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Hilda Hilst era feminista porque era livre: não tinha medo e escrevia sobre tudo

por Bruna Escaleira
27 de julho de 2018
Na semana da Flip, convidamos uma aficionada pela obra de Hilda para apresentar a poeta homenageada em 2018

Por Hana Taragona*

Crédito: Divulgação

“De ares e asas não percebo nada.
Mas atravesso abismos e um vazio de avessos Para tocar a luz do teu começo.”

Hilda Hilst, trecho de “Sobre a Tua Grande Face” (1986)

Se te digo que a escritora Hilda Hilst foi uma feminista das maiores, tanto em seu tempo como agora, sei que de imediato vou ouvir a pergunta “Feminista? Onde?” e te entendo. Atentando pura e simplesmente à obra, às falas, aos versos, aos neologismos, não há mesmo nada de feminismo ali.

De certo, muitas foram suas chances de levantar a bandeira política da igualdade e, mesmo assim, ela não o fez. Ela que nasceu na década do sufrágio feminino no Brasil (legalizado em 1932), que cresceu nos anos em que Simone de Beauvoir publicava seus livros mais conhecidos, que viajava a Paris e conversava com poetas, músicos, filósofos, escritores e artistas.

Ainda assim, Hilda era feminista. Simplesmente por ser quem era e por viver sua vida como viveu. Era porque era livre.

Teve muitos namorados. “Eu enganava os homens” ela disse à câmera no documentário Hilda Humana Hilst (2002). “Foder com uma mula eu nunca fodi. O resto, fiz tudo. Parece que é difícil né, foder com uma mula, parece que as lhamas são muito carinhosas, mas como aqui não tem lhama eu não sei” – e ri.

“O desejo
Esse da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala. Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.”

Hilda Hilst, trecho de “Do Desejo” (1992)

Era porque escrevia sobre tudo e não tinha medo de nada – quiçá apenas da morte.

Falava de sexo, de amor, de morrer, de deus, de loucura. Falava de si. E seu amor escrito às vezes era, sim, aquele amor heteronormativo patriarcal, da mulher entregue e submissa a seu amado frio e distante. Mas, em suas mãos, amado e amante também se transmudavam em forças naturais: água, fogo, rio, terra, montanha – combatentes e diferentes entre si, mas iguais em potência.

Caio Fernando Abreu disse a ela em carta, em abril de 1969: “Sem ser panfletária nem dogmática, você é a criatura mais subversiva do país. Porque você não subverte politicamente, nem religiosamente (…) você subverte logo o âmago do ser humano.”

Hilda era uma mulher potente, contente e incontentável. Queria sempre estar apaixonada, pulava de Hilda em Hilda, foi namorada, amante, errante, esposa. Depois também desesposou (palavra aqui que inventei, como ela adorava fazer, pra dizer de jeito mais poético que se divorciou) e nunca quis ser mãe.

Loucura isso de acharem que toda mulher tem que ser mãe. Ela, já naqueles anos, queria mesmo era dar luz às suas obras, escrever e ser lida, ser con-su-mi-da.

“A poesia tem a ver com tudo o que não entendo. Tem a ver com a solenidade diante do mundo. Algo sagrado e importante que eu não queria perder, e ela sempre vem quando estou prestes a perder isso. A poesia é a hora dos trombones.”

Hilda Hilst em entrevista ao Jornal do Brasil (1989)

Diz que começou a escrever pornografia porque sabia que assim ia causar um rebuliço e queria mesmo era que falassem dela. Queria que a lessem, ainda que não a entendessem. Era mulher e não seguia o normativo, então a chamavam de “extremamente intelectual”, de “difícil”, de “eremita”. Um dia ela se cansou e foi para o escárnio, obsceno, cru e sarcástico.

Nesse ponto entro eu e minhas saudades, porque essa Hilda mais desbocada me lembra mesmo a minha vó. Vó essa que me foi em realidade a primeira mulher feminista que conheci.

Contemporânea de Hilda, vó Rosa foi da juventude comunista; lia muito, amava poesia, falava latim, usava calças, gostava de moda, casou por amor usando um vestido curto (imagina!) e, artista, fazia esculturas obscenas que até hoje trazem riso aos netos (como o ditoso Pintorelha que descansa na varanda dos meus pais, ou a Bumbôca na casa da minha tia).

Lembro de minha vó recitando Camões: “Alma minha gentil, que te partiste/ Tão cedo desta vida, descontente, /Repousa lá no Céu eternamente /E viva eu cá na terra sempre triste.”

Uma romântica, mais tarde ela descobriu que adorava os raps de Eminem.

Creio que Hilda e Rosa, se tivessem à época se conhecido, seriam grandicíssimas amigas. Eu as vejo juntas claramente, sentadas lado a lado no jardim, vestindo calças folgadas, fumando um cigarro com descuido e discutindo política. Política e amor. Amor e arte. Arte e mística. E morte.

Foram, as duas, mulheres intransponíveis. Invencíveis. Eternas.

Foram como tento ser hoje: elas mesmas. Não foram “mulheres de sua época” assim como não estavam também “à frente de sua época”. Nada disso. Foram simplesmente quem queriam ser, na autenticidade corajosa das mulheres que não temem os homens.

Eu, como romântica que também sou, me despeço aqui e te deixo com um poema de amor:

“A rosa do amor
 perdi-a nas águas.

Manchei meus dedos de luta
 naquela haste de espinho.
E no entanto a perdi.
Os tristes me perguntaram
 se ela foi vida p’ra mim.

Os doidos nada disseram
 pois sabiam que até hoje
 os homens
dela jamais se apossaram.

Ficou um resto de queixa
 na minha boca oprimida.
 Ficou gemido de morte
 na mão que a deixou cair.

A rosa do amor
 perdi-a nas águas.
 Depois me perdi
no coração de amigos.”

Hilda Hilst a Carlos Drummond de Andrade, livro “Balada de Alzira” (1951)

*Hana Taragona é feminazi esquerdopata comunistinha bissexual tatuada e louca. Com 28 anos recém-completos – e ainda nenhum diploma universitário no currículo -, adora prosas poéticas, incongruências gramaticais e fingir que sabe do que está falando.

**Se você é uma escritora ou tem alguma sugestão de autora para apresentarmos, envie e-mail para bruna.escaleira@azmina.com.br e nos conte tudo 😉

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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