Poesias Completas. O livro estava esgotado desde 1993, e não era possível encontrar nenhuma obra de Gilka nas livrarias. Até que a pesquisadora da sua obra Jamyle Rkain recebeu a permissão da família da autora para reeditar sua antologia e lançou Gilka Machado – Poesia Completa pelo Selo Demônio Negro em 2017. Em 8 de março do ano passado, tive a honra de participar do evento de lançamento do livro, que foi comemorado como um merecido resgate histórico.

Desde então, estive ensaiando uma coluna sobre a Gilka, mas outros temas se tornaram urgentes por aqui e, por conta do lançamento, a autora foi tema de várias matérias mídia afora. Ficava pensando no que poderia acrescentar sobre este ícone (quase) perdido da nossa poesia, até que cheguei à conclusão de que meus comentários são o que menos importa diante da sua potência poética. O importante é continuar falando sobre a Gilka, até que ela esteja presente na história da literatura e nas nossas leituras desde as aulas da escola.

 

O Retrato Fiel

 

Não creias nos meus retratos,

nenhum deles me revela,

ai, não me julgues assim!

 

Minha cara verdadeira

fugiu às penas do corpo,

ficou isenta da vida.

 

Toda minha faceirice

e minha vaidade toda

estão na sonora face;

 

naquela que não foi vista

e que paira, levitando,

em meio a um mundo de cegos.

 

Os meus retratos são vários

e neles não terás nunca

o meu rosto de poesia.

 

Não olhes os meus retratos,

nem me suponhas em mim.

 

Gilka Machado, Velha Poesia (1965)

 

*Se você é uma escritora ou tem alguma sugestão de autora para apresentarmos, envie e-mail para bruna.escaleira@azmina.com.br e nos conte tudo 😉

**As opiniões aqui expressas são da autora e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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