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À minha amiga Marielle: morremos na noite do dia 14, mas renasceremos em coletivo

por Evelyn Silva
16 de março de 2018
"Marielle era ampla, aberta como sua risada, como sua vontade de luta, gigante", conta Evelyn Silva
Crédito: Arquivo pessoal Evelyn Silva

Ubuntu: “Eu sou porque nós somos”. Essa palavra zulu, com esse signifigado tão profundo, foi o que orientou a vida da minha amiga e companheira de luta Marielle Franco.

E ontem, dia 15 de março, talvez tenha sido o mais difícil dos dias porque se “sou porque somos”, também morremos com Mari e estávamos nos despedindo de uma parte de nós.

Mari foi arrancada de nós por uma execução brutal que teve motivação política e uma escolha de alvo de puro ódio. Não se enganem. Marielle morreu mais por ser negra, favelada, lésbica e fazer da luta por essas pessoas, que também eram ela, sua vida, do que por ser uma vereadora da esquerda socialista.

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A execução de Marielle Franco foi plural: foi feminicídio, foi extermínio do povo negro, foi lesbofobia, foi assassinato de defensores de Direitos Humanos. Algumas perguntas terão que ser respondidas pelos órgão institucionais de segurança, essas não nos cabem.

Mas a reflexão profunda do porquê corpos negros, das periferias e LGBTs são mais descartáveis do que os outros, teremos que fazer em sociedade. Teremos que enfrentar e superar nosso racismo, nosso machismo, nossa LGBTfobia, nossos discursos de ódio e de punitivismo, nosso desprezo pelos Direitos Humanos (tão caros para Marielle, uma defensora incondicional!), para que possamos manter uma mínima marca de civilização e humanidade.

Teremos que repudiar a falta de empatia e essa psicopatia social que nos assola e nos transforma em um país campeão de assassinatos de minorias e genocídio de povos. Teremos que ser quem somos e também ser todos na plenitude de suas maravilhosas diferenças.

Cerca de 200 mil pessoas foram na Cinelândia ontem à noite para mostrar sua indignação pelo assassinato de Mari e Anderson. Muitas mais, se contarmos as que estiveram na jornada que começou às nove da manhã, o longo dia da separação de quem nós também éramos.

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Mari deixa uma viúva. Uma companheira de vida pouquíssimo mencionada no dia da despedida mas que estava lá, segurando firme a dor de ter um grande amor subtraído a tiros. De todos os abraços que nós, amigos de Marielle, nos demos para tentar confortar um pouco o vazio que fica, o mais doloroso para mim foi o trocado com ela, a companheira, a viúva da minha amiga, já no sepultamento.

Mesmo pessoas queridas pensam que ao omitir a orientação sexual de Marielle estão protegendo sua privacidade. Não é verdade. Mari nunca escondeu, ao contrário, tinha orgulho e fez da luta pelas lésbicas parte importante de seu mandato. Quantas vezes lamentei meu autoexílio no Cerrado ao receber os convites das atividades e debates por e para lésbicas organizados pelo mandato de Marielle Franco?

Mari incorporava também o amor, a política com amor, com afeto, com empatia, com Ubuntu. Esconder seu amor de vida seria esconder a si mesma. Então não, Marielle era ampla, aberta como sua risada, como sua vontade de luta, gigante.

E esse gigantismo tomou ontem o país. Porque ela era quem somos; a nós mulheres, pretas, lésbicas, faveladas, trans, travestis, indígenas, nos mataram à bala. A nós, que somos o Brasil. E porque morremos na noite do dia 14 de março de 2018, renasceremos em coletivo, na massa, no povo, assim como Mari, e resistiremos.

#MariellePresente

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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