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Com o fim do casamento, me reconstruí e descobri o melhor de mim

por Divã d'AzMina
28 de junho de 2018
"Aprendi que a única pessoa capaz de me fazer feliz sou eu mesma e que casamento não está numa folha de papel ou numa grande festa"

O Divã de hoje é anônimo.

“Eu me casei aos 28 anos, achando que a vida seria um conto de fadas e que, finalmente, tinha encontrado meu príncipe encantado. Com um pedido de casamento surpresa aos pés da pirâmide de Gyza, acreditei (mesmo) que tinha chegado a minha vez de viver o grande amor da minha vida, daqueles que eu via nos filmes, nos romances, nas novelas que alimentavam o meu imaginário desde cedo.

E, nessa crença, subi ao altar de véu e grinalda, como mandam os bons costumes, rumo ao “Felizes para Sempre”. Aliás, essa era a plaquinha que meu lindo pajem e minha linda daminha levavam após o célebre beijo do “enfim casados”.

Tudo era lindo e perfeito no plano das ideias até que aquela magia e fantasia rápido se transformaram em tortuosos dias de tempestade e um longo inverno. Aos 30 anos, eu já era uma jovem mulher divorciada. Além da vergonha e frustração de ver todo aquele meu sonho se desmoronar, fui acometida por uma depressão grave, que duraram exatamente sete meses.

Durante o primeiro ano após a separação, meu sentimento em relação ao meu ex-marido era de muita raiva, algumas vezes transitava entre decepção, mágoa e tristeza. Não desejava o mal dele, meu sentimento não era de vingança, mas de raiva por ter me feito sofrer daquele jeito, me sentia enganada, ludibriada e abandonada. Somente no último ano, e nos últimos meses, esse sentimento tem se transformado em gratidão.

Não falo com ele há tempos, tampouco sei o que faz, o que come, o que bebe e como está. Não guardo nenhuma foto, nenhum e-mail, nenhuma carta, tentei deletá-lo como se essa parte da minha história nunca tivesse existido. Mas acho que hoje tenho muito mais motivos para agradecê-lo do que nutrir qualquer sentimento de raiva, mágoa ou decepção. Explico o porquê.

Primeiro de tudo, quero agradecê-lo por ele ter insistido na separação quando eu recuei. E por ele ter me tirado do inferno em que vivia dentro de uma relação fadada ao fracasso quando eu estava cega e queria lutar mesmo já “sangrando”.

Após ter entregado a minha vida na mão de outra pessoa, precisei sofrer pra entender que a única pessoa capaz de me fazer feliz sou eu mesma. Agradeço pela mulher que me tornei e pelo ser humano em que estou me transformando depois dessa experiência.

Durante o longo processo de terapia e de auto-conhecimento que se iniciou durante esse período, descobri que meu ex-marido não foi minha primeira rejeição. Antes mesmo, vivi muitas ausências na minha infância, que ficaram estacionadas no meu inconsciente, e que vieram à tona após a separação. Agradeço porque descobri que meu processo de escolha de parceiros ainda é fruto do meu inconsciente, que aprendeu a ser abandonado e ainda insiste em manter essa relação simbiótica.

Agradeço porque depois da separação comecei a fazer o que sempre quis, frequentar lugares que sempre desejei, conhecer pessoas que sempre quis conhecer. Agradeço porque meus ciclos de amizade mudaram e a vida parece fazer muito mais sentido para mim hoje do que fazia antes. Me pergunto muitas vezes por onde eu andava que não transitava e nem circulava por esses novos espaços, por essas novas ideias, por esses novos caminhos. Agradeço porque depois dessa separação me sinto mais madura, mais forte, mais serena, mais certa do que quero pra mim.

Agradeço porque fui forçada a olhar o mais íntimo do meu ser, e mergulhar intensamente no processo de me sentir só no mundo e de me reconstruir a partir de um novo paradigma: a solitude. Agradeço porque aprendi que na vida tudo passa e que você não deve acreditar em todas as belas palavras proferidas por um coração apaixonado e que até mesmo o mais verdadeiro brilho dos olhos de alguém, um dia pode apagar e não é nele que você deve depositar a sua segurança. Agradeço por essa linda e bela separação (apesar de muito sofrida), que hoje bendigo, porque ela me devolveu a mim mesma.

Agradeço por ter aprendido que casamento não está numa folha de papel ou numa grande festa e celebração. Agradeço por me ensinar que sonhos nem sempre dão certo, mas que temos a capacidade de sonhar coisas novas, de que nossos sonhos sempre poderão ser reiventados, remoldados e redimensionados. O mais importante é nunca perder a capacidade de sonhar.

Obrigada que fui a me reconstruir, descobri o melhor de mim.

Por muito tempo, mal te quis, hoje quero te bendizer, até mesmo pelo mal que tenha me feito. ”

Também tem um desabafo para fazer ou uma história para contar? Então senta que o divã é seu! Envie seu relato para liane.thedim@azmina.com.br

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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