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Consentimento no sexo também é algo a ser ensinado aos nossos filhos

por Tayná Leite
28 de fevereiro de 2018
"A pornografia é cada vez mais violenta e também mais acessível. Vamos deixar que esse seja o referencial de sexo de nossos meninos e meninas?", questiona Tayná Leite
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Arte: Anton Nefedov

O mundo parece mesmo estar mudando. E para melhor! Mulheres se levantam contra o assédio em diversas partes do mundo e nas mais variadas indústrias para dizer chega! Para compartilhar histórias e abrir cicatrizes mal ou bem curadas, necessárias para expor a ferida que precisa ser limpa. Na avalanche das denúncias, em meio a uma intensa reação contra esses movimentos (falaremos mais sobre isso em outro post, mas por enquanto aqui vai um artigo para saber mais como isso funciona), entre denúncias pesadas contra figurões e outras em que as pessoas se dividem entre achar o que foi e que não foi assédio (vide o caso Aziz Ansari), além de muita discussão boa (e outras nem tanto) sobre os limites do consentimento, eu enquanto esposa e mãe senti falta de uma outra discussão sobre a qual pouco se debate: o consentimento em relações estáveis.

Me peguei debatendo sobre isso com amigas e pensando: como explicar a meu filho que a namorada/noiva/mulher não lhe deve nada, muito menos sexo e nem acesso irrestrito a seu corpo. Como lidar eu mesma com a sensação que por vezes bate de que não posso dizer não muitas vezes seguidas, de que o sexo faz parte dos votos, dos deveres e direitos do casal, em especial do homem?

Nas rodinhas de mulheres casadas, mães ou não, mas principalmente mães, a “preguiça” do sexo é motivo de piada, e não é raro – aliás é bem comum – compartilharmos o quanto nos sentimos muitas vezes na obrigação de “comparecer”. Aprofundando um pouco mais percebemos que muitas vezes mulheres transam para evitar conflitos, para deixar o cara mais calmo, para ganhar afeto (se você quer afeto, peça afeto, se você quer sexo, transe!). Agimos como se fosse a nossa obrigação, não dizemos não (ou inventamos desculpas para poder dizer não, como a famosa dor de cabeça) e ficamos com a mesma sensação de ser usada. Já faz um mês que você está “regulando”? O homem está começando a ficar impaciente? O que fazer? Ao invés de mandar ELE se resolver sozinho, a gente faz o quê? Pensa: “melhor fazer um boquetinho pra resolver a situação do que ele ir procurar na rua!”. E fazer boquete se sentindo obrigada é o quê? 

Sabia que o Código Civil tratava o estupro marital como “débito conjugal” até 2003?

Quantas mulheres foram e são estupradas com frequência por seus maridos? Quantas não foram obrigadas a se casarem com 14, 15, 16 anos quando muitas vezes ainda brincavam com bonecas? Quantas chegaram à sua noite de núpcias sem sequer saberem o que ia acontecer? Uma conhecida conta com a maior graça a história de que a sua avó se casou e saiu correndo de volta para a família na noite de núpcias, pois ficou assustada com o que o marido queria lhe fazer. Nunca tinha visto um pinto, muito menos duro, muito menos querendo penetrá-la. De acordo com o relatório “Estupro no Brasil, Uma Radiografia Segundo Dados da Saúde”, divulgado pelo Ipea em 2014, 9,3% do abuso sexual sofrido por mulheres adultas são praticados pelo cônjuge e 1,6% pelo namorado. Embora isso seja realmente perturbador não é disso que estou tratando aqui.

O que eu quero falar aqui para vocês e para o meu filho é sobre o “consentimento tácito” que a sociedade acha que nós damos ao nosso parceiro quando aceitamos viver um relacionamento duradouro. Sobre a ideia encucada desde sempre nas nossas cabeças (e, pior, na deles!) de que “homem precisa mais de sexo do que mulher”. De que “se não tem em casa vai procurar na rua”.

Eu vejo todos os dias posts em grupos de mães em que mulheres aconselham umas às outras a retomarem as atividades sexuais no pós-parto mesmo sem vontade, mesmo sem lubrificação, mesmo com dor, porque isso “é obrigação do casal”. Muitas vezes se tenta disfarçar a violência por trás disso, alegando que seria da mesma forma se a mulher quisesse sexo e o homem não.

Não seria!

Uma amiga me confidenciou que quando ela era criança a mãe lhe disse que se não fizéssemos sexo com o homem ele ficava louco. Isso se transmuta em uma crença de que era nossa função, enquanto mulheres, manter a sanidade mental daquele homem que, afinal de contas, nos escolheu e nos tirou da desgraça de ser uma mulher só, na cama. No final das duas últimas relações (todas de longo prazo sendo que da última nasceu um lindo menino) ela acreditava que o problema de não querer fazer sexo era um defeito dela, que ela era responsável pelo término, pois é muito difícil para nós mulheres enxergamos as milhares de razões pelas quais perdemos a libido, sendo uma das mais importantes o total e absoluto descomprometimento e a falta de esforço dos parceiros em nos manter com tesão. Mesmo ela, que sempre foi uma pessoa que gostava muito de sexo, quando viu seu desejo sumir, sofreu as consequências no casamento. Ele se revoltou e “foi para vida”. E ela ? Ela sequer se questionou se há algo de errado com a sua sexualidade e com a sua forma de encarar essa questão.

Precisamos urgentemente desconstruir a ideia de que estar em um relacionamento autoriza automaticamente o acesso ao seu corpo sem seu desejo e consentimento (naquele dia, naquela semana ou na vida!). Ter isso claro para si e ensinar a nossas meninas e meninos é essencial!

Eu tenho feito esse exercício cada vez. Faz uns 5 anos talvez que eu comecei a não mentir mais sobre não querer. Não digo mais: “estou cansada” se não estou e apenas não estou a fim. Digo: “não estou com vontade!” ou “não quero hoje”. Sempre me esforço para isso e vejo que tem sido bom para o relacionamento por um lado pois ele me respeita e, se dou brecha também se esforça mais a me fazer ficar com vontade. Nós precisamos mesmo nos exercitar para impor nossos limites, conversar com eles sobre isso. Eles não sabem que nós estamos “nos obrigando”. Eles não entendem essa imposição social pois não é a deles. Agora, se ele for embora por causa disso o problema é DELE não nosso!

Amor e desejo não estão necessariamente ligados. Desejo e disposição muitas vezes não andam juntos (especialmente em um mundo em que mulheres vivem sobrecarregadas). Podemos amar intensamente e não estar com tesão por trocentos mil motivos – e em muitos casos inclusive a falta de interesse deles pelo nosso prazer – e isso não é necessariamente uma rejeição. Como disse a minha amiga acima citada: eles precisam ser menos infantis no seu sentimento mimado de rejeição egóica pintóica.

Enquanto mães e mulheres precisamos também abordarmos o papel da pornografia na concepção de sexo e prazer.

Precisamos falar aos nossos meninos e meninas sem tabus sobre o quão falsos e inverídicos são esses modelos. O cara não vai sair pelado do banheiro e a mulher vai estar com a perereca saltitando sem nenhuma preliminar. Eles precisam saber disso. Eles precisam saber dar prazer a uma mulher e as meninas precisam saber como se dar prazer para poder identificar o que não gostam, o que não querem e poderem dizer não.

Soube de um outro caso em que o cara broxou com a menina e então perguntou se poderia colocar um vídeo. Ele colocou o vídeo dele comendo uma puta e se masturbou, ela não achou legal, mas também ficou lá quietinha vendo isso e o cara achando aquilo tudo super excitante. Uma outra deu o cu sem estar com vontade por força da insistência do marido, depois ficou chorando como se tivesse sido estuprada e, ainda por cima, possivelmente culpada por estar se sentindo assim. E sim, isso gera uma sensação de vazio, uma tristeza que é de fato difícil de ser nomeada ou até mesmo descrita.

Sim, essas reflexões são importantíssimas e muito doloridas também. Todas nós já fizemos sexo sem vontade achando que era nossa obrigação e isso é realmente fruto de uma sociedade que

  1. Acha que nossa função na vida é dar prazer aos homens
  2. Faz eles acreditarem que sexo é aquilo que eles veem na pornografia.

“Mas Tayná, como é que eu vou falar sobre isso com meu filho? Isso é muito constrangedor!”

Falando! Não tem outro jeito! Não falamos sobre como ser uma boa pessoa, sobre respeitar os outros, sobre ser honesto e sobre ter empatia com o próximo? Pois então, todos esses temas podem ser usados para puxar o assunto do respeito ao corpo das meninas quando a sexualidade deles estiver despertando. Pode ser ao assistir uma novela, um filme ou um seriado com aqueeeeelaaaa cena constrangedora. Por que não tomar a oportunidade para falar sobre o assunto?

Precisamos encarar que a pornografia é ao mesmo tempo cada vez mais violenta e também mais acessível. Não é mais a revista ou o filme erótico que era um trampo pra descolar na nossa época. Está no celular do amiguinho, em tudo quanto é lugar. Precisamos partir da premissa de que eles terão (se já não tiveram) acesso a ela. Podemos assumir isso e tomar as rédeas do aprendizado, ou enfiar a cabeça na areia e deixar que esse seja o referencial de sexo de nossos meninos e meninas.

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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