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Feminista, negra, mãe, mulher: calaram mais uma de nós

por Paula Silva
15 de março de 2018
"A corda sempre arrebenta pro lado mais fraco. E com certeza, não é pro lado branco", escreve nossa colunista Paula Silva
Este cartaz está disponível em alta resolução para baixar, imprimir e levar pra rua. É só clicar no link.  (Crédito: Larissa Ribeiro)

Mataram mais uma das nossas ontem.

Não foi um assalto. Não foi uma tentativa de. Não foi simplesmente um crime cotidiano.

Foi uma execução. Um crime hediondo. Covarde. Hostil.

Marielle, presente!

Feminista, negra, mãe, mulher. Mulher de luta, mulher que batia de frente, mulher que peitava o Estado calamitoso do Rio de Janeiro.

Marielle, presente!

A quinta vereadora mais votada do Rio fazia muito barulho por lá. Chamava pra lutar com ela quem também não aguentava mais a intervenção militar que ocorre nas favelas cariocas desde muito tempo antes dessa intervenção atual articulada por golpistas e por gente que não quer preto favelado vivo.

Marielle, presente!

Ela queria respostas sobre mais um dos incontáveis casos que compõem essa realidade sangrenta que é o genocídio da população negra no Brasil. Ela queria botar a cara da força coercitiva do Estado no sol carioca. Ela não queria mais saber de jovens negros sendo jogados em valas. Ela não queria mais ver o sangue negro nas mãos do Estado. Ela queria ver o Acari em paz.

Marielle, presente!

Ela voltava de um evento chamado “Jovens Negras Movendo as Estruturas”. Ela esteve junto de pretas que lutam, igual a ela. Jovens pretas que também peitam esse Estado negligente, elitista, machista e racista. Jovens pretas, de luta, que ontem estavam felizes com a presença da “cria da Maré”, e hoje choram a sua ausência.

Marielle, presente.

Não mais.

9 tiros.

4 fatais.

Não levaram nada. Só a vida de mais uma das nossas.

Não foi um assalto. Não foi uma tentativa de. Não foi simplesmente um crime cotidiano.

Foi uma execução. Um crime hediondo. Covarde. Hostil.

Racista. Racista como esse maldito sistema que não nos quer vivos. Que quer nos calar a todo custo. Que quer nos emparelhar e nos encher de balas.

De 9 a 111 tiros a gente vai vendo que, no final das contas, quem paga o preço da luta é o povo preto. A corda sempre arrebenta pro lado mais fraco. E com certeza, não é pro lado branco.

Não é pro lado do Freixo. Não é pro lado do Duvivier. Não é pro lado da esquerda branca que se apropriou dos papos retos que a favela já vem mandando há tempos.

Arrebentou pro lado da Cláudia.

Pro lado do Amarildo.

Pro lado do DG.

Pro lado dos meninos do Acari.

Pro lado da Marielle.

Pro nosso lado. Pra variar.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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