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Racismo e machismo de brasileiros na Rússia são problemas sistêmicos, não de indivíduos

por Tayná Leite
21 de junho de 2018
“Quando tratamos a questão de forma individualizada e fora de nós dificilmente resolveremos um problema que é, em sua essência, sistêmico e estrutural. Se não nos vemos parte dele, como seremos parte da solução?”, questiona Tayná Leite

Vou poupar caracteres na explicação do contexto, pois, a não ser que você esteja em Marte, já deve estar sabendo do vídeo que viralizou dos 4 brasileiros assediando uma moça russa e de toda a comoção popular que isso tem causado. Páginas e mais páginas, de esquerda e de direita, feministas e não feministas, celebridades e cidadãos comuns compartilhando revoltosos o vídeo que já deve tido milhões de visualizações e pouquíssimo tempo.Quero usar esse espaço então para trazer uma reflexão sobre o quanto esse tipo de descarga emocional, na minha opinião, ajuda quase nada, quando não atrapalha, a pauta e a luta dos movimentos sociais, em particular aqui o feminismo e o racismo envolvidos na atitude dos brasileiros.

(essa é a hora em que uma parte das pessoas não continua a leitura e depois vai no feed comentar “nem terminei de ler mas…” então peço encarecidamente que terminem de ler para então conversarmos e debatermos sobre!)

Antes de falar especificamente do porque a mera exposição e compartilhamento infinitos dos nomes dos caras, da vida inteira deles e tudo mais não ajuda em nada a transformação social e o fim do machismo que nos violenta e mata todos os dias, vamos falar um pouco sobre culpa e punitivismo.

Brené Brown tem um vídeo ótimo de 3 minutinhos que resume de forma absolutamente didática sua extensa pesquisa sobre o tema, demonstrando como a culpa (ou encontrar culpados) é um sentimento na maioria das vezes inútil e que representa apenas a descarga de um desconforto emocional com o qual não sabemos lidar. A culpa tem uma relação inversa com assumir responsabilidade.

A culpa em geral nos coloca em uma posição de vitimização e indignação. Um lugar de não ação o que, por sua vez, é o inverso do protagonismo. Não nos vemos como agentes e sim como reféns da situação e, portanto, não há nada que possamos nós mesmos fazer a respeito de um determinado problema a não ser descarregar nosso desconforto emocional nos culpando, ou encontrando culpados para os problemas que nos assolam.

Se olhássemos hoje as redes sociais, o Brasil deve ser o país menos machista e mais intolerante com a misoginia o que, bem sabemos, passa bem longe de ser verdade. A quantidade de pessoas que estão compartilhando a questão deslocadas do problema é que me preocupa!

“Eles” são machistas. “Eles” são racistas. “Eles “são “doentes”.

Só que “eles” são a regra e não a exceção! E quando tratamos a questão de forma individualizada e fora de nós dificilmente resolveremos um problema que é, em sua essência sistêmico e estrutural. Se não nos vemos parte dele, como seremos parte da solução?

Uma outra questão está relacionada a esse prazer quase sádico de ver o circo pegar fogo que é característico da nossa sociedade punitivista. Queremos o escárnio, a punição com uma energia infinitamente maior do que a proposição e a ação. Basta ver as visualizações, curtidas, compartilhamentos, etc. de notícias e medidas propositivas quando comparadas a notícias de tragédias, trollagens e bizarrices como esses vídeos machistas.

Meu medo nesse comportamento coletivo é o de que o resultado final dessa história seja, como tantas outras, uma total vitimização de todos os lados. Descarrego do desconforto emocional de todo mundo em cima de 4 sujeitos que poderiam ser (e são) quaisquer outros e os sujeitos se sentindo injustiçados e vítimas de uma situação, pois “todo mundo está exagerando e eles não fizeram nada que todos os outros caras não façam”.

– Mas Tayná, você acha então que eles não devem ser responsabilizados, perder emprego (como parece que aconteceu com um deles), e se arrependerem do que fizeram?

Eu acho que eles devem ser responsabilizados sim! Eu acho inclusive que eles deveriam ser processados pela moça (ou quem de direito) e não vou derrubar nenhuma lágrima por terem perdido emprego ou a reputação. Principalmente, acho que devemos aproveitar esta oportunidade para conversarmos sobre o quanto essas atitudes misóginas são tóxicas e passam longe de ser uma brincadeira. Só que mais do que isso, eu acho perigosíssimo esse discurso de distanciamento e de patologização do machismo. Eles não são a escória, eles não são doentes! Eles são apenas homens comuns!

Eu quero é que todos os homens que estão no rolê escutem sobre como eles são/foram violentos. Eu quero que eles parem de rir dessas merdas e que eles se posicionem e compreendam que isso está tão introjetado socialmente que “homem de família” também xinga mulheres na rua sim. Que eles não são os monstros maus que todo mundo está pintando e por isso foram machistas. Eles podem ser excelentes pais, companheiros, amigos, brother mesmo e mesmo assim serem esses escrotos que eles foram. Essa análise reducionista do ser humano do OU ao invés do E faz com que nem eles e nem que age como eles reflitam sobre suas ações e sobre o como o machismo/racismo funciona estruturalmente.

Uma vez em uma palestra em que falava sobre como as atitudes de praticamente 100% da sociedade em relação a mães é machista, um homem se incomodou pois disse que eu estava colocando no mesmo patamar machistas do nível mutilação genital ou estupro com o homem que não troca fralda ou não lava louça. E que isso não está certo pois ele, jamais cometeria uma violência dessas embora possa ter atitudes machistas sem querer.

E é bem isso mesmo que eu estava e quero fazer. Colocar tudo no mesmo patamar conceitual porque eu acredito que são todas consequências da mesma ideia: a de que a mulher não é digna do mesmo tratamento de respeito que o homem. A desumanização da mulher, do negro, do trans e demais grupos não normativos e hegemônicos. Não creio que os homens que mutilam mulheres em países em que isso é culturalmente aceito sejam monstros tanto quanto os que aqui fazem essas piadas abusivas e tóxicas também não o são (ou ao menos não necessariamente). Eles são parte de um sistema do qual em última instancia somos também todas nós, ora vítimas, ora algozes.

Vou extrapolar aqui um outro exemplo que foi recentemente a discussão sobre as músicas racistas dos Jogos Jurídicos. A revolta era coletiva e, assim como agora, todo mundo correu denunciar o quanto esses futuros advogados são racistas. Músicas violentas e opressoras são cantadas há anos em todos os Jogos e todo mundo sempre as naturalizou. Isso é o que acontece com o machismo, racismo, classismo e sistemas de opressão em geral. A gente está tão impregnado neles que o esforço para se desconstruir tem que partir necessariamente de uma reflexão individual simultânea a uma discussão coletiva e estrutural.

Eu mesma já gritei para colegas da UFPR em Jogos que “sua mensalidade é o salário do meu pai” sendo que 1) eu nem tinha pai presente; 2) ele beirava a indigência; 3) eu era a pessoa mais pobre da minha faculdade (fudida mesmo); 4) a maioria das pessoas da UFPR era mais rica do que eu inclusive! As opressões estruturais funcionam assim! Fosse eu presa naquele contexto me faria refletir sobre tudo isso? Provavelmente não! Faria eu, moça trabalhadora, esforçada, sofredora, me sentir ainda mais vítima da sociedade.

Isso quer dizer que as pessoas não devam ser responsabilizadas (inclusive eu se fosse o caso)? Absolutamente! Isso significa apenas que não adianta querermos tapar o sol com a peneira achando que apenas a individualização do problema irá trazer uma mudança. Não vai! E ainda gera a revolta do grupo privilegiado que se sente perseguido, injustiçado etc.

Acredito que a punição severa da instituição, por exemplo seria muito mais eficaz, pois seria ela a se sentir responsável por educar e trabalhar essas questões. Assim como no caso dos times de futebol. Acho absurda a individualização do sujeito isentar de responsabilidade o clube. O clube deve ser punido pois somente assim ele tomará medidas para que esse tipo de situação não volte a acontecer.

Quanto ao sujeito e à sua responsabilização acredito que seja necessário despersonalizarmos o problema e mostrarmos como essas condutas estão, em alguma medida, muito mais naturalizadas do que gostaríamos de admitir.

Me perceber racista, machista e classista (mesmo sendo pobre durante a maior parte da minha vida e mesmo sendo mulher) foi e é um processo doloroso e difícil, mas me faz também ser vetor da mudança. Se sou eu a racista, se sou parte do problema posso ser parte da solução. Isso me leva a perguntar-me sempre: o que estou fazendo para resolver esse cenário? O que estou fazendo com meus privilégios? Como saio do discurso e da revolta com o outro para assumir a minha cota de responsabilidade pela merda toda? Onde estou efetivamente agindo na minha vida, nas minhas relações de afeto para repensar os sistemas de opressão em que ora sou oprimida e ora sou opressora? Se eu vier a falar uma bosta racista ainda que “sem intenção” saberei que posso pagar um preço por aquilo ao invés de ficar me vitimizando de linchamento virtual.

Então, para não deixar dúvidas à interpretação de texto: 1) sim, eles devem ser responsabilizados; 2) não, isso não resolve o problema se ficamos na questão individual achando que o problema está fora. No segundo caso pode inclusive ser um desserviço.

Eu não compartilhei o vídeo basicamente por duas razões: 1) não acho certo expor essa mulher que nem sei se sabe o que está acontecendo; 2) não quero que os algoritmos entendam aquilo como relevante enquanto conteúdo e fui muito questionada e por isso quero esclarecer aqui que minha questão ao compartilhar o vídeo não está em “coitados estamos destruindo a vida deles”.

Defendo que se deve denunciar a questão fazendo textos, compartilhando reflexões, mas que se deve evitar compartilhar o vídeo em si pois na maioria das vezes a gente acaba ajudando a reproduzir justamente o contrário do que queríamos. Pode parecer chocante para algumas de nós, mas uma parcela considerável dos que viram o vídeo (inclusive após a polêmica) devem ter achado o mesmo engraçado e divertido. E eu não quero dar relevância para esse conteúdo. Desde que ouvi uma explicação sobre como funciona isso nos algoritmos e sobre como foi graças também a isso que temos figuras como Bolsonaro com chances reais de dar trabalho na eleição à Presidência eu nunca mais compartilho esse tipo de conteúdo.

Fora isso, enquanto nós estamos viralizando esse conteúdo, esses vídeos, Bolsonaros e seus minions e tudo quanto é tipo de bizarrice, tem muito projeto bacana, tem muita iniciativa propositiva de mulheres, mulheres negras especialmente, que precisam ter compartilhamentos, para terem visibilidade e apoio.

Minha proposta então é de que antes de viralizar seja lá o que for, nos perguntemos: isso é descarga de desconforto emocional, ou uma ação propositiva? Isso resolve e agrega em quê? ”

* Tayná Leite é colunista da Revista AzMina

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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