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Mais um assassinato de quem defende os direitos humanos

por Rebecca Souza
23 de maio de 2018
“Tão grandioso quanto suas dimensões do Norte do Brasil, são as violações de direitos humanos que aqui acontecem, como trabalho escravo e violência no campo “, escreve Rebecca Souza.

Escrevo esse texto ainda sobre o choque de saber da morte de Paulo Sérgio Almeida Nascimento. Ele era um dos representantes da Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama), que faz denúncias sobre problemas ambientais que atingem a região. Aos 47 anos, Paulo foi morto com quatro tiros no dia 12 de março

De acordo com o advogado da Cainquiama, Ismael Moraes, Paulo Sérgio era um dos mais atuantes nas denúncias contra a refinaria Hydro Alunorte, envolvida no vazamento de rejeitos de bauxita vindos da bacia de depósitos da empresa norueguesa instalada na região.

Em qualquer outro lugar um crime como esse já estaria sendo motivo de textos no Facebook, de comoções, de cobranças de justiça. Porém não no Norte!

O Norte do Brasil é composto por 7 Estados, e somente o Estado do Pará (local onde moro) tem uma extensão maior do que a de muitos países. Contudo, o Brasil esquece seu Norte. Ou ele vira todo Amazônia e floresta, ou “não existe”, como no caso do Acre.

Tão grandioso como suas dimensões são as violações de direitos humanos que aqui acontecem. Estamos quase sempre nos primeiros lugares nas estatísticas de trabalho escravo, exploração infanto-juvenil, tráfico de pessoas, violência no campo e, principalmente, mortes de ativistas de direitos humanos.

O caso mais emblemático é o da missionária estadounidense Dorothy Stang, assassinada em 2005, que somente tornou-se emblemático e conhecido por sua nacionalidade e pela pressão de órgãos internacionais.

No Brasil, a violência interrompeu a vida e o papel político de 124 ativistas, entre janeiro de 2016 e agosto de 2017, segundo o Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos. A maior parte das vítimas é formada por indígenas, sem-terra e pessoas envolvidas com a luta agrária e ambiental. Ao lado de Colômbia, Filipinas, Honduras e Índia, o Brasil figura entre os países mais perigosos para defensores de direitos humanos. (Entenda: Por que o Brasil é campeão mundial em assassinatos de ambientalistas).

Este meu texto não é apenas em homenagem a tantos outros e outras que tombaram baleados no Norte, é um pedido de socorro.

Sim, eu também estou na lista de ameaçados, também sou uma “mulher marcada”, não posso sair à noite, não tenho liberdade. Isso tudo unicamente porque cometi, assim como todos os que estão sob ameaça, o “crime” de questionar, denunciar, pois são os nossos ribeirinhos, nossos caboclos que estão sendo subjugados por aqueles que vêm de fora e acreditam que merecemos perecer.

Eu não sairia do Norte. Viajo, dou palestras, trabalho por todo o mundo, contudo retorno, pois aqui está meu coração.

Tem uma visão que me reconforta cada vez que chego na cidade de Belém, a cidade no meio do rio doce, daquele rio cor de barro que circunda nossa região. Infelizmente, foi esse rio que o desastre transformou em água vermelha.

Parecia um presságio, aquela água vermelha, parece o sangue no barro quando Paulo Sérgio foi alvejado.
No Norte, o rio se tinge de vermelho, seja pelos que vêm de fora com suas empresas poluidoras, seja pelo nosso sangue.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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